✒ Escrito por humanoSwing e ménage · 10 minConto #108

Exibicionismo a dois: eu e meu marido na janela para o vizinho (Parte 1)

por Noa Bruma

Foi o André que viu primeiro.

Era uma terça de janeiro, calor de quarenta graus em São Paulo, e a gente tinha deixado a cortina da sala aberta porque o ar-condicionado tinha quebrado. Eu estava deitada no sofá, de calcinha e camiseta, lendo. André veio da cozinha com dois copos de água e parou no meio da sala.

"Paula", ele disse, baixo. "Não olha agora. O cara do prédio da frente tá olhando pra cá."

Claro que eu olhei.

Do outro lado da rua, um andar abaixo do nosso, numa varanda com uma rede e um vaso de costela-de-adão, havia um homem de pé. Camiseta branca, cerveja na mão. Quando eu olhei, ele não desviou. Levantou a garrafa, devagar, num cumprimento. Depois entrou.

"Que cara de pau", eu disse.

"Você tá de calcinha", André disse.

"Eu tô na minha casa."

"Eu sei." Ele me deu o copo. Sentou na ponta do sofá, com meus pés no colo. Ficou quieto um tempo. "Você ficou incomodada?"

Eu pensei antes de responder. Oito anos de casamento ensinam a gente a pensar antes de responder certas perguntas.

"Não sei", eu disse. "Fiquei com vergonha. E depois não."

"Depois não o quê?"

"Depois não fiquei com vergonha."

André passou o polegar pela sola do meu pé. Não disse nada. Mas eu vi o jeito como ele olhou para a janela. E eu conhecia esse jeito.

⁂

A gente nunca tinha feito nada fora do comum. Tínhamos uma vida boa, sexo bom, duas vezes por semana, às vezes três, sempre em casa, sempre no quarto. Eu sou contadora. Ele é professor de educação física numa escola particular. A gente tem um cachorro chamado Biscoito e um financiamento de vinte anos.

Mas naquela noite, no quarto, com a luz apagada, ele perguntou:

"Você pensaria nisso? Em ser vista?"

"Por aquele cara?"

"Por alguém. Qualquer um. Eu tô perguntando de verdade."

Eu fiquei olhando o teto.

"Eu pensei nisso hoje à tarde", admiti. "Depois que ele entrou. Pensei como seria se ele tivesse ficado."

André virou de lado. A mão dele subiu pela minha barriga.

"E como seria?"

"Seria assustador", eu disse. "E eu ia gostar."

Ele riu baixinho no meu pescoço. E me comeu com uma fome que eu não via fazia anos.

⁂

Nas semanas seguintes, a gente não fez nada. Mas também não fechou a cortina.

O vizinho aparecia na varanda às vezes. Lia, fumava, regava a costela-de-adão. Quando nos via, cumprimentava com a cabeça. Nunca de um jeito grosseiro. Nunca ficava olhando demais. Era quase educado.

Foi o porteiro que nos disse o nome dele, sem a gente perguntar direito. Júlio. Quarenta anos. Divorciado. Arquiteto de interiores. "Gente fina", disse o porteiro.

E foi o André que teve a ideia de escrever o bilhete.

"Você tá louco", eu disse.

"A gente não vai fazer nada que você não queira. Mas eu não quero fazer nada sem que ele saiba e aceite também. Senão é só a gente se mostrando pra alguém que não pediu. Isso não é justo com ele."

Era típico do André. Ele não sabia fazer nada sem regra. Era professor até no tesão.

Escrevemos juntos, numa noite de sábado, rindo e apagando. A versão final foi assim:

Júlio, somos o casal do 81, prédio da frente. Notamos que você nos vê às vezes. Não ficamos incomodados. Pelo contrário. Se você tiver interesse em assistir, com combinado, sem toque, sem fotos, sem vídeo, só olhar, responda neste número. Se não tiver, desculpa o bilhete, rasga e esquece. Paula e André.

André deixou na portaria do prédio dele, num envelope fechado.

Eu passei a noite sem dormir.

⁂

A resposta veio dois dias depois, às onze da noite.

Paula e André. Li o bilhete umas dez vezes. Confesso que fiquei sem saber o que fazer. Mas sim, tenho interesse. E agradeço pela forma. Respeito as regras de vocês. Se eu tiver alguma, posso dizer também? Júlio.

"Ele quer regras também", eu disse, rindo de nervoso.

"Pergunta quais."

Ele respondeu rápido.

Só uma. Se em algum momento algum de vocês quiser parar, fecha a cortina. Eu vou entender e não vou insistir. E se for eu, eu apago a luz da varanda.

Eu olhei para o André.

"Eu gostei dele", eu disse.

"Eu também."

Marcamos para sexta.

⁂

Na sexta, eu não consegui trabalhar. Fiquei olhando planilha sem enxergar número. Saí cedo, fui para casa, tomei um banho longo, depilei com cuidado, passei hidratante, escolhi uma lingerie vermelha que nunca tinha usado, que eu tinha comprado num aniversário e esquecido no fundo da gaveta.

André chegou às sete. Me viu de roupão na sala e parou.

"Você tá bem?"

"Eu tô com medo."

"Quer desistir?"

"Não." Eu respirei. "Eu quero que você me diga que tá tudo bem."

Ele veio até mim. Segurou meu rosto.

"Tá tudo bem. Você manda. Se você fechar a cortina, acabou. Se você quiser parar no meio, a gente para. Se você quiser que eu desista, eu desisto agora."

