✒ Escrito por humanoLGBTQIA+ · 12 minConto #101

Meu vizinho gay e a noite da queda de energia (Parte 1)

por Noa Bruma

gay

A luz caiu às nove e dez, no meio de um e-mail que eu já devia ter mandado de manhã. O notebook continuou aceso, o ventilador parou, e o prédio inteiro soltou aquele suspiro coletivo de quando a gente perde a energia e o barulho de fundo some de uma vez. Do corredor veio uma risada. Depois, a voz do porteiro no interfone mudo, alguém xingando a concessionária, uma criança chorando dois andares abaixo.

Eu tinha 29 anos e não tinha uma vela em casa. Isso diz bastante sobre a minha vida naquela época. Um apartamento alugado de quarenta metros, uma geladeira com cerveja e mostarda, uma cama de casal em que eu dormia sozinho havia oito meses, desde que a Carol tinha ido embora dizendo que eu parecia estar sempre esperando alguma coisa que não era ela.

Ela tinha razão. Eu só não sabia o que era.

Peguei o celular, liguei a lanterna e fui até o corredor. A porta do 704 estava entreaberta, e de dentro vinha uma luz amarela, tremida, de chama.

O 704 era do Tomás. Eu sabia o nome porque ele tinha se apresentado no elevador no dia da minha mudança, estendendo a mão com uma naturalidade que me desarmou. "Tomás, do lado. Qualquer coisa, bate." Arquiteto, eu descobri depois, pelas plantas enroladas que ele carregava. Uns trinta e poucos anos. Uma vez, numa sexta, eu tinha visto ele chegar de mãos dadas com outro homem, rindo, e tinha ficado parado no hall com a chave na mão, sem saber por que meu coração tinha acelerado.

Bati.

"Tá aberta", ele disse lá de dentro.

⁂

O apartamento dele era o espelho do meu, só que habitado. Tinha livros empilhados no chão, uma prancheta de desenho perto da janela, plantas por todo lado. E velas. Umas doze, espalhadas na mesa, na estante, no parapeito, como se ele estivesse esperando o apagão.

Ele estava sentado no sofá, descalço, de bermuda e camiseta cinza, com uma taça de vinho tinto na mão.

"O vizinho sem vela", ele disse, e sorriu. "Eu sabia que você ia aparecer."

"Como?"

"Você tem cara de quem não tem vela."

Eu ri. "Tenho cara de quê?"

Ele me olhou de cima a baixo. Demorou um pouco mais do que o necessário. Senti aquilo na pele, como um calor que vinha de fora.

"Cara de quem mudou há pouco tempo e ainda não comprou nada que não precise."

"Isso é muito específico."

"Eu sou arquiteto. Eu reparo em espaço vazio."

Ele levantou, pegou duas velas da estante e me ofereceu. Quando eu estendi a mão para pegar, ele não soltou de imediato. Nossos dedos ficaram encostados em volta da cera.

"Ou você pode ficar", ele disse. "A luz não volta tão cedo. Já liguei pra concessionária. Disseram três horas. E eu abri um vinho que é bom demais pra beber sozinho."

Eu devia ter dito não. Eu tinha um e-mail para mandar, que não ia mandar sem internet. Eu tinha uma cama vazia esperando. Eu tinha, sobretudo, um medo que eu não sabia nomear, mas que tinha a ver com o jeito que meus dedos estavam formigando naquela vela.

"Fico", eu disse.

⁂

Ele me serviu numa taça que não combinava com a dele. Sentei na outra ponta do sofá. A chama mais próxima fazia a sombra dele dançar na parede.

Conversamos. Era fácil conversar com ele. Ele perguntava e depois realmente esperava a resposta, uma coisa que eu não estava acostumado. Contei do trabalho, de analista de dados numa seguradora, que eu odiava de um jeito silencioso. Contei da Carol, por alto. Ele contou que tinha terminado um namoro de cinco anos fazia seis meses.

"O cara do elevador?", perguntei, e me arrependi na hora.

Ele levantou uma sobrancelha. "Você reparou."

"Vocês estavam rindo. Foi difícil não reparar."

"Não. Aquele era o Fábio. Foi depois. Durou três semanas." Ele girou o vinho na taça. "O de cinco anos se chamava Henrique. Ele queria filhos e uma casa em Atibaia. Eu queria morar aqui e desenhar prédio. A gente se amava, mas não queria a mesma vida."

