Eu e a moça da academia: o primeiro encontro no bar sertanejo (Parte 2)
O bar se chamava Recanto do Tião e tinha mais idade que nós dois juntos. Toalha xadrez de plástico, garrafas de cachaça com rótulo escrito à mão, um ventilador de parede que girava a cabeça como uma coruja velha. No canto, um senhor de chapéu tocava viola e cantava Chitãozinho e Xororó com uma voz que tremia nas notas altas.
Lia já estava lá quando eu cheguei, sentada numa mesa de canto. Eu quase não reconheci. Vestido azul-marinho de alcinha, cabelo solto e ondulado, batom vermelho como na foto do aplicativo. Sem garrafa rosa, sem regata, sem coque. Uma mulher que eu nunca tinha visto e que eu conhecia de cor.
Ela me viu na porta e levantou a mão. Depois abaixou, como quem se arrepende de parecer animada demais.
"Você veio", disse quando eu sentei.
"Você achou que eu não vinha?"
"Achei que você ia chegar, ouvir a música e dar meia-volta."
No palco, o senhor começou "Evidências". Ela me olhou com os olhos estreitos, me desafiando.
Eu não ri. Juro que não ri. Mas ela viu o canto da minha boca tremer e me deu um chute leve na canela por baixo da mesa.
"Eu avisei", ela disse. "Eu te mato."
"Eu não ri!"
"Você pensou em rir."
"Eu pensei que você fica linda com raiva."
Ela parou. Ficou vermelha, do pescoço até a testa. Pegou o cardápio e escondeu a cara atrás dele.
"Você não pode falar essas coisas antes da primeira cerveja", disse lá de trás.
⁂
A primeira cerveja virou a quarta. A gente pediu bolinho de mandioca e uma porção de calabresa acebolada que ela comeu tirando a cebola, porque dizia que só gostava do gosto que a cebola deixava. Falamos de tudo. Do noivado dela, do advogado que corrigia o português, de como ela tinha ficado uma semana sem sair de casa depois do término só vendo tutorial de marcenaria. Do meu pai, que morreu quando eu tinha vinte e dois e que me ensinou a dirigir caminhão aos dezoito num estacionamento vazio de supermercado.
"Você sabe dirigir caminhão?"
"Sei estacionar de ré uma carreta de dezoito metros."
"Isso é a coisa mais sexy que alguém já me disse num primeiro encontro."
"Sério?"
"Não." Ela riu. "Mas é a mais inesperada."
Em algum momento a mão dela estava em cima da mesa, perto da minha, e eu encostei o dedo mindinho no dela. Ela não tirou. Ficamos assim, conversando, com aquele pedacinho de pele encostado, e eu juro que senti mais naquele dedo do que em alguns beijos que já dei.
Quando o senhor de chapéu começou "Fio de Cabelo", ela levantou.
"Vem."
"Pra onde?"
"Dançar."
"Lia, eu não sei dançar."
"Ninguém aqui sabe. Olha a dona Neusa."
Uma senhora de uns setenta anos rodava sozinha perto do palco com um copo de cachaça na mão, os olhos fechados.
Fui.
⁂
Ela dançava mal também, e isso me salvou. A gente se esbarrou, pisou no pé um do outro, riu. Depois ela pôs a mão no meu ombro e eu pus a mão na cintura dela, e a música ficou lenta, e a gente parou de tentar dançar e só ficou balançando.
O corpo dela era quente através do vestido fino. Eu sentia a curva da cintura na minha mão, a respiração dela no meu pescoço. Ela cheirava a um perfume doce e, por baixo, a uma coisa que eu conhecia da academia: o cheiro dela mesma, de pele.
"Bruno", ela disse no meu ouvido.
"Hum."
"Eu fiquei pensando na sua mensagem a semana inteira. A do gemido."
"Desculpa. Foi muito."
"Não. Não foi." Ela encostou a testa no meu queixo. "Na quarta, no treino, eu fiz o agachamento pensando que você tava ouvindo. E eu gemi de propósito. Você percebeu?"
Eu tinha percebido. Tinha passado o resto do treino de costas para ela fingindo que alongava a panturrilha.
"Percebi."
