Eu e a moça da academia: a vizinha nova do 52 (Parte 4)
A segunda-feira chegou como chegam as coisas que a gente teme: sem pressa nenhuma e de uma vez.
Eu não dormi no domingo. Passei a noite ensaiando versões. Estávamos medindo a sala. Verdade, em parte. A arquiteta precisava de acesso fora do horário por causa da chuva. Verdade, em parte. Eu tenho um relacionamento com a profissional contratada, que começou antes do contrato e que eu deveria ter informado. Verdade inteira, e a única que não me deixava enjoado.
Lia dormiu na minha casa. Foi a primeira vez. Ela chegou às dez da noite com uma mochila e o Pirulito numa caixa de transporte, miando como se estivesse sendo sequestrado, e disse: "Eu não vou passar essa noite sozinha e não vou deixar ele sozinho. Se você é contra gato, me fala agora."
Eu não era contra gato. O Pirulito passou a noite inteira em cima da minha geladeira me julgando.
Às cinco e meia, ela acordou antes do alarme. Ficou me olhando no escuro.
"Você não dormiu."
"Não."
"Nem eu." Ela pôs a mão no meu rosto. "Bruno, eu vou contar. Eu ligo pro diretor antes das nove. Digo que o erro foi meu, que eu quis ficar, que você só me acompanhou. Eu sou fornecedora. Pior que pode acontecer é eu perder o contrato."
"Não."
"Bruno…"
"Não. A gente faz junto. Ou não faz."
Ela ficou quieta. Depois me beijou, devagar.
"A gente não vai na academia hoje", disse.
"Não."
"Primeira segunda em quatro meses."
"O rack sobrevive."
⁂
Pedi para falar com o diretor às oito e quarenta. Lia entrou comigo. Ele estava com o relatório impresso em cima da mesa, uma folha só, com uma linha marcada a caneta amarela: Sensor 3B. Movimento detectado. Sexta, 19h12 a 20h04.
"Senta", ele disse. Ele se chamava Osvaldo, tinha cinquenta e oito anos, e eu nunca tinha visto ele levantar a voz.
Sentamos. Eu falei. Falei tudo, menos os detalhes. Que a gente se conhecia da academia havia meses. Que tinha começado a sair duas semanas antes, sem saber que ela ia ser contratada. Que a gente decidiu esconder para não atrapalhar o projeto, e que isso foi um erro. Que na sexta a gente ficou depois do expediente e que aquilo foi falta de juízo, e que eu assumia.
Lia falou depois. Disse que o contrato era dela, que a escolha de ficar tinha sido dela, que se alguém precisava sair do projeto era ela.
Seu Osvaldo ouviu sem dizer nada. Tirou os óculos. Limpou na gravata. Pôs de novo.
"Cinquenta e quatro minutos", disse, olhando o relatório.
Eu senti o rosto queimar. Lia olhou para o chão.
"Eu conheci minha mulher no escritório", ele disse depois de um tempo. "Ela era secretária do meu chefe. 1991. A gente se escondeu oito meses. Quando descobriram, quase me demitiram." Ele dobrou o relatório. "Tem trinta e dois anos que eu tô casado com ela."
Ninguém respondeu.
"Eu vou guardar isso", ele disse, guardando o papel na gaveta. "Daqui pra frente, o contato da arquiteta passa a ser a Cláudia, do RH. Pra ninguém dizer que tem favorecimento. E sala vazia depois do expediente, nunca mais. Combinado?"
"Combinado", a gente disse junto.
"E Bruno." Ele levantou uma sobrancelha. "Na próxima, avisa antes. Não é por mim. É pro Ailton não ter um infarto."
⁂
Saímos da sala dele e paramos no corredor, os dois, sem conseguir falar. A Cláudia do RH passou com um café e nos olhou com uma cara que dizia que ela já sabia. Talvez o prédio inteiro já soubesse. Talvez sempre tivesse sabido.
Lia segurou minha mão. Ali, no corredor do terceiro andar, na frente da Cláudia, do rapaz do financeiro, de quem passasse.
"Pronto", ela disse. "Agora a gente é público."
"Agora a gente é público."
Ela sorriu e soltou minha mão. "Vou trabalhar. Te vejo às sete. Na sua casa. O Pirulito tá esperando."
⁂
Às sete eu cheguei em casa e o apartamento cheirava a alho e manjericão. Lia estava na cozinha de camiseta minha, sem calça, mexendo uma panela de molho, com o celular tocando sertanejo antigo baixinho. O Pirulito estava no sofá, no meu lugar.
"Você tá cozinhando", eu disse.
"Eu tô comemorando. A gente não foi demitido."
Eu abracei ela por trás. A camiseta subia e dava para ver a curva da bunda nua. Beijei o pescoço dela e ela inclinou a cabeça para o lado, deixando.
"Bruno", ela disse, mexendo o molho. "Posso te perguntar uma coisa estranha?"
"Hoje tudo é estranho."
"O 52 tá vazio, né? O apartamento do lado do seu."