"Isso é pior do que não se amar."

"É. Bem pior." Ele me olhou. "E você? Por que a Carol foi embora de verdade?"

Fiquei quieto. O vinho estava descendo quente. A luz da vela fazia tudo parecer mais perto.

"Ela disse que eu parecia estar esperando outra coisa."

"E estava?"

"Eu não sei."

Ele não disse nada. Só ficou me olhando, com uma paciência que me deu vontade de chorar e de sair correndo ao mesmo tempo.

"Posso te perguntar uma coisa?", ele disse depois de um tempo.

"Pode."

"Você já ficou com homem?"

Meu coração bateu na garganta. Eu poderia rir, dizer que não, que eu era hétero, que só tinha vindo buscar uma vela. Era a resposta que eu tinha dado a vida inteira, para os outros e para mim.

"Não", eu disse. E depois, sem saber de onde vinha: "Mas eu já pensei."

⁂

Ele não se mexeu. Isso foi o que me deixou continuar. Se ele tivesse vindo para cima de mim, eu teria ido embora. Ele ficou exatamente onde estava, a taça na mão, e esperou.

"Desde quando?", ele perguntou.

"Desde sempre, eu acho. Mas eu achava que era curiosidade. Que todo mundo pensa. Na faculdade tinha um cara no meu grupo de estudo, o Rafael, e eu ficava… eu ficava esperando ele chegar. Ficava olhando a boca dele quando ele explicava as coisas. Achei que era admiração."

"E não era."

"Não sei. Eu nunca fiz nada. Eu namorei a Carol quatro anos e eu gostava dela, eu juro que gostava. A gente transava bem. Mas…"

"Mas você ficava esperando."

"É."

Ele colocou a taça na mesa de centro. Devagar. Depois se virou de lado no sofá, de frente para mim, um joelho dobrado em cima da almofada.

"Davi", ele disse, e foi a primeira vez que disse meu nome. "Eu vou te falar uma coisa, e aí você decide o que faz com ela. Tá?"

"Tá."

"Eu tô a fim de você desde o dia do elevador. Eu achei que você era hétero e deixei pra lá. Mas você tá aqui, no meu sofá, me contando que olhava a boca de um cara na faculdade, e eu não vou fingir que isso não muda nada." Ele respirou. "Eu não vou fazer nada que você não queira. Se você quiser ir embora agora, leva as velas e a gente continua se cumprimentando no elevador. Se você quiser ficar e só conversar, a gente conversa. E se você quiser outra coisa, você vai ter que me dizer. Com palavras. Porque eu não vou adivinhar."

Fiquei olhando para ele. Para a boca dele, de novo. Uma boca larga, com a barba curta em volta, os lábios escuros de vinho.

"Eu quero te beijar", eu disse.

A frase saiu inteira. Não gaguejei. Foi a coisa mais simples e mais difícil que eu já disse.

⁂

Ele chegou mais perto, mas parou a um palmo de mim.

"Então me beija", ele disse. "Você."

Eu entendi o que ele estava fazendo. Ele não ia me beijar. Ele ia deixar que eu fizesse, para que depois eu nunca pudesse dizer que tinha acontecido comigo. Ia acontecer porque eu fiz.

Me inclinei. A barba dele roçou meu queixo primeiro, áspera, diferente de tudo que eu conhecia. Depois a boca. Os lábios dele eram mais firmes do que os de uma mulher, e mais quentes, e ele não abriu a boca de cara. Esperou de novo. Fui eu que abri, e ele respondeu, e a língua dele tinha gosto de vinho.

Alguma coisa dentro de mim desmoronou. Não sei explicar melhor. Foi como uma parede que eu nem sabia que estava segurando com as duas mãos, e soltei, e ela caiu, e do outro lado tinha ar.

Ele pôs a mão no meu rosto. A mão era grande, com calo no dedo de segurar lapiseira. Puxou de leve e o beijo ficou mais fundo. Eu agarrei a camiseta dele, como quem se segura para não cair, e senti o peito dele debaixo do tecido, duro, peludo, subindo e descendo rápido.

Quando a gente parou, eu estava sem ar. Ele também.

"Tudo bem?", ele perguntou, a testa encostada na minha.

"Não sei." Eu ri, nervoso. "Acho que sim. Acho que muito bem."

"Quer parar?"

"Não."

"Então fala o que você quer."

