Minha ex-madrasta e o enteado: o café da manhã que decidiu tudo (Parte 4)
Ele saiu às oito e meia. Eu não dormi. Nenhum dos dois dormiu, na verdade. A gente passou a noite deitado na minha cama, de roupa, sem se tocar, olhando o teto. Às vezes um de nós começava uma frase e parava.
"Se ele…"
"Eu sei."
"E se a sua mãe…"
"Eu sei, Renata."
Às sete, ele levantou, tomou banho, vestiu uma camisa limpa. Parou na porta do quarto antes de sair.
"Seja o que for que ele disser", ele falou, "eu volto."
"Você não precisa voltar."
"Eu sei. Eu volto mesmo assim."
A porta fechou. Fiquei sozinha com o apartamento, com os ímãs de geladeira que eu tinha recolocado na ordem errada, com a camiseta manchada de batom jogada no cesto de roupa do banheiro. Peguei a camiseta e fiquei olhando a marca. A boca. A minha boca no ombro do filho do meu ex-marido.
Pensei em ligar para a minha irmã. Pensei em ligar para a minha terapeuta, que eu não via desde 2023. Pensei em ligar para o Augusto e pedir desculpa, e não sabia pelo quê.
Não liguei para ninguém. Fiz café e não bebi. Sentei na varanda, onde um dia eu lia livros em inglês enquanto um rapaz de 19 anos fingia não gostar de Elis Regina.
⁂
Ele voltou às onze e quarenta. Eu ouvi a chave na porta e não levantei. Ele veio até a varanda e ficou parado na porta de vidro.
"E aí?", eu disse, sem olhar para ele.
Ele sentou na cadeira do lado. Demorou para falar.
"Ele perguntou há quanto tempo. Eu disse seis dias. Ele riu."
"Riu?"
"Riu. Daquele jeito dele, pelo nariz. Disse: 'Seis dias e você já tá com essa cara.'" Lucas passou a mão no rosto. "Aí ele perguntou se começou quando vocês eram casados."
Meu estômago virou. "E você?"
"Eu disse que não. Que eu nunca te olhei assim naquela época. Que eu tinha 19, 20 anos, e te admirava, mas que você era a mulher dele e eu respeitava. Que só aconteceu agora, que vocês estão separados há três anos, que eu sou adulto e você é livre." Ele respirou. "Eu disse que se ele quisesse ficar com raiva de alguém, ficasse de mim."
"E ele?"
Lucas ficou quieto um tempo. Olhou para a rua.
"Ele ficou calado muito tempo. Pediu outro café. Aí disse uma coisa que eu não esperava." Lucas virou para mim. "Disse: 'Eu fui um péssimo marido pra ela. Eu sabia e não mudei. Ela merecia alguém que olhasse pra ela do jeito que você olhou ontem na cozinha.'"
Eu pus a mão na boca.
"Depois ele disse que era estranho. Que ia demorar pra ele se acostumar. Que não queria saber detalhe nenhum, nunca, na vida. Que eu não podia contar pra Márcia por enquanto, nem pra minha mãe, porque ele queria ser o primeiro a falar com a minha mãe, do jeito dele." Lucas riu, nervoso. "E aí ele me deu um abraço e disse: 'Cuida dela. Ela é melhor do que nós dois juntos.'"
Eu comecei a chorar. Chorei como não tinha chorado nem no divórcio, com o rosto nas mãos, os ombros sacudindo. Lucas levantou e ajoelhou na minha frente, e me abraçou, e ficou ali, no chão da varanda, até eu parar.
⁂
"Eu achei que ia perder tudo", eu disse depois, com a voz rouca. "Você. A amizade com ele. A minha cara."
"Você não perdeu nada."
"Ainda não. Mas sua mãe…"
"Minha mãe vai surtar. Vai me ligar chorando. Vai dizer que você é uma predadora e que eu sou um menino." Ele sorriu. "E aí vai passar. Eu tenho 24 anos, Renata. Ela sabe que eu não sou menino. Ela só vai precisar de tempo pra lembrar."
"E as pessoas? Os amigos? O que vão dizer de uma mulher de 42 com o ex-enteado?"
"Vão dizer que você tem bom gosto."
Eu ri entre as lágrimas. Ele limpou meu rosto com o polegar.
"Eu volto pra Lisboa na terça", ele disse. "Entrego o apartamento, me despeço, resolvo a mudança. Em janeiro eu tô aqui. A pergunta é se eu volto pra cá ou pra um apartamento só meu."
Eu fiquei olhando para ele.
"Você tá me pedindo pra morar junto?"
"Não. Ainda não. Eu tô te perguntando o que você quer. Eu fiz essa pergunta na primeira noite, lembra? Você nunca respondeu."
Era verdade. Eu nunca tinha respondido. Eu tinha deixado ele dizer "eu te amo" no sábado à tarde e fiquei calada.
