✒ Escrito por humanoLGBTQIA+ · 9 minConto #104

Meu vizinho gay e o almoço de domingo (Parte 4)

por Noa Bruma

gay

A resposta do meu irmão chegou quatro minutos depois daquelas bolinhas, na varanda de Ubatuba. Eu li em voz alta para o Tomás, com a voz falhando.

Caralho, Davi. Tá. Tô chocado mas tá. Eu falo com a mãe antes. Ela vai surtar, mas é a mãe. Te amo, mano. Leva vinho que ela gosta.

Eu chorei de novo. Estava virando hábito. Tomás me abraçou na rede e não disse nada, e o pé de jambo soltou uma fruta no telhado, e a gente riu.

Mas isso foi sábado. O domingo era outra coisa.

⁂

A casa da minha mãe fica em Santo André, numa rua de sobrados iguais, com portão de grade e azulejo azul na garagem. Eu cresci ali. Andei de bicicleta naquela calçada, quebrei o braço no muro da vizinha, beijei a primeira menina na esquina da padaria. Estacionar o carro do Tomás na frente daquele portão foi como estacionar dentro do meu próprio passado.

"Você ainda pode desistir", ele disse, sem desligar o motor.

"Eu sei."

"Eu fico no carro. Ou vou embora e você volta de Uber. Sem drama."

Olhei para ele. Estava de camisa social branca, que tinha passado de manhã com um cuidado absurdo, e segurava uma garrafa de vinho no colo como se fosse uma granada.

"Você tá com mais medo que eu", eu disse.

"Eu já fiz isso. Com a minha mãe. Sei como dói." Ele respirou. "Eu não quero que doa em você."

Peguei a mão dele. Depois desliguei o motor por ele e tirei a chave.

"Vem."

⁂

Quem abriu o portão foi o Lucas, meu irmão. Ele olhou para mim, olhou para o Tomás, olhou para a garrafa de vinho. Depois estendeu a mão.

"Lucas. Prazer. Você é muito mais alto do que eu imaginava."

"Tomás. Você imaginou?"

"A noite inteira."

E pronto, o gelo trincou. Um pouco.

Minha mãe estava na cozinha. Dava para ouvir a panela de pressão chiando. Ela não veio receber, o que nunca tinha acontecido, e meu estômago virou de cabeça para baixo. Na sala, meu tio Roberto via futebol com o som alto e disse "e aí, rapaz" para o Tomás sem tirar os olhos da televisão. A filha da Neide não estava. Depois eu soube que minha mãe tinha desconvidado com uma desculpa sobre a pressão.

Fui até a cozinha sozinho. Tomás ficou na sala com o Lucas, e eu ouvi os dois começando a falar de carro.

Minha mãe estava de costas, mexendo o feijão. Sessenta e dois anos, avental de florzinha, o cabelo preso com uma piranha de plástico que ela tinha desde que eu me lembro.

"Mãe."

Ela não virou.

"Mãe. Olha pra mim."

Ela desligou o fogo. Virou. Os olhos dela estavam vermelhos.

"Desde quando, Davi?"

Depois eu ia descobrir que todo mundo faz essa pergunta. Naquela hora eu só sabia que ela estava doendo.

"Desde sempre, eu acho. Mas eu só descobri agora."

"E a Carol?"

"Eu gostava da Carol. Mas eu tava esperando outra coisa. Agora eu sei o que era."

"Ele." Ela disse a palavra como quem segura uma coisa quente.

"Ele. O Tomás. Ele é arquiteto. Ele cuida de mim, mãe. Ele me deixa ser eu."

Ela pôs a mão na boca. Chorou. Eu fiquei parado no meio da cozinha sem saber se abraçava ou se ia embora.

"Eu achei que você era sozinho", ela disse, finalmente, entre as lágrimas. "Esses meses todos. Eu achei que você tava triste. Eu rezava pra você arrumar alguém."

"Eu arrumei."

Ela me olhou muito tempo. Depois tirou o avental, dobrou, e pôs em cima da pia.

"Me apresenta", disse. "Direito."

⁂

O almoço não foi perfeito. Meu tio fez uma piada que ninguém riu. Minha mãe chamou o Tomás de "seu amigo" duas vezes e se corrigiu sozinha na terceira, com uma careta. Ele elogiou o feijão de um jeito tão sincero que ela ficou vermelha. Lucas contou a história do meu braço quebrado e Tomás riu até engasgar.

Na sobremesa, minha mãe pôs um pedaço de pudim maior no prato dele do que no meu.

Quando a gente estava indo embora, no portão, ela segurou o braço do Tomás.

"Cuida dele."

"Eu cuido."

"E você", ela disse para mim, "liga mais. Agora não tem desculpa."

No carro, na via Anchieta, nenhum de nós dois falou nada por um bom tempo. Depois o Tomás pegou minha mão em cima do câmbio e apertou.