Eu pensei. Era difícil pensar. Meu pau estava duro dentro da calça, latejando, e eu tinha certeza que ele via, e não tinha vergonha, e não ter vergonha era a coisa mais nova de todas.

"Eu quero te tocar", eu disse. "Quero saber como é."

⁂

Ele tirou a camiseta. Assim, sem cerimônia, puxando pela gola. O peito dele na luz da vela era largo, com pelos escuros que desciam pela barriga e sumiam na bermuda. Eu pus a mão espalmada ali, no meio, e senti o coração dele.

"Tá batendo rápido", eu disse.

"Você tá me tocando. O que você esperava?"

Desci a mão. A barriga dele contraiu debaixo dos meus dedos. Cheguei no elástico da bermuda e parei.

"Pode", ele disse, baixinho.

Pus a mão por cima. Ele estava duro. Grosso, quente, maior do que eu imaginava, pulsando contra a minha palma através do tecido. Um homem. Um homem que me queria. Eu fiquei com a mão parada ali, sentindo, e ele fechou os olhos e soltou um som rouco do fundo da garganta.

"Meu Deus", eu disse.

"É bom?"

"É estranho. É bom. É muito bom."

Ele abriu os olhos e pegou minha mão e enfiou por dentro da bermuda. Pele com pele. Ele era liso e quente e úmido na ponta, e eu fechei os dedos em volta dele como eu fazia comigo mesmo, e mexi, e ele gemeu de verdade agora, a cabeça para trás no braço do sofá.

"Assim", ele disse. "Isso. Você aprende rápido."

"Eu tenho um desses", eu disse, e ele riu alto, e eu ri, e era bom rir no meio daquilo.

Ele abriu meu cinto. Pediu com os olhos e eu fiz que sim. Me tirou para fora e me segurou, e a mão de outro homem no meu pau foi diferente de qualquer mão que já tinha me tocado. Mais firme. Mais segura. Ele sabia exatamente o que fazer, porque sabia o que era ter um.

Ficamos assim, lado a lado no sofá, as calças pela metade, cada um com a mão no outro, nos beijando de boca aberta, respirando um na boca do outro. A vela da mesa de centro tremia toda vez que um de nós gemia. Lá fora, alguém gritou que a luz não ia voltar nunca, e a gente riu de novo, com a boca colada.

Eu gozei primeiro. Não deu para segurar. Foi rápido e forte e eu agarrei o ombro dele e disse uma coisa que não era palavra. Ele me segurou até o fim, beijando minha testa, e depois de mim, com a minha mão ainda nele, ele gozou também, quente na minha barriga, com um gemido comprido que eu ia lembrar por dias.

⁂

Ficamos deitados no sofá, apertados, ele atrás de mim, o braço dele em volta do meu peito. A camiseta dele virou toalha. O vinho esquentou na mesa.

"Como você tá?", ele perguntou no meu ouvido.

"Com medo", eu disse. Era verdade.

"Do quê?"

"De amanhã. De acordar e fingir que não aconteceu."

Ele ficou quieto um tempo. A mão dele fazia círculos devagar no meu peito.

"Você pode fingir", disse. "Eu não vou contar pra ninguém. Mas eu vou saber. E você vai saber."

"E se eu não quiser fingir?"

"Aí você bate na minha porta amanhã. Sem apagão. Sem desculpa de vela."

A luz voltou nessa hora. De uma vez. A geladeira dele ligou, o ventilador de teto começou a girar, a lâmpada da sala acendeu forte em cima da gente. Nós dois piscamos, cegos, nus da cintura para baixo, melados, de repente iluminados como num palco.

Eu levantei rápido, por reflexo. Peguei a calça. Ele ficou deitado, me olhando, sem tentar me segurar.

"As velas", ele disse, apontando a mesa.

Peguei as duas. Fui até a porta. Parei com a mão na maçaneta.

"Tomás."

"Hum."

"Eu nunca soube o que eu tava esperando."

Ele sorriu, ainda deitado, o braço atrás da cabeça.

"E agora?"

Abri a porta sem responder. No corredor, a luz fluorescente zumbia. A minha porta estava a quatro passos. Eu fiquei parado no meio do caminho com duas velas apagadas na mão e o cheiro dele no meu corpo, sabendo que ia dormir mal, sabendo que ia acordar com vontade.

Sabendo que amanhã, sem apagão, eu ia ter que decidir se batia.

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