✒ Escrito por humanoLGBTQIA+ · 10 minConto #103

Meu vizinho gay e o fim de semana na praia (Parte 3)

por Noa Bruma

analgay

A casa ficava no fim de uma rua de terra, depois de uma placa torta que dizia "Praia do Félix 800 m". Era de um amigo do Tomás, um casal de designers que passava o ano em Lisboa e deixava a chave com ele. Tinha varanda de madeira, rede, um pé de jambo que sujava o chão de roxo, e o som do mar o tempo inteiro, mesmo de porta fechada.

"Aqui ninguém conhece a gente", Tomás disse quando desligou o carro. "Nem o porteiro, nem sua mãe, nem a filha da Neide."

Eu ri. Tinha contado para ele sobre o almoço, sobre a mensagem do meu irmão, sobre a vontade de escrever "vou levar uma pessoa" e a covardia de apagar. Ele ouviu sem julgar, como sempre, e no fim disse só: "Vamos sair de São Paulo esse fim de semana. Você pensa melhor com o pé na areia."

Eram três horas de estrada. Na serra, com as curvas, ele pôs a mão na minha coxa e deixou lá, e eu fiquei olhando a mão dele no meu jeans enquanto a mata passava pela janela, pensando que era a primeira vez que um homem me tocava fora de quatro paredes. Dentro de um carro, ainda. Mas com vidro, com a estrada, com caminhoneiro passando do lado. Eu não tirei a mão dele.

⁂

Na primeira tarde, a gente só foi à praia. Ela era quase vazia, uma faixa curva de areia grossa entre duas pedras, com meia dúzia de famílias e um vendedor de milho. Tomás estendeu a canga e tirou a camiseta, e eu fiquei olhando o corpo dele na luz forte, as costas largas, a marca de sol do relógio, e senti vontade de tocar ali mesmo, na frente de todo mundo.

Não toquei. Mas quando entramos no mar, longe da areia, com a água pelo peito, ele chegou perto e me abraçou por trás. As ondas balançavam a gente. Ninguém conseguia ver nada além de duas cabeças.

"Tá vendo?", ele disse no meu ouvido. "O mundo não acabou."

Eu me virei e beijei ele. Ali, no mar, com o sal na boca. Foi rápido, um beijo só, mas foi o primeiro beijo que eu dei num homem debaixo do céu aberto, e meu coração bateu tão forte que eu achei que ia afundar.

Quando a gente voltou para a areia, uma senhora de chapéu estava olhando. Eu congelei. Ela olhou mais um pouco, depois voltou a ler o livro dela.

"Ela viu", eu disse baixo.

"Viu", Tomás disse, deitando na canga. "E agora ela tá lendo Agatha Christie."

⁂

À noite, ele fez peixe na brasa e a gente comeu na varanda, com uma lamparina e uma garrafa de vinho branco. Os grilos faziam um barulho enorme. O mar estava escuro, só a espuma branca aparecendo quando batia nas pedras.

"Posso te contar uma coisa?", eu disse.

"Sempre."

"Eu pesquisei. Essa semana. Sobre… sobre como é. Ir até o fim."

Ele largou o garfo. Me olhou com aquela atenção total que ainda me desmontava.

"E?"

"E eu fiquei com medo. E com vontade. Mais vontade." Bebi um gole grande. "Eu quero que seja com você. Aqui."

Ele ficou quieto um tempo. O vento balançou a chama da lamparina.

"Davi, a gente não precisa. Muito casal gay nunca faz isso, ou faz pouco. Não é prova de nada."

"Eu sei. Eu li isso também." Sorri. "Mas eu quero. Eu quero saber como é ter você dentro de mim."

Falei. Assim. A frase inteira. Duas semanas antes eu não conseguia dizer "eu já pensei em homem". Agora eu estava dizendo aquilo numa varanda, em voz alta, para um homem que me olhava como se eu tivesse acendido alguma coisa.

"Então a gente vai devagar", ele disse. "Muito devagar. E se doer, a gente para. E se você mudar de ideia no meio, a gente para. E se você quiser que seja ao contrário, eu também quero."

"Ao contrário?"

"Você em mim." Ele sorriu, meio torto. "Eu gosto dos dois jeitos."

Eu não tinha pensado nisso. Fiquei vermelho no escuro, e ele riu.

"Primeiro um", eu disse. "Depois a gente vê."

⁂

O quarto tinha uma cama grande de madeira e uma janela aberta para o mar. Ele acendeu só a luz do banheiro, que entrava amarela pela porta entreaberta. Tinha trazido tudo: camisinha, lubrificante, uma toalha. Pôs na mesinha sem cerimônia, como quem arruma uma mesa de jantar.

"Você planejou isso", eu disse.

"Eu planejei a possibilidade disso. É diferente."

Ele me despiu devagar. Depois deitou comigo e me beijou por muito tempo. Muito. Até eu esquecer o medo, até meu corpo inteiro ficar mole e quente e duro ao mesmo tempo. A barba dele passeava pelo meu pescoço, meu peito, minha barriga. Ele me chupou um pouco, só para me deixar louco, e parou.

"Vira", ele disse baixinho. "De bruços. Se você quiser."

Virei. O lençol cheirava a sal e a armário fechado. Ele beijou minha nuca. Desceu pelas costas, vértebra por vértebra. Chegou na curva da minha bunda e beijou uma banda, depois a outra, e eu ri de nervoso.

"Relaxa", ele disse. "Respira."

E aí ele fez uma coisa que eu nunca tinha imaginado que alguém faria comigo. Me abriu com as mãos e pôs a boca ali.

