Meu vizinho gay e a porta sem desculpa (Parte 2)
Eu fugi três dias.
Não foi bonito. Saí de casa às seis e meia para não cruzar com ele no elevador, voltei às dez da noite, fiquei no escritório olhando planilha que eu nem precisava olhar. Na quinta, ouvi a porta dele abrir enquanto eu procurava a chave, e voltei para a escada e desci dois andares a pé, com o coração batendo como se eu tivesse cometido um crime.
Eu não tinha cometido crime nenhum. Eu tinha tocado um homem e gozado na mão dele num sofá à luz de vela. E desde então não conseguia pensar em outra coisa.
No banho, de manhã, eu me tocava lembrando da barba dele no meu queixo. No trabalho, olhava para os colegas homens com uma atenção nova, assustada, procurando no rosto deles se eles sabiam. Na cama, à noite, ouvia através da parede o som abafado da televisão dele, e uma vez, quase meia-noite, uma risada, e fiquei com ciúme de quem quer que estivesse fazendo ele rir.
Liguei para o meu irmão na quarta e quase contei. Ele perguntou "e aí, alguma mina nova?", e eu disse "nada", e desliguei sentindo o estômago embrulhar.
No sábado à tarde, chovendo, eu estava deitado no sofá olhando o teto quando entendi que fugir estava doendo mais do que o medo.
Levantei. Tomei banho. Troquei de camiseta duas vezes, e me achei ridículo, e troquei de novo. Saí no corredor. Quatro passos.
Bati.
⁂
Ele demorou para abrir. Quando abriu, estava de óculos, com uma lapiseira atrás da orelha e cara de quem tinha sido arrancado de dentro de um desenho.
"Davi."
"Sem apagão", eu disse. "Sem vela."
Ele ficou me olhando. Não sorriu de cara. Isso me assustou.
"Você sumiu", ele disse.
"Eu sei."
"Eu achei que tinha te assustado. Que eu tinha ido rápido demais."
"Não foi você. Fui eu que me assustei comigo."
Ele tirou os óculos, dobrou e pendurou na gola da camiseta. Depois se encostou no batente.
"E agora?"
"Agora eu tô com mais medo de não vir."
Aí ele sorriu. Devagar, um canto da boca de cada vez. E abriu a porta inteira.
⁂
Ele estava trabalhando num projeto de biblioteca para uma cidade do interior. Me mostrou na prancheta, explicando a luz, o jeito que as janelas iam ficar para o sol da tarde entrar sem estragar os livros. Eu entendia metade, mas gostava de ouvir. Gostava das mãos dele mostrando as coisas no papel.
"Você fala de prédio como se fosse gente", eu disse.
"Prédio é gente. Ou é pra gente." Ele largou a lapiseira. "Quer café? Vinho? Eu tenho cerveja, se você for desses."
"Eu sou desses."
Ele riu e foi buscar. Eu fiquei na frente da prancheta. Do lado, num porta-retrato, havia uma foto dele mais novo, numa praia, abraçado com um homem loiro. O Henrique, imaginei. Os dois de sunga, molhados, rindo para a câmera. Fiquei olhando os corpos dos dois colados e senti uma coisa que não era ciúme. Era vontade. Vontade de ser fotografado assim, um dia, sem vergonha.
"Ele era bonito", eu disse quando ele voltou.
"Era." Ele me entregou a cerveja. "É. Ele tá bem, mora em Atibaia, tem um cachorro. Eu deixo a foto porque foi uma época boa. Não quero apagar as épocas boas só porque acabaram."
Sentamos no chão, encostados no sofá, como dois estudantes. A chuva batia no vidro.
"Posso te perguntar como foi pra você?", eu disse. "A primeira vez. Com homem."
"Eu tinha dezenove anos. Primeiro ano de faculdade. Um veterano." Ele riu. "Foi péssimo. Rápido, escondido, num carro. Eu chorei depois. Achei que ia pro inferno. Minha mãe é muito católica."
"E depois?"
"Depois eu conheci um cara que me tratou bem. E eu entendi que o problema nunca foi gostar de homem. Era me esconder." Ele girou a garrafa na mão. "Você não precisa contar pra ninguém agora, Davi. Nem amanhã. Mas não deixa ninguém te convencer de que isso é sujo. Nem você mesmo."
Eu fiquei olhando para ele. A luz cinza da chuva deixava os olhos dele mais claros.
"Eu sou gay?", perguntei. Saiu como uma criança perguntando as horas.
Ele não riu. Pensou.
"Eu não sei. Você pode ser gay, bi, qualquer coisa, ou nenhum nome. Não precisa decidir hoje." Ele se inclinou um pouco. "Mas hoje você tá no meu chão. E eu queria muito saber o que você quer."
⁂
Dessa vez eu sabia.
"Eu quero que seja devagar", eu disse. "Mais que na outra noite. Eu quero ver tudo. Com a luz acesa."
Ele levantou as sobrancelhas. "Com a luz acesa?"
"Na outra noite a luz voltou e eu levantei correndo. Eu não quero mais correr da luz."
