Eu e a moça da academia: tesão no escritório depois do expediente (Parte 3)
A primeira reunião foi numa segunda às nove, na sala de vidro do terceiro andar, com o diretor, a moça do RH, o rapaz do financeiro e eu. Lia entrou de calça social cinza, camisa branca com a manga dobrada, cabelo preso num rabo baixo e uma pasta de amostras debaixo do braço. Nenhum sinal do vestido azul-marinho nem do batom vermelho. Nenhum sinal, sobretudo, da mulher que dois dias antes tinha gozado em cima de mim numa colcha de crochê.
"Lia Mendes, arquiteta de interiores", ela disse, estendendo a mão para o diretor. Depois para mim. "Prazer."
"Bruno. Prazer."
A mão dela estava gelada. A minha estava suada. Ela apertou um segundo a mais e soltou.
Tinha sido o combinado. No domingo à tarde, deitados no sofá com o Pirulito nos odiando de uma poltrona, a gente tinha conversado sério. Ela não ia perder o contrato, o maior do ano dela. Eu não ia perder o emprego por uma fofoca. Lá dentro, a gente não se conhecia. Ninguém precisava saber da academia, do bar do seu Tião, do resto. Era só uma reforma.
"Três meses", ela tinha dito, enrolando meu cabelo no dedo. "A gente aguenta três meses de cara séria."
"Você aguenta?"
"Eu fiquei quatro meses só dizendo bom dia. Eu sou profissional em me segurar."
Eu não era.
⁂
Ela apresentou o projeto com uma segurança que eu nunca tinha visto. Mostrou plantas, cortes, uma maquete digital no telão. Falou de circulação, de iluminação natural, de onde ficaria a copa. O diretor ficou encantado. A moça do RH perguntou sobre as cadeiras ergonômicas e Lia respondeu com tantos detalhes que a moça anotou num caderno.
E eu fiquei sentado na ponta da mesa olhando as mãos dela apontando o telão e lembrando onde aquelas mãos tinham estado.
"Bruno, você que conhece a operação", o diretor disse de repente. "O que acha da área de expedição?"
Todos olharam para mim. Lia também, com uma cara perfeitamente neutra, a sobrancelha levantada num milímetro de deboche que só eu podia ver.
"Eu… acho que fica bom", eu disse. "Mas a doca precisa de mais espaço de manobra."
"Ótimo ponto", ela disse, anotando. "Vou precisar visitar a doca com o senhor."
Com o senhor.
Ela estava se divertindo.
⁂
A semana foi uma tortura. Ela vinha todo dia, às vezes de manhã, às vezes à tarde, com fita métrica, prancheta, um técnico de elétrica, um fornecedor de piso. Eu cruzava com ela no corredor e dizia "bom dia, Lia", e ela dizia "bom dia, Bruno", exatamente como na academia, e era pior do que na academia, porque agora eu sabia o gosto dela.
Na terça, a gente visitou a doca. Ela mediu a área de manobra comigo segurando a ponta da fita métrica, a três metros de distância, e os caminhoneiros passando, e eu pensando em tudo menos em manobra.
"Você tá olhando pra minha boca", ela disse baixo, sem levantar os olhos da prancheta.
"Não tô."
"Tá sim. Para. O seu Valdir tá olhando."
O seu Valdir, encarregado da doca, sessenta anos, olhava de fato. Eu olhei para o chão.
Na quarta, na academia às seis, a gente se cumprimentou como sempre. Ela fez o agachamento ao meu lado e, na última série, gemeu de propósito, olhando para mim pelo espelho. Eu errei a contagem e fiz catorze repetições em vez de doze.
Na quinta, ela mandou uma mensagem às duas da tarde, enquanto eu estava numa reunião com fornecedor:
Tô no banheiro do terceiro andar. Tirei a calcinha. Tá na minha bolsa. Só queria que você soubesse.
