Nossa primeira noite num clube de swing (Parte 2)
A gente levou três semanas para ir.
Na primeira, eu disse que tinha muito trabalho. Na segunda, o Biscoito ficou doente. Na terceira, André me olhou no café da manhã e disse:
"Paula, se você não quiser ir, tudo bem. De verdade. Mas me diz que não quer. Não inventa desculpa."
Eu fiquei com a xícara parada na boca.
"Eu quero", eu disse. "Eu só tô com medo de gostar demais."
Ele riu. "Esse é o melhor medo que existe."
Marcamos para o sábado.
⁂
O clube ficava numa casa de dois andares numa rua residencial de Moema, sem placa, com um portão preto e um segurança de terno. Se eu passasse ali de dia, acharia que era uma clínica de estética.
Antes de sair de casa, a gente sentou na cama e fez a lista. André fez questão.
"Regras", ele disse, com uma folha de papel na mão, como se fosse dar aula.
"Você é ridículo."
"Regra um: hoje é só olhar. Ninguém toca em ninguém de fora."
"Concordo."
"Regra dois: palavra de segurança. Se um de nós disser 'Biscoito', a gente vai embora na hora. Sem pergunta."
Eu ri tanto que chorei. "Biscoito?"
"Ninguém fala Biscoito numa casa de swing por acidente."
"Regra três", eu disse, pegando a caneta da mão dele. "A gente conversa depois. Sobre tudo. Mesmo o que for estranho."
Ele assinou embaixo. Eu também. Guardei a folha na gaveta da mesa de cabeceira, onde ela está até hoje.
⁂
Lá dentro, era menos assustador e mais estranho do que eu imaginava. Tinha um bar comprido com luz vermelha, uma pista pequena com música eletrônica baixa, sofás de couro, gente bebendo e conversando. A maioria eram casais da nossa idade, alguns mais velhos. Todo mundo vestido como para uma festa. Ninguém pelado.
A hostess, uma mulher de uns cinquenta anos chamada Cida, nos explicou tudo com a paciência de quem já fez isso mil vezes.
"Primeira vez?"
"É tão óbvio assim?", André perguntou.
"Vocês tão de mão dada apertando forte", ela disse, sorrindo. "Relaxa. Aqui a regra é uma só: não é não. Ninguém toca em ninguém sem pedir. No andar de cima ficam as salas. Tem sala aberta, sala com vidro, sala fechada. Se a porta tá aberta, pode olhar. Se tá fechada, não entra. Bebam alguma coisa e vão descobrindo."
Fomos para o bar. Pedi um gim-tônica. André pediu cerveja. Ficamos encostados no balcão, olhando as pessoas, como dois turistas.
"Você tá bem?", ele perguntou.
"Eu tô com a calcinha molhada e ainda nem vi nada", eu disse, e ele cuspiu a cerveja.
⁂
Foi no bar que eu a vi.
Uma mulher de vestido verde, cabelo curto, cheia de tatuagem no braço, rindo alto com um grupo no canto. Ela virou o rosto e eu congelei.
"André", eu disse. "É a Bia."
"Que Bia?"
"A Bia. Da faculdade. Minha amiga. Que eu não vejo há dois anos."
A Bia me viu no mesmo segundo. A boca dela abriu. Depois ela começou a rir, um riso de quem não acredita, e veio atravessando o salão na nossa direção.
"Paula Mendes", ela disse, me abraçando. "Num clube de swing. Eu vou morrer."
"Eu que vou morrer", eu disse, vermelha até a raiz do cabelo.
Bia tinha 32 anos, era fotógrafa, solteira, e tinha sido minha colega de república em Campinas. A gente perdeu contato depois do meu casamento, sem briga, só vida.
"Você vem sempre?", eu perguntei, e me arrependi da pergunta na hora.
"Uma vez por mês, mais ou menos. Venho com uns amigos. Às vezes só olho, às vezes não." Ela olhou para o André, depois para mim. "Primeira vez de vocês?"
"Primeira", André disse.
"Que lindo." Ela parecia sinceramente encantada. "Querem que eu mostre a casa?"
⁂
Ela mostrou. Subimos a escada de madeira, os três, e Bia foi explicando como uma guia de museu. A sala com cama redonda e porta aberta, onde um casal mais velho se beijava devagar enquanto outros dois assistiam do sofá. O corredor escuro com espelhos. A sala fechada com uma luzinha vermelha acesa na porta.
E a sala de vidro.
Era um cubo transparente no meio de um salão maior. Dentro, uma cama larga com lençol preto. Fora, sofás em volta, onde as pessoas sentavam para olhar. Lá dentro, naquela hora, não tinha ninguém.
"Essa é a minha favorita", Bia disse. "Quem entra aí quer ser visto. É o exibicionismo mais honesto da casa."
