Troca de casais: a noite de swing que mudou nosso casamento (Parte 4)
A gente se encontrou primeiro num bar. Isso foi ideia minha.
"Eu não vou pra cama com um homem que eu nunca vi tomar uma cerveja", eu disse ao André, e ele concordou na hora.
O bar ficava na Vila Madalena, uma mesa de canto no fundo, numa terça de chuva. Carol tinha 37 anos, era dentista, ruiva, de risada fácil. Rafael tinha 39, era engenheiro de som, alto, calado, com mãos grandes que mexiam o tempo todo no rótulo da garrafa. Estavam casados havia doze anos e frequentavam o swing havia cinco.
Bia sentou do meu lado. Por baixo da mesa, segurou minha mão o tempo inteiro.
"Como vocês começaram?", André perguntou.
"Igual vocês", Carol disse. "Curiosidade. Medo. Uma noite no clube só olhando. Depois outra. Depois a gente percebeu que o que mais excitava a gente era voltar pra casa e contar um pro outro."
"E o ciúme?", eu perguntei.
Rafael levantou os olhos da garrafa pela primeira vez.
"Tem", ele disse. "Não vou mentir. Às vezes bate. A diferença é que a gente fala. Sempre. Se bater, a gente para e fala. Se não der pra falar, a gente vai embora."
Eu gostei dele naquele momento. Não pelo corpo. Pela honestidade.
⁂
Fizemos as regras na mesa do bar, num guardanapo. André, claro, pediu caneta ao garçom.
Camisinha sempre. Sem beijo na boca na primeira vez, porque a Carol disse que beijo era a coisa mais íntima para ela e preferia guardar. Mesmo quarto, sempre, ninguém some com ninguém. A palavra de segurança continuou Biscoito, e Carol e Rafael riram tanto que aceitaram na hora. E a Bia ficaria no quarto também, na poltrona, só olhando, a não ser que alguém pedisse diferente.
"Por que você quer a Bia lá?", Carol me perguntou, sem maldade.
Eu pensei.
"Porque ela me vê", eu disse. "E eu fico mais corajosa quando ela me vê."
Bia apertou minha mão debaixo da mesa.
Marcamos para o sábado seguinte, na casa deles, em Pinheiros.
⁂
A casa deles era cheia de discos e plantas. Rafael pôs um vinil de jazz. Carol serviu espumante. Durante uma hora, a gente só conversou, na sala, rindo, como amigos que se conhecem há anos. Eu pensei que talvez nada fosse acontecer, e fiquei aliviada e frustrada ao mesmo tempo.
Foi a Carol que levantou e estendeu a mão para o André.
"Vem me ajudar a pegar mais gelo", ela disse.
Ele olhou para mim.
"Vai", eu disse.
Eles foram para a cozinha. Eu fiquei na sala com Rafael e Bia. O jazz tocava baixo. Rafael me olhou.
"Você tá com medo", ele disse. Não era pergunta.
"Tô."
"Eu também. Toda vez." Ele sorriu, pela primeira vez a noite toda. "Se você quiser, a gente só conversa. Ninguém vai ficar chateado."
"Eu não quero só conversar."
Ele estendeu a mão. Eu peguei. Era quente e áspera.
⁂
O quarto deles tinha uma cama enorme e um espelho grande na parede. Quando eu entrei com o Rafael, André e Carol já estavam lá, sentados na beira da cama, ainda de roupa, conversando baixo. A Bia sentou na poltrona do canto e cruzou as pernas.
Ninguém sabia como começar. Ficamos os quatro de pé, olhando uns para os outros, e de repente a Carol riu e disse:
"Gente, alguém tem que tirar a roupa primeiro senão a gente vai virar estátua."
E tirou o vestido. Ali, na nossa frente, inteira, sem cerimônia. O corpo dela era cheio de sardas, como se alguém tivesse jogado canela nela.
Eu olhei para o André. Ele estava olhando para ela. E depois, rápido, para mim, para checar.
Eu sorri para ele. E tirei a minha blusa.
⁂
Foi estranho e foi lindo e foi as duas coisas ao mesmo tempo.
Rafael me deitou na cama devagar, ao lado de onde Carol tinha puxado o André. As mãos grandes dele passearam pelo meu corpo como se ele estivesse aprendendo um instrumento novo. Ele não me beijou na boca. Beijou meu pescoço, meus seios, a parte de dentro dos meus pulsos. Desceu pela minha barriga e me chupou com uma calma que me deixou louca.