Eu derrubei a caneta. O fornecedor perguntou se estava tudo bem.
Respondi debaixo da mesa: Você quer me matar.
Quero te deixar com vontade. Três meses, lembra? Eu nunca disse que ia ser fácil pra você.
Passei o resto da reunião com a pasta no colo.
⁂
Na sexta, choveu. Choveu daquele jeito de São Paulo em novembro, de repente, com trovão e alagamento na Marginal. Às sete da noite, o prédio estava quase vazio. O pessoal da operação tinha ido embora mais cedo por causa do trânsito. O diretor estava em Campinas. O segurança da portaria assistia jogo no celular.
Eu fiquei porque tinha um relatório para fechar. E porque o carro da Lia ainda estava no estacionamento.
Ela estava no terceiro andar, na sala que ia virar a nova área de reunião, ainda vazia, só com o piso velho e as paredes marcadas a lápis. Sentada no chão, de costas para a janela, com o notebook no colo e a chuva escorrendo no vidro atrás dela.
"Você ainda tá aqui", ela disse quando eu entrei.
"Você também."
"Eu tô esperando a chuva passar. A Marginal tá parada."
"Eu também."
"Mentira."
"Mentira."
Ela fechou o notebook devagar. Ficou me olhando. A luz era só a do corredor, entrando pela porta, e a dos postes lá fora, borrada pela água.
"Tem câmera nessa sala?", ela perguntou.
"Ainda não. Vai ter. Tá no seu projeto."
"Eu sei. Eu que pus." Ela sorriu de canto. "Só queria ouvir você confirmar."
Meu coração começou a bater mais rápido.
"Lia. A gente combinou."
"A gente combinou que ninguém ia saber. Ninguém vai saber." Ela levantou do chão. "O prédio tá vazio. O segurança tá vendo o Corinthians perder. E eu passei a semana inteira molhada olhando você fingir que não me conhece."
Ela atravessou a sala. Parou na minha frente, tão perto que eu sentia o calor dela.
"Fecha a porta", disse. "Se você quiser. Se não quiser, eu pego meu notebook e vou pra Marginal."
⁂
Fechei a porta.
A sala ficou escura, só com a luz da rua. Ela me empurrou contra a parede, a parede que ela tinha marcado a lápis para uma tomada nova, e me beijou como se estivesse com raiva. Raiva da semana, do "com o senhor", do seu Valdir, das catorze repetições. Eu beijei de volta com a mesma raiva.
Eu desabotoei a camisa branca dela. Os botões eram pequenos e eu errei dois. Ela riu na minha boca e terminou por mim. Embaixo estava um sutiã bege simples, de quem tinha vindo trabalhar e não para isso, e isso me deixou mais louco do que qualquer lingerie.
"Hoje você tá de calcinha?", perguntei no ouvido dela.
"Descobre."
Abri a calça social dela. Desci o zíper. Pus a mão por dentro. Ela estava de calcinha, sim, e a calcinha estava encharcada.
"Lia…"
"Eu te disse. A semana inteira."
Ajoelhei. Ali, no piso velho de uma sala vazia do terceiro andar da empresa onde eu trabalhava havia seis anos, eu me ajoelhei na frente da arquiteta contratada e desci a calça dela até os tornozelos. Ela encostou na parede e abriu as pernas o quanto a calça deixava. Afastei a calcinha para o lado e chupei.
Ela pôs a mão na boca para abafar o gemido. A chuva batia no vidro. Lá embaixo, longe, a voz do narrador do jogo saía do celular do segurança.
Era errado. Era o lugar mais errado do mundo para fazer aquilo. E era exatamente por isso que estava tão bom. A gente tinha passado cinco dias fingindo ser outras pessoas, e agora, no escuro, éramos só nós dois, sem crachá, sem "senhor", sem nada.
Ela gozou rápido, com a mão na boca e a outra no meu cabelo, as pernas tremendo, encostada na parede marcada a lápis.