Eu fiquei olhando a cama vazia.
André apertou minha mão. Eu sabia o que ele estava pensando, porque eu estava pensando a mesma coisa.
"Regra um", eu disse baixinho. "Só olhar."
"Ninguém toca em ninguém de fora", ele disse. "A regra não fala nada sobre a gente se tocar."
Bia olhou de um para o outro e sorriu devagar.
"Eu vou sentar ali", ela disse, apontando um sofá. "Se vocês entrarem, eu assisto. Se não entrarem, a gente bebe mais um drinque e fofoca sobre a faculdade. As duas opções são ótimas."
⁂
Eu entrei primeiro.
A porta de vidro fechou atrás de nós com um clique suave. O som de fora ficou abafado. Lá dentro tinha cheiro de lençol limpo e de alguma coisa doce, baunilha, talvez.
Do lado de fora, nos sofás, umas seis ou sete pessoas pararam de conversar. Um casal de meia-idade. Dois homens de mãos dadas. Uma mulher sozinha. E a Bia, no canto, com o queixo apoiado na mão, me olhando com uma ternura que me desarmou.
Eu tirei o vestido. Fui eu que tirei, ninguém pediu. Fiquei de calcinha e sutiã preto no meio do cubo de vidro, debaixo de uma luz baixa e quente, com estranhos me olhando, e senti a mesma coisa da janela, só que multiplicada por sete.
André me beijou. Eu desabotoei a camisa dele com pressa. Ele me deitou no lençol preto e tirou minha calcinha devagar, olhando para fora, para as pessoas, e depois para mim.
"Todo mundo tá te olhando", ele disse.
"Eu sei."
"Como é?"
"É como se eu fosse a coisa mais importante do mundo."
Ele abriu minhas pernas e me chupou ali, no meio do cubo, e eu arqueei as costas e olhei para o vidro. A mulher sozinha tinha a mão entre as coxas. O casal de meia-idade se beijava. Os dois homens assistiam de mãos dadas, sorrindo.
E a Bia. A Bia não piscava.
Quando eu gozei, foi olhando nos olhos dela. Não planejei. Simplesmente aconteceu. Ela estava ali, no meu campo de visão, e eu não desviei, e ela também não. Vi ela morder o lábio. Vi ela respirar fundo.
André subiu em mim. Pôs a camisinha que a casa deixava numa tigela de vidro na cabeceira. Entrou devagar. Eu enrosquei as pernas na cintura dele e ele começou a se mexer, fundo, cadenciado, e eu gemia sem me importar com o som que escapava pelo vidro.
Ele me virou de quatro, de frente para a Bia. Eu fiquei com as mãos no lençol e o rosto a dois metros do vidro, a dois metros dela, e o meu marido me comendo por trás enquanto a minha amiga da faculdade assistia.
Ela encostou a mão no vidro.
Eu, sem pensar, encostei a minha do outro lado, no mesmo lugar.
Ficamos assim, as palmas separadas só pelo vidro, enquanto André gozava dentro de mim gemendo alto, e eu gozava de novo, com a testa quase encostada na mão dela.
⁂
Quando saímos do cubo, as pessoas aplaudiram. Baixinho, discretamente, mas aplaudiram. Eu fiquei roxa de vergonha e ri ao mesmo tempo.
Bia veio até nós com dois copos d'água.
"Vocês foram lindos", ela disse. "Sério. Eu já vi muita coisa aqui. Aquilo foi bonito."
"A mão", eu disse, sem saber como terminar a frase.
"Eu sei", ela disse. "Desculpa. Não resisti."
"Não pede desculpa."
Ficamos as três pessoas paradas no meio do salão, sem saber o que fazer com o que tinha acontecido.
Foi o André que falou.
"Bia", ele disse. "A gente tem uma regra três. A gente conversa depois sobre tudo. Você topa vir conversar com a gente? Não hoje. Num jantar. Lá em casa."
Bia olhou para mim. Eu sustentei o olhar.
"Só conversar?", ela perguntou.
"Pra começar", eu disse.
⁂
No Uber, voltando para casa, eu deitei a cabeça no ombro do André.
"Você disse 'pra começar'", ele disse.
"Eu disse."
"Você tá pensando o que eu tô pensando?"
"Eu tô pensando na mão dela no vidro", eu disse. "E em como seria sem o vidro."
André ficou calado. Depois pegou minha mão e beijou a palma, exatamente onde a dela tinha encostado.
Meu celular vibrou. Bia.
Sábado que vem? Eu levo o vinho. E Paula: eu penso em você desde Campinas. Achei que você devia saber antes do jantar.
Eu mostrei para o André. Ele leu duas vezes.
"Desde Campinas", ele disse.
"Eu não sabia", eu disse. E era verdade. Ou quase.
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