"Eu não quero que você desista."

"Então a gente vai devagar."

Às nove, como combinado, a luz da varanda do Júlio acendeu. Ele estava lá, sentado numa cadeira de madeira, de bermuda e camisa aberta. Sem cerveja dessa vez. Só olhando.

André apagou todas as luzes da sala menos o abajur do canto, que deixava tudo dourado. Eu fiquei de pé no meio da sala, de roupão, de frente para a janela.

Do outro lado, Júlio não se mexia.

Eu senti o olhar dele na pele. Era impossível, ele estava a uns vinte metros, mas eu senti. Era como calor de sol.

⁂

André ficou atrás de mim. Não me tocou. Só ficou ali, eu sentia a respiração dele no meu cabelo.

"Tira o roupão", ele disse no meu ouvido.

Eu desamarrei a faixa. Devagar. Minhas mãos tremiam. Deixei o roupão abrir e escorregar pelos ombros até o chão.

Fiquei ali de lingerie vermelha, no meio da sala dourada, de frente para um desconhecido.

Do outro lado da rua, Júlio se inclinou para frente na cadeira. Apoiou os cotovelos nos joelhos. Não fez nenhum gesto vulgar. Só olhava. Com uma atenção que eu nunca tinha recebido na vida.

"Ele tá te olhando", André disse. "Como você tá se sentindo?"

"Nua", eu disse. "Mesmo de calcinha."

"Quer que eu feche a cortina?"

"Não."

André encostou a boca no meu ombro. Só a boca. Depois desceu a alça do sutiã com os dentes.

Eu olhei para o Júlio. Ele tinha passado a mão no rosto, devagar. Eu vi o peito dele subir e descer.

André abriu o fecho do sutiã. Ele caiu. Meus seios ficaram expostos à luz do abajur e ao olhar do vizinho. Eu tive vontade de cobrir com os braços. Não cobri. Deixei os braços ao lado do corpo e levantei o queixo.

"Linda", André disse. "Olha pra ele. Ele tá dizendo isso também."

Do outro lado, Júlio levantou da cadeira. Ficou de pé na beira da varanda, as mãos no parapeito.

André passou as mãos por baixo dos meus braços e segurou meus seios. Apertou devagar. Eu gemi, alto, sem querer, e pensei que o Júlio não podia ouvir, mas podia ver minha boca abrir.

⁂

O que aconteceu depois, eu só lembro em pedaços.

Lembro de André me virando de frente para a janela e se ajoelhando atrás de mim. Lembro da calcinha descendo pelas minhas coxas. Lembro de abrir as pernas, as mãos apoiadas no vidro frio da janela, e sentir a boca do meu marido entre as minhas coxas, por trás, enquanto eu olhava nos olhos de um homem do outro lado da rua.

Júlio tinha aberto a bermuda. Eu vi. Ele se tocava, devagar, sem tirar os olhos de mim. E isso, de tudo, foi o que me desmontou. Saber que eu estava causando aquilo. Que meu corpo, com meus 34 anos, com a celulite que eu odiava, com a barriga que eu escondia no biquíni, estava fazendo um homem desconhecido perder o controle numa varanda.

Gozei com as mãos no vidro e a testa encostada nele. Foi tão forte que o vidro embaçou com a minha respiração.

André levantou. Abriu a calça. Entrou em mim por trás, ali mesmo, contra a janela.

"Olha pra ele", disse no meu ouvido. "Deixa ele ver você."

Eu olhei. Júlio estava com a cabeça para trás, a mão se mexendo rápido. André me segurava pelos quadris e metia fundo, devagar, e cada vez que ele entrava meus seios encostavam no vidro.

Vi o Júlio gozar. Vi o corpo dele se curvar no parapeito. E, segundos depois, André gozou dentro de mim, gemendo meu nome, abraçado nas minhas costas.

⁂

Ficamos ali muito tempo, encostados no vidro, respirando.

Do outro lado, Júlio se recompôs. Fechou a bermuda. Ficou de pé um instante, olhando para nós. Depois levou a mão ao peito, como quem agradece. E apagou a luz da varanda.

Meu celular vibrou na mesa de centro. André pegou e me mostrou.

Obrigado. Pela confiança, principalmente. Vocês são lindos juntos. Se quiserem repetir, estou aqui. Se não quiserem, foi uma das noites mais bonitas da minha vida. Júlio.

Eu ri, nua, com o rosto molhado, sem saber se era de suor ou de choro.

"Você tá bem?", André perguntou.

"Eu tô ótima." Eu virei e abracei ele. "Eu tô assustada de tão ótima."

⁂

Na cama, mais tarde, André ficou mexendo no meu cabelo.

"Posso te contar uma coisa?", ele disse.

"Pode."

"Tem um lugar. Um clube. Em Moema. Um clube de swing. Um colega da academia frequenta com a mulher. Ele me falou uma vez e eu nunca tive coragem de te contar."

Eu levantei a cabeça do peito dele.

"Um clube de swing?"

"Não precisa fazer nada lá. Ele diz que a maioria dos casais só vai pra olhar. Ou pra ser olhado." Ele me olhou. "Hoje eu vi você ser olhada. Eu nunca te vi tão linda."

Eu fiquei calada. Lá fora, a varanda do Júlio estava apagada. A costela-de-adão se mexia no vento.

"Quando?", eu perguntei.

André sorriu no escuro.

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