Eu gemi tão alto que tive certeza que a vizinhança inteira ouviu, mas a vizinhança mais próxima era um pé de jambo. Era molhado, quente, absurdo. A língua dele me rodeava e eu sentia meu corpo se abrir por conta própria, sem eu mandar, como se tivesse esperado aquilo a vida inteira. Agarrei o travesseiro e enfiei a cara nele.

"Tá bom?", ele perguntou, parando um instante.

"Não para", eu disse no travesseiro. "Pelo amor de Deus, não para."

⁂

Ele usou os dedos depois, com muito lubrificante, um só, devagar, conversando o tempo todo. Respira. Isso. Empurra um pouco como se fosse pra fora. Isso. Tá sentindo? Tá tudo bem? E eu sentia. Uma pressão estranha, que não era dor, e depois uma coisa lá dentro que ele tocou com a ponta do dedo e que fez meu corpo inteiro dar um choque.

"Que porra foi essa?"

Ele riu. "Isso é a próstata. Bem-vindo."

Quando eram dois dedos e eu já estava rebolando contra a mão dele sem nenhuma vergonha, ele parou. Ouvi o barulho da embalagem da camisinha. Senti ele se deitar em cima de mim, o peito nas minhas costas, o peso dele inteiro me cobrindo.

"Davi", ele disse no meu ouvido. "Última chance de dizer não."

Eu virei o rosto para ele. A luz do banheiro pegava metade da cara dele.

"Sim", eu disse. "Eu quero. Vem."

Ele entrou devagar. Eu não vou mentir: doeu. Uma dor aguda no começo, que me fez prender o ar e agarrar o pulso dele. Ele parou na hora. Ficou imóvel, beijando meu ombro, esperando.

"Respira", sussurrou. "Não força. Eu não vou a lugar nenhum."

Respirei. Uma vez, duas. A dor foi virando outra coisa. Uma pressão cheia, quente, que ocupava um lugar em mim que eu nem sabia que existia. Fiz que sim com a cabeça e ele entrou mais um pouco. E mais. E então ele estava inteiro dentro de mim, o quadril dele encostado na minha bunda, e eu senti uma coisa que não sei explicar sem parecer exagero.

Me senti completo. Como se tivesse uma peça faltando a vida toda e ela tivesse acabado de encaixar.

"Você tá dentro de mim", eu disse, e a voz saiu embargada.

"Tô." Ele também estava com a voz estranha. "Você tá bem?"

"Tô. Me mexe. Devagar."

⁂

Ele se mexeu. Devagar no começo, saindo um pouco, voltando. Cada vez que voltava, encostava naquele ponto, e eu gemia sem conseguir parar. Depois mais firme. O som da cama de madeira batendo na parede se misturou com o mar lá fora, e eu não sabia mais qual era qual.

"Eu quero te ver", eu disse em algum momento.

Ele saiu com cuidado. Eu virei de costas. Ele pôs um travesseiro debaixo do meu quadril e levantou minhas pernas, e entrou de novo, olhando nos meus olhos. Agora eu via tudo. A cara dele concentrada, o suor na testa, a boca entreaberta. Os músculos do braço tremendo de segurar o próprio peso. E, embaixo, o corpo dele entrando no meu.

Eu me segurei e ele pôs a mão por cima da minha, e foi assim que eu gozei, com ele dentro, olhando para ele. Um orgasmo diferente de todos os outros, que começou lá dentro, onde ele estava, e subiu pela barriga e explodiu no peito. Eu gritei. Gritei mesmo. E ele, sentindo meu corpo apertar em volta dele, gozou logo depois, enterrado em mim, dizendo meu nome com a voz quebrada.

⁂

Depois, ele tirou devagar, jogou a camisinha fora, voltou com uma toalha molhada e me limpou com um cuidado que me deu vontade de chorar de novo. Depois deitou do meu lado e puxou o lençol por cima de nós dois.

O mar continuava batendo. A luz do banheiro continuava acesa.

"Doeu muito?", ele perguntou.

"No começo."

"E depois?"

"Depois eu entendi por que as pessoas fazem isso."

Ele riu no meu cabelo.

Fiquei olhando a janela. A lua tinha saído de trás de uma nuvem e pintava o mar de prata.

"Tomás."

"Hum."

"Eu quero te levar no almoço de domingo."

Ele ficou muito quieto. A mão dele parou de mexer no meu cabelo.

"Na casa da sua mãe."

"Na casa da minha mãe."

"Com a filha da Neide."

"Com a filha da Neide, com meu irmão, com meu tio que vota em quem não deve, com todo mundo."

Ele se apoiou no cotovelo para me olhar.

"Davi. Você não precisa fazer isso por mim. E não precisa fazer isso agora. Sair do armário não é prova de amor. É uma coisa sua, no seu tempo."

"Eu sei." Olhei para ele. "Mas eu passei vinte e nove anos esperando alguma coisa. Agora eu sei o que era. Eu não quero mais esperar."

Ele não disse nada. Só me beijou. Um beijo comprido, sem pressa, que tinha gosto de sal e de vinho e de alguma coisa nova.

Quando ele parou, eu peguei o celular na mesinha. A tela iluminou o quarto. Abri a conversa com meu irmão e escrevi, sem apagar desta vez:

Domingo eu vou. E vou levar o Tomás. Ele é meu namorado. Avisa a mãe pra pôr mais um prato.

O dedo ficou parado em cima do enviar. Tomás olhou para a tela, depois para mim. Não disse nada. Deixou que fosse meu.

Apertei.

Ficamos olhando a mensagem até aparecer o segundo tique. Depois o azul. Depois, embaixo do nome do meu irmão, as três bolinhas de "digitando".

Elas apareceram. Sumiram. Apareceram de novo.

E ficaram ali, piscando, enquanto o mar batia.

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