"Ficou com tesão?"
"Eu tive que ir pro vestiário e ficar cinco minutos olhando pra parede."
Ela riu baixinho, um riso que vibrou contra o meu peito. Depois levantou o rosto e me olhou. Os olhos dela estavam escuros, a boca entreaberta, o batom já meio gasto da cerveja.
"Me beija", disse. "Antes que o seu Tião troque de música."
Beijei.
A boca dela tinha gosto de cerveja e de calabresa e de alguma coisa doce, do batom. Ela me beijou de volta com uma fome que eu não esperava, a mão subindo do meu ombro para a minha nuca, os dedos no meu cabelo. O mundo sumiu. O bar, a dona Neusa, o seu Tião cantando sobre um fio de cabelo no paletó. Ficou só a boca dela e o corpo dela colado no meu, e meu pau endurecendo contra a barriga dela, e ela sentindo, e não se afastando. Se aproximando.
"Bruno", ela disse na minha boca. "O Pirulito tá esperando."
⁂
O prédio dela era como ela tinha descrito: velho, de três andares, sem elevador, com escada de granito gasto e corrimão de ferro. No segundo lance a gente já estava se beijando de novo, encostados na parede, e uma porta abriu no primeiro andar e uma senhora olhou feio, e a gente subiu o resto correndo como dois fugitivos.
O apartamento tinha piso de taco, plantas na janela e um gato preto e branco gordo que olhou para mim do sofá com profundo desprezo.
"Pirulito, esse é o Bruno. Bruno, esse é o Pirulito. Ele odeia todo mundo, não leva pro lado pessoal."
O gato bocejou e virou de costas.
Ela fechou a porta. Encostou nela. Ficou me olhando de longe, a três passos, ainda ofegante da escada.
"Eu não faço isso no primeiro encontro", ela disse.
"Eu também não."
"Mentira."
"Mentira", admiti. "Mas não faço há muito tempo."
"Eu também não faço há muito tempo." Ela respirou fundo. "Desde o advogado. Um ano. Um ano inteiro, Bruno."
Eu entendi o que ela estava dizendo. Não era timidez. Era medo. Medo de ter esquecido como era, medo de o corpo não responder, medo de não ser bom o suficiente.
"A gente pode só ficar no sofá com o Pirulito", eu disse.
"Não. Eu não quero o sofá." Ela desencostou da porta. "Eu quero que você me olhe do jeito que me olhou quando eu travei no agachamento. Como se você soubesse que eu ia conseguir."
⁂
Ela me levou para o quarto. A cama era de casal, com uma colcha de crochê que devia ser da avó dela. Ela acendeu só um abajur com cúpula de tecido amarelo, que deixava tudo da cor de mel.
Tirei o vestido dela pela cabeça. Ela levantou os braços como uma criança e depois ficou ali, na minha frente, de calcinha preta e sem sutiã. Eu já tinha visto aquele corpo mil vezes coberto de legging e regata, suado, fazendo força. Nunca assim. Os seios pequenos, com os bicos escuros e duros. A barriga com uma linha suave de músculo. As coxas que eu tinha visto tremer no fundo do agachamento.
"Fala alguma coisa", ela disse, cruzando os braços sem perceber.
Descruzei os braços dela com cuidado.
"Você é mais bonita sem a garrafa rosa."
Ela riu e me empurrou na cama.
Tirou minha camiseta e passou as mãos no meu peito, devagar, como quem confere uma coisa que já tinha imaginado. Desceu até o meu cinto e abriu. Tirou minha calça e minha cueca juntas, e eu fiquei nu na colcha de crochê da avó dela, duro, com ela de calcinha ajoelhada entre as minhas pernas, me olhando.
"Eu imaginei isso no vestiário", ela disse. "Mais de uma vez."
E me pôs na boca.
Não foi delicado. Foi faminto. Ela me chupou como quem tinha passado um ano com fome, a mão segurando a base, a boca descendo fundo, os olhos subindo para me olhar. O batom deixou uma marca vermelha em mim. Eu agarrei a colcha e gemi o nome dela, e ela gemeu de volta com a boca cheia, e a vibração quase me fez gozar ali mesmo.