⁂
"Levanta", ela disse, ainda sem ar. "Levanta, eu quero você dentro."
"Aqui?"
"Na mesa."
Não tinha mesa. Tinha uma bancada velha, de fórmica, encostada na parede do fundo, que ia ser retirada na semana seguinte. Ela tirou a calça de vez, chutou para longe, e sentou na bancada de calcinha, sutiã e camisa aberta, as pernas abertas para mim.
Eu tinha camisinha na carteira. Ela riu quando viu.
"Desde quando você anda com isso no trabalho?"
"Desde segunda."
"Sabia."
Abri minha calça. Ela me puxou pelo cinto, me encaixou entre as coxas dela e afastou a calcinha de novo. Entrei de uma vez. Ela estava tão molhada que não houve resistência nenhuma, só o calor e o aperto, e ela soltou um gemido que ecoou na sala vazia.
"Shh", eu disse, rindo.
"Me faz calar então."
Beijei ela. Comecei a me mexer. A bancada velha rangia a cada empurrão, um rangido alto de madeira e metal. Ela cruzou as pernas atrás de mim e me puxou mais fundo, as unhas nas minhas costas por baixo da camisa.
"Mais forte", ela pediu. "Ninguém vai ouvir."
Fui mais forte. A bancada bateu na parede. Uma vez, duas, três. O som era ridículo e excitante. Ela começou a rir e a gemer ao mesmo tempo, e eu também, e a gente se olhou no escuro com a chuva escorrendo atrás e era a coisa mais viva que eu já tinha feito na vida.
"Bruno", ela disse, os olhos fechados. "Eu vou de novo. Não para. Não para."
Ela gozou de novo, apertando em volta de mim, as pernas me prendendo, a cabeça para trás encostada na janela. E eu gozei logo depois, enterrado nela, a testa no ombro dela, com o cheiro do perfume doce e do suor e da sala empoeirada.
⁂
Ficamos assim um tempo, ofegantes, ainda encaixados. A chuva começou a diminuir.
"Você sabe que vai ter câmera aqui na semana que vem", eu disse.
"Eu sei. Por isso foi hoje."
Ela desceu da bancada. Achou a calça no escuro. Começou a se vestir, abotoando a camisa errado, e eu ajudei, e a gente riu de novo.
Foi aí que a luz do corredor apagou e acendeu. Duas vezes. E a gente ouviu passos.
Congelamos.
Os passos subiram a escada. Pararam no terceiro andar. Uma lanterna passou pelo vidro fosco da porta.
"Seu Bruno?", disse uma voz. "É o Ailton, da portaria. O senhor tá aí? O alarme do terceiro andar disparou um sensor de movimento."
Lia arregalou os olhos. Sensor de movimento. Na sala vazia. Tá no seu projeto, eu tinha dito. Eu sei. Eu que pus.
Ela não tinha posto câmera. Mas a empresa de segurança tinha posto sensor na semana anterior, para a obra. E o sensor registrava horário.
"Tô aqui, Ailton", eu disse, alto, a voz mais firme que consegui. "Tô vendo a medição com a arquiteta. Já tamo descendo."
Silêncio do outro lado da porta.
"Tá bom, seu Bruno. É que o sistema manda relatório automático pro diretor na segunda. Eu só queria avisar."
Os passos desceram.
Lia me olhou no escuro, com a camisa abotoada torta, o cabelo desfeito, a calcinha na bolsa de novo.
"Relatório automático", ela repetiu, baixinho. "Pro diretor."
"Na segunda."
"Com horário."
"Com horário."
Ela ficou quieta. Depois começou a rir. Um riso nervoso, que foi crescendo, e ela teve que sentar no chão.
"Bruno", disse entre as risadas. "O que a gente vai dizer pra ele?"
Eu não sabia. Pela primeira vez em seis anos naquela empresa, eu não tinha a menor ideia do que ia dizer na segunda-feira.
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