Do meu lado, a meio metro, André estava com a cabeça entre as pernas da Carol. Eu ouvia os gemidos dela. Eu via a mão dela no cabelo dele, no cabelo que era meu.
E foi aí que bateu. O ciúme. Quente, rápido, no meio do peito.
Eu fiquei rígida. Rafael percebeu na hora e parou.
"Tudo bem?"
Eu não respondi. Olhei para a poltrona. A Bia estava me olhando, inclinada para frente. Ela não disse nada. Só fez um gesto com a cabeça, devagar: respira.
Eu respirei. Olhei para o André. Ele tinha parado também. Tinha levantado a cabeça e estava me olhando, com a boca molhada da Carol, os olhos perguntando.
"Biscoito?", ele disse baixinho.
E eu entendi que bastava uma palavra. Que eu podia parar tudo. Que ninguém ia me julgar. E saber disso foi o que fez o ciúme virar outra coisa.
"Não", eu disse. "Continua. Eu quero ver."
Ele voltou para ela. E eu voltei para o Rafael.
⁂
Quando Rafael entrou em mim, com a camisinha, devagar, eu virei o rosto para o lado e vi meu marido entrando na Carol. Ao mesmo tempo. Os dois homens se movendo no mesmo ritmo, quase, como se tivessem combinado.
Eu nunca tinha visto o André de fora. Nunca tinha visto como as costas dele se contraíam, como ele mordia o lábio, como ele segurava a coxa de uma mulher. Era como ver um filme sobre o meu próprio casamento.
E ele me olhava também. Enquanto metia na Carol, ele me olhava sendo comida pelo Rafael. Os nossos olhos se cruzavam no meio da cama, e cada vez que se cruzavam, eu sentia uma onda subir.
Estendi a mão. Ele estendeu a dele. Nossos dedos se encontraram no lençol, entre os nossos corpos e os corpos dos outros, e ficaram entrelaçados.
Eu gozei segurando a mão do meu marido, com outro homem dentro de mim, olhando nos olhos dele. Ele gozou segundos depois, dentro da Carol, sem soltar a minha mão.
No espelho da parede, eu vi a cena toda de uma vez. Quatro corpos. Duas mãos dadas. E, no canto, a Bia, com a mão no peito e os olhos brilhando.
⁂
Depois, tomamos banho, um casal de cada vez. Comemos pizza na sala, de roupão, rindo de tudo. Carol contou que o Rafael tinha chorado na primeira troca deles, cinco anos antes, e Rafael confirmou sem vergonha nenhuma. André contou da folha de regras na gaveta. Ninguém achou ridículo.
Na saída, Carol me abraçou.
"Vocês vão ficar bem", ela disse. "Dá pra ver. Vocês se seguram."
⁂
No carro, ninguém falou nada durante dez minutos. Bia estava no banco de trás, dormindo com a cabeça na janela.
"Você teve ciúme", André disse, finalmente.
"Tive."
"Eu também."
"De quê?"
"De ele te fazer gozar." Ele parou no sinal vermelho. "E depois você segurou a minha mão e passou."
"Comigo também."
O sinal abriu. Ele não arrancou. O carro de trás buzinou.
"Paula", ele disse. "Eu não quero fazer isso toda semana. Nem todo mês, talvez. Mas eu quero que isso seja nosso. A janela, o clube, a Bia, hoje. Eu quero que seja uma coisa que a gente escolhe junto, quando quiser."
"Eu também", eu disse.
Ele arrancou.
⁂
Em casa, a Bia foi dormir no quarto de hóspedes. Eu e o André fomos para o nosso quarto e, pela primeira vez em semanas, fizemos amor só nós dois. Devagar, sem plateia, sem regra nova, com a cortina fechada.
Foi o melhor sexo da nossa vida. Melhor que a janela, melhor que o cubo de vidro, melhor que a troca. Porque tinha tudo aquilo dentro, e era só nosso.
Antes de dormir, ele abriu a gaveta da mesa de cabeceira e pegou a folha de regras. Escreveu uma linha nova, embaixo das outras, e me mostrou.
Regra quatro: a gente volta sempre pra casa.
Eu assinei.
Lá fora, do outro lado da rua, a luz da varanda do Júlio acendeu, ficou acesa um minuto e apagou de novo. Como um aceno.
Eu sorri no escuro, e dormi.
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