"Lia, espera. Espera."
Ela tirou a boca, os lábios brilhando. "O quê?"
"Minha vez."
⁂
Deitei ela de costas. Beijei a boca dela, depois o pescoço, depois os seios, um de cada vez, e ela arqueou as costas quando minha língua passou no bico. Desci pela barriga. Ela prendeu a respiração quando cheguei na borda da calcinha.
"Posso?"
"Se você não tirar agora eu tiro."
Tirei. Ela estava molhada. Eu via, no brilho do abajur, nas coxas dela, e sentia o cheiro, doce e forte, um cheiro que me deixou tonto. Abri as coxas dela com as mãos e pus a boca nela.
Ela gemeu. O gemido do dia da chuva, mas não de esforço. O gemido que eu tinha imaginado no sofá, na cama, no vestiário olhando para a parede. Só que real, alto, na minha boca, com as mãos dela no meu cabelo e as coxas dela apertando minha cabeça.
Fui devagar no começo, sentindo o que ela gostava. Ela me guiava com o quadril, sem palavras. Mais em cima. Mais devagar. Mais rápido. Quando eu pus dois dedos dentro dela e chupei o clitóris ao mesmo tempo, ela agarrou o lençol e disse um palavrão que eu nunca imaginei sair daquela boca, e gozou, tremendo inteira, as pernas fechando em volta de mim.
Fiquei ali até ela parar de tremer. Depois subi e ela me beijou com o gosto dela na minha boca.
"Um ano", ela disse, rindo e sem ar. "Um ano e você resolve em dez minutos."
"Você tava com saudade."
"De mim mesma. Eu tava com saudade de mim."
⁂
Ela tinha camisinha na gaveta da mesinha. Colocou em mim ela mesma, com uma concentração que me lembrou a academia, e depois subiu em cima de mim.
"Eu quero por cima", disse. "Eu tenho perna pra isso."
Desceu devagar. Eu entrei nela centímetro por centímetro, e ela fechou os olhos e mordeu o lábio, e quando chegou no fundo ficou parada, as mãos espalmadas no meu peito.
"Tá bom?", perguntei.
Ela abriu os olhos. "Tá perfeito."
E começou a se mexer. As coxas que eu tinha visto tremer no agachamento agora subiam e desciam comigo dentro dela, firmes, incansáveis. Ela tinha razão: tinha perna para isso. Eu segurei a cintura dela e deixei ela comandar, e ela comandou, rebolando, subindo, descendo, os seios balançando, o cabelo caindo na cara.
"Olha pra mim", ela pediu. "Do jeito do agachamento."
Olhei. Olhei como se ela pudesse tudo. E ela gozou de novo, em cima de mim, apertando, gemendo meu nome. Eu não aguentei e gozei logo depois, segurando o quadril dela com força, empurrando para cima, sem conseguir parar de olhar.
⁂
Ficamos deitados na colcha de crochê, suados. O Pirulito apareceu na porta, olhou para nós com desprezo e foi embora de novo.
"Ele vai me odiar pra sempre", eu disse.
"Ele odeia todo mundo. Mas ele não foi embora. Isso é bom sinal."
Ela deitou a cabeça no meu peito. Ficou desenhando círculos com o dedo.
"Bruno."
"Hum."
"Segunda às seis."
"O que tem?"
"Como a gente faz? A gente finge que nada aconteceu? A gente se beija no rack? O que a moça da recepção vai gritar?"
Eu ri. Pensei.
"A gente faz o mesmo de sempre", eu disse. "Bom dia, bom dia. Eu ajusto a barra, você tira as anilhas."
"E depois?"
"Depois eu te levo café."
Ela levantou a cabeça e me olhou. Ficou séria.
"Tem uma coisa que eu não te contei", disse.
Meu estômago gelou. "O quê?"
"Eu fechei um projeto novo essa semana. Reforma de um escritório inteiro. Uma distribuidora de logística em Santana." Ela mordeu o lábio. "Começo na segunda que vem. Às nove da manhã. O diretor me disse que o gerente de operações vai ser meu contato principal."
Fiquei olhando para ela no escuro.
O gerente de operações da distribuidora de Santana era eu.
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