Ele largou a cerveja no chão. Ajoelhou na minha frente e segurou meu rosto, como antes. Me beijou, e dessa vez não esperou que eu começasse. Me beijou devagar, fundo, com a mão na minha nuca. Eu derreti contra o sofá.
Tirou minha camiseta. Olhou. Passou o polegar no meu mamilo e eu arrepiei inteiro, e ele sorriu.
"Você é sensível aqui."
"Eu não sabia."
"Vamos descobrir o que mais você não sabe."
Ele me deitou no tapete. Beijou meu pescoço, meu peito, minha barriga. A barba dele arranhava a pele e deixava um rastro de calor. Quando chegou no meu short, olhou para cima.
"Posso?"
Eu fiz que sim. Não conseguia falar.
Ele abaixou o short e a cueca juntos. Eu estava duro, completamente, e por um segundo tive vontade de me cobrir. Ele segurou minhas mãos ao lado do corpo.
"Deixa eu ver", disse. "Você é lindo."
Ninguém nunca tinha dito isso para o meu corpo. A Carol dizia que eu era bonito, que eu tinha olhos bonitos. Ninguém nunca tinha olhado para o meu pau e dito lindo.
E aí ele me pôs na boca.
⁂
Eu já tinha sido chupado antes. Muitas vezes. Mas não assim. Ele sabia o que fazia de um jeito que só alguém que tinha um corpo igual ao meu poderia saber. Sabia onde a língua tinha que apertar, sabia quando ir devagar e quando engolir mais fundo, sabia o ponto embaixo da cabeça que me fez agarrar o tapete com as duas mãos e gemer o nome dele.
"Tomás. Tomás, espera, eu vou…"
Ele parou. Tirou a boca, molhado, os lábios vermelhos.
"Ainda não", disse, e sorriu. "Devagar, você pediu."
Eu ri, sem ar. "Eu me arrependi."
"Não se arrependeu."
Ele subiu de novo e me beijou, e eu senti meu próprio gosto na boca dele, e isso deveria ter sido estranho e foi só quente. Ele se deitou de lado e tirou a bermuda. Estava duro também, a ponta molhada, e eu olhei para ele com a luz da tarde batendo em cheio, sem vela nenhuma para esconder.
"Eu quero tentar", eu disse.
"Tentar o quê?"
Eu desci. Ele entendeu e ficou parado, me deixando ir no meu tempo.
Era diferente de tudo que eu tinha imaginado. Era mais pesado na língua, mais quente, com um cheiro que era só dele, de sabonete e de pele e de alguma coisa salgada. Eu não sabia o que estava fazendo. Fui pelo que eu gostava que fizessem comigo. Ele foi me guiando com a voz, baixinho, isso, assim, cuidado com os dentes, isso, nossa, Davi, a mão no meu cabelo, sem empurrar, só segurando.
Quando eu olhei para cima, ele estava me olhando. A boca entreaberta, os olhos meio fechados, a respiração curta. Me olhando como se eu fosse alguma coisa preciosa.
Foi ali que eu chorei. Um pouco. Com ele na boca. Não de tristeza. De alívio, eu acho. De ter esperado tanto tempo sem saber o quê, e de estar ali, finalmente, sendo exatamente o que eu era.
Ele percebeu. Me puxou para cima com cuidado.
"Ei. Ei. Tá tudo bem?"
"Tá." Eu ri e chorei ao mesmo tempo. "Tá muito bem. Desculpa."
"Não pede desculpa." Ele limpou meu rosto com o polegar. "Eu chorei no carro do veterano. Você tá chorando num tapete de sisal com um cara que gosta de você. Já é um progresso."
⁂
Terminamos juntos, de frente um para o outro, deitados no tapete, as testas encostadas. Ele segurou os dois paus juntos na mão grande, e eu pus a minha por cima da dele, e a gente se mexeu assim, olhando nos olhos, sem fechar, com a luz da janela em cheio. Eu vi o momento em que ele gozou. Vi o rosto dele se abrir. E gozei logo depois, vendo.
Ficamos ali muito tempo. A chuva parou. O céu lá fora ficou alaranjado.
"Você vai fugir de novo?", ele perguntou, sem me olhar.
"Não."
"Promete?"
"Prometo que se eu fugir eu volto mais rápido."
Ele riu. "Aceito."
⁂
Saí de lá depois das nove, com o cheiro dele de novo, e dessa vez não corri. Andei os quatro passos devagar, sentindo cada um.
No meu apartamento, peguei o celular. Tinha uma mensagem do meu irmão, de horas antes.
Mãe tá perguntando se você vem no almoço de domingo. Ela quer te apresentar a filha da Neide. Diz que é ótima moça.
Fiquei olhando a mensagem muito tempo. Depois olhei para a parede, do outro lado da qual o Tomás devia estar voltando para a prancheta.
Escrevi: Vou. Mas vou levar uma pessoa.
Apaguei.
Escrevi de novo: Vou.
Mandei. Deitei na cama com o celular no peito e fiquei pensando no almoço de domingo, na filha da Neide, na cara da minha mãe, e no homem do outro lado da parede que tinha dito que eu não precisava decidir nada hoje.
Mas o domingo era daqui a oito dias. E alguma coisa me dizia que até lá eu ia ter que decidir.
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