⁂
Naquela noite, a última de verdade, porque segunda ele ia dormir na casa de um amigo perto do aeroporto, eu fiz uma coisa que nunca tinha feito.
Preparei o quarto. Troquei os lençóis pelos de linho branco que eu guardava para nada. Acendi velas, como uma mulher de filme. Coloquei o disco da Elis na vitrola da sala, alto o suficiente para chegar até o quarto. E esperei ele chegar da rua, onde tinha ido comprar vinho, sentada na cama com uma camisola de seda preta que eu tinha comprado na tarde daquele mesmo dia, sozinha, numa loja da Oscar Freire, me sentindo ridícula e corajosa.
Ele abriu a porta do quarto e parou.
"Renata."
"Vem cá."
Ele largou a garrafa no chão do corredor. Entrou devagar, olhando as velas, os lençóis, eu.
"O que é isso?"
"É a minha resposta."
Ele ficou parado na beira da cama. Eu levantei, ajoelhada no colchão, e segurei a camisa dele. Desabotoei devagar, como ele tinha feito comigo na primeira noite.
"Na primeira noite você ficou parado na minha porta pra eu escolher abrir", eu disse. "Hoje fui eu que preparei a porta."
Tirei a camisa dos ombros dele. Beijei a andorinha.
"Eu te amo, Lucas", eu disse contra a pele dele. "Eu tô com medo de te amar. Mas eu te amo. E eu quero que você volte pra cá em janeiro."
Ele segurou meu rosto. Os olhos dele estavam molhados.
"Pra cá?"
"Pra cá. Pra essa cama. Pra minha cozinha. Pra lasanha, pro disco, pra tudo."
Ele me beijou como na primeira noite. Devagar, com reverência, como quem não acredita.
⁂
Fizemos amor como quem faz uma promessa.
Ele me deitou nos lençóis de linho e tirou a camisola de seda com uma paciência absurda, beijando cada pedaço que ia aparecendo. Eu tirei a calça dele, a cueca, e segurei ele na mão, duro, quente, e olhei nos olhos dele enquanto mexia devagar. Ele gemeu meu nome.
"Hoje eu quero sem pressa", eu disse. "A noite inteira."
"A noite inteira", ele repetiu.
E foi. Ele me chupou até eu gozar uma vez, com as velas tremendo. Eu chupei ele depois, devagar, ajoelhada entre as pernas dele, sentindo o gosto, olhando para cima, vendo ele agarrar o lençol e jogar a cabeça para trás. Ele me puxou antes de gozar.
"Dentro de você", disse. "Eu quero estar dentro de você."
Pôs a camisinha. Deitou em cima de mim. Entrou devagar, os olhos nos meus, e ficou parado lá dentro, inteiro, sem se mexer.
"Renata", ele disse. "Em janeiro, quando eu voltar, eu quero fazer isso todo dia."
"Todo dia vai cansar."
"Não vai."
"Vai. E vai ser bom cansar."
Ele riu e começou a se mexer.
Foi lento e fundo e demorado. As velas foram queimando. A Elis terminou e o disco ficou chiando na sala, e nenhum dos dois levantou para trocar. Ele me virou de lado e entrou por trás, me abraçando, a boca no meu pescoço, a mão entre as minhas pernas. Depois eu subi em cima dele e me mexi devagar, olhando a cara dele na luz das velas, a cara de um homem que eu conhecia havia cinco anos e que eu estava conhecendo pela primeira vez.
Gozei com ele dentro de mim e as mãos dele nos meus seios, e não fechei os olhos. Queria ver. Ele gozou logo depois, me puxando para baixo, me abraçando forte, dizendo eu te amo no meu cabelo, várias vezes, como se tivesse guardado para dizer de uma vez.
⁂
Na terça, levei ele ao aeroporto. A gente se beijou no meio do saguão, na frente do balcão da companhia aérea, sem se importar com quem estivesse olhando. Uma senhora sorriu para nós. Um rapaz de uniforme desviou o olhar.
"Dezembro passa rápido", ele disse.
"Não passa."
"Não passa", ele concordou. "Mas eu volto. Andorinha."
Ele passou pela segurança e acenou do outro lado do vidro. Eu fiquei acenando até ele sumir.
No estacionamento, dentro do carro, meu celular vibrou. Achei que era ele. Não era.
Era um número de Curitiba.
Renata, aqui é a Sônia, mãe do Lucas. O Augusto me ligou ontem. Eu preciso falar com você. Pessoalmente. Estou indo para São Paulo na sexta. Me diga onde podemos nos encontrar.
Eu fiquei olhando a mensagem com a chave na ignição, o motor desligado, o barulho de um avião decolando em cima do estacionamento.
Talvez fosse o dele. Talvez não.
Digitei uma resposta. Apaguei. Digitei de novo, devagar, com as mãos firmes pela primeira vez em muitos dias.
Na minha casa. Às quatro. Vou fazer café.
E liguei o carro.
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