"Ela te deu o pedaço maior de pudim", eu disse.

"Eu vi."

"Isso na minha família é praticamente um casamento."

Ele riu tanto que precisou encostar no acostamento.

⁂

Chegamos no prédio às oito da noite. No elevador, ele encostou na parede e eu encostei nele, e a gente se beijou entre o térreo e o sétimo andar sem se importar com a câmera no canto do teto. O porteiro ia ver. Que visse.

No corredor, paramos entre as duas portas. O 703 e o 704. Quatro passos.

"Na sua ou na minha?", ele perguntou.

"Na sua. A minha ainda não tem vela."

Lá dentro, ele não acendeu a luz. A cidade entrava pela janela, laranja e azul. Ele começou a desabotoar a própria camisa branca e eu segurei as mãos dele.

"Deixa que eu faço."

Desabotoei um por um. Tirei a camisa pelos ombros dele. Beijei o peito, os pelos, o mamilo, como ele tinha feito comigo, e ele soltou o ar devagar.

"Tomás."

"Hum."

"Você disse que gostava dos dois jeitos."

Ele parou. Me olhou no escuro.

"Disse."

"Eu quero tentar. O outro jeito. Hoje."

Vi ele engolir em seco. Vi alguma coisa mudar nos olhos dele. Ele sempre tinha sido o que guiava, o que sabia, o que esperava eu decidir. Agora era ele que estava esperando.

"Você quer me comer", ele disse, baixinho. Não era pergunta.

"Eu quero. Se você quiser."

"Eu quero muito."

⁂

Ele me ensinou de novo, mas dessa vez ensinou do outro lado. Deitou de costas na cama, com as pernas abertas, e me guiou com a voz e com as mãos. Me mostrou como usar os dedos nele, com paciência, com bastante lubrificante. Eu fui devagar, com medo de machucar, e ele riu e disse pode mais, eu não sou de vidro, e depois parou de rir porque eu encontrei o ponto e ele arqueou as costas e gemeu meu nome alto.

Era estranho e poderoso. Ver aquele homem que sempre me conduziu se abrir debaixo de mim. Ver ele fechar os olhos. Ver ele confiar.

Pus a camisinha com a mão tremendo. Ele percebeu e segurou meu pulso.

"Ei. Igual você me disse. Eu quero. Vem."

Entrei nele devagar. Era apertado e quente de um jeito que eu não estava preparado para sentir. Eu parei no meio, com medo, e ele me puxou pela nuca e me beijou.

"Continua", disse na minha boca. "Continua, Davi. Eu quero você inteiro."

Fui. Até o fim. E fiquei parado lá dentro, olhando para ele, sentindo o corpo dele em volta do meu, e pensei que nunca, nunca tinha estado tão perto de alguém.

Mexi. No começo desajeitado, sem ritmo, e ele me ajudou com as mãos no meu quadril. Depois achei. Ele começou a gemer de um jeito que eu nunca tinha ouvido, mais solto, mais rouco, sem controle nenhum. Ele se tocava enquanto eu entrava nele, e me olhava, e falava coisas que eu não sabia que ele falava. Assim. Mais fundo. Isso, meu Deus, isso.

Ele gozou primeiro, na própria barriga, com o corpo inteiro apertando o meu. E aquele aperto me levou junto, e eu gozei dentro dele, com o rosto enterrado no pescoço dele, mordendo de leve, sem conseguir falar.

⁂

Depois, ficamos deitados na cama dele, suados, a cidade lá fora.

"Você foi muito bem pra primeira vez", ele disse, rindo.

"Você também, pra primeira vez de alguém."

"Eu vou mancar amanhã."

"Vai se apoiar em mim."

Ficamos quietos. Depois ele disse, olhando o teto:

"Davi. Eu tô pensando numa coisa."

"Fala."

"A gente paga dois aluguéis pra morar a quatro passos um do outro. Você dorme aqui quase toda noite. E eu sou arquiteto. Eu fico olhando aquela parede entre os nossos apartamentos e pensando que ela não é estrutural."

Me apoiei no cotovelo. "Você tá dizendo…"

"Eu não tô dizendo nada. Não ainda." Ele sorriu. "Eu tô dizendo que o síndico ia surtar. E que eu tenho um desenho pronto na prancheta faz uma semana."

Levantei da cama nu e fui até a prancheta. Debaixo do projeto da biblioteca, tinha outra folha. Uma planta baixa. Dois apartamentos de quarenta metros, lado a lado. E uma linha pontilhada onde ficava a parede.

Em cima, na letra dele, um título pequeno: 703 + 704. Se ele quiser.

Fiquei olhando o desenho muito tempo, a luz da cidade batendo no papel.

Atrás de mim, ouvi ele levantar da cama e vir devagar até a prancheta, mancando um pouco, e parar sem me tocar.

Esperando, como sempre, que eu dissesse com palavras.

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