Parei. O 52 era do seu Hélio, um aposentado que tinha ido morar com a filha em Florianópolis havia dois meses. Tinha uma placa de "aluga-se" na portaria.
"Tá. Por quê?"
Ela desligou o fogo e virou de frente para mim, encostada na pia.
"O meu contrato da Teodoro vence em janeiro. O dono quer aumentar trinta por cento. E o prédio não tem elevador, e o Pirulito tá ficando velho, e eu tô cansada de subir com sacola de mercado." Ela mordeu o lábio. "E aí eu vi a placa hoje de manhã, quando saí. E pensei."
"Pensou o quê?"
"Que seria bom morar perto. Não junto. Perto. Uma parede de distância." Ela falou rápido, como quem já tinha ensaiado. "Eu não tô pronta pra morar junto. Eu morei junto com o advogado e foi horrível. Eu preciso do meu canto, do meu cheiro, da minha bagunça. Mas eu também não quero mais atravessar a cidade pra te ver. Eu quero bater na sua porta de pijama."
Fiquei olhando para ela. De camiseta minha, descalça, com molho de tomate na bochecha. Pedindo para ser minha vizinha.
"Você quer ser a vizinha nova do 52", eu disse.
"Se você não achar loucura."
"Eu acho loucura."
O rosto dela caiu.
"Eu acho loucura", repeti, segurando o rosto dela, "e acho a melhor ideia que alguém já teve na minha cozinha."
⁂
A gente não jantou. O molho esfriou na panela.
Levei ela para o chuveiro, porque ela estava suja de tomate e eu de um dia inteiro de medo. A água estava quente, o box era pequeno, a gente batia o cotovelo na parede. Ela tirou a minha camiseta do corpo dela e jogou no chão do banheiro, e ficou nua debaixo da água, o cabelo escurecendo, a água descendo pelos seios, pela barriga, entre as coxas.
Eu ensaboei ela. Devagar. Os ombros, as costas, a bunda. Passei a mão espumada entre as pernas dela e ela segurou no meu braço.
"Você sabe que eu ainda tô com aquele sensor na cabeça", ela disse, rindo. "Cinquenta e quatro minutos."
"Aqui não tem sensor."
"Aqui tem o Pirulito."
O Pirulito, de fato, estava sentado na porta do banheiro nos olhando com tédio.
Ela virou de costas para mim, apoiou as mãos na parede de azulejo e empinou o quadril. Olhou por cima do ombro, como na foto da cachoeira.
"Vem", disse. "Sem pressa dessa vez. A gente não tem mais nada pra esconder."
Entrei nela devagar, a água caindo em cima de nós dois. Era diferente da bancada, do escuro, da urgência. Era lento, quente, molhado de todos os jeitos. Eu segurei os seios dela com as mãos ensaboadas e me mexi devagar, fundo, e ela gemia baixo, a testa encostada no azulejo, sem precisar abafar nada.
"Eu gosto disso", ela disse. "De não precisar fingir."
"Eu também."
"Eu gosto de você, Bruno."
Parei. Ela também parou. Virou o rosto, a água escorrendo pela cara.
"Eu gosto muito de você", ela repetiu. "Não é só o tesão. Eu queria dizer isso sem estar gozando, pra você não achar que era o tesão falando. Mas não deu tempo."
Eu ri e beijei ela de lado, desajeitado, com água na boca.
"Eu também gosto muito de você."
"Então continua."
Continuei. Até ela gozar com a mão dela entre as pernas e a minha por cima, e eu logo depois, abraçado nela, os dois escorregando no box, rindo, quase caindo.
⁂
Mais tarde, deitados na minha cama, com o Pirulito finalmente rendido e dormindo aos nossos pés, ela pegou o celular.
"Vou mandar mensagem pro seu Hélio", ela disse. "O número tá na placa. Eu tirei foto."
"Agora? É meia-noite."
"Ele é aposentado em Florianópolis. Ele tá acordado vendo novela."
Ela digitou. Me mostrou antes de enviar.
Boa noite, seu Hélio. Me chamo Lia, sou arquiteta, tenho interesse no apartamento 52. Sou namorada do vizinho do 51, o Bruno. Ele pode dar referência.
"Namorada", eu disse.
"Você tem objeção?"
"Nenhuma."
Ela enviou. A gente ficou olhando a tela.
O celular vibrou quase na hora. Ela abriu, leu, e começou a rir de um jeito que acordou o gato.
"Que foi?"
Ela virou a tela para mim.
Boa noite, Lia! O Bruno é ótimo rapaz. Mas preciso avisar: a parede entre o 51 e o 52 é muito fina. Minha falecida esposa reclamava que ouvia o vizinho espirrar. Ainda quer?
Lia me olhou, os olhos brilhando, a covinha aparecendo.
"Muito fina", ela repetiu.
"Ouvia espirrar", eu disse.
Ela digitou a resposta devagar, sorrindo, e me mostrou antes de mandar. Uma palavra só.
Quero.
E do outro lado da parede, no 52 vazio, alguma coisa caiu no chão com um barulho seco, como se o apartamento inteiro tivesse ouvido.
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