✒ Escrito por humanoHétero · 12 minConto #112

Virei o voto: a petista do churrasco do condomínio

por Noa Bruma

hétero

O churrasco do Condomínio Jardim das Palmeiras, no Recreio, tinha três regras escritas no grupo de WhatsApp: não deixar lata no chão da piscina, não levar caixa de som própria e não falar de política. A terceira durou até a segunda cerveja.

Eu estava de camiseta da seleção, a amarela, a de 2002, que eu juro que uso porque é confortável. O Jorginho do 304 fez a piada de sempre, eu fiz a resposta de sempre, e todo mundo riu do jeito que se ri de coisa repetida. Foi aí que ela falou, sem levantar da cadeira de plástico:

"Engraçado. Vocês sempre riem antes de terminar o argumento."

Renata, do bloco B. Eu sabia o nome porque o carro dela tinha um adesivo de estrela vermelha na traseira, e eu já tinha reclamado daquele adesivo para o síndico, por escrito, como se adesivo fosse infiltração. Trinta e nove anos, engenheira civil, separada, segundo a Dona Célia, que sabe a vida de todo mundo do bloco A ao C. Cabelo preto preso com uma caneta. Uma camiseta branca, larga, com a estrela pequena no peito, bem onde o olho não deveria ir. O meu foi.

"Que argumento você quer?", perguntei, com a segurança de quem tem quarenta e quatro anos e uma loja de material de construção.

"Qualquer um. Um só. Inteiro. Sem meme."

O pessoal fez aquele "uuuh" de arquibancada. Eu ri. Ela não. Ela me olhou como quem confere uma planta baixa e encontra a parede no lugar errado.

Primeiro tempo

A discussão durou quarenta minutos. Eu falei de imposto, ela me perguntou quanto eu pagava. Eu falei de corrupção, ela me perguntou de quem, e quando eu respondi, ela fez outra pergunta, e depois outra, sempre com a voz baixa, quase gentil, o que era pior. Cada vez que eu subia o tom, ela descia. Cada vez que eu apontava o dedo, ela tomava um gole de cerveja e esperava, com uma paciência que me dava vontade de quebrar alguma coisa e, ao mesmo tempo, de continuar ali para sempre.

Em algum momento os outros foram embora. O Jorginho foi buscar gelo e não voltou. A churrasqueira apagou sozinha. Ficamos nós dois e uma travessa de farofa.

"Você fica bravo bonito", ela disse, do nada.

Eu perdi a frase que estava montando. Fiquei com a boca meio aberta, igual peixe na banca da feira.

"Isso é tática?", consegui perguntar.

"É observação. Tática seria eu fingir que não percebi que você olhou pra minha camiseta umas onze vezes."

"Eu estava lendo a estrela."

"Ela é pequena, Marcelo. Ninguém precisa de onze leituras."

Ela sabia meu nome. Claro que sabia: eu tinha assinado a reclamação do adesivo.

Fiquei vermelho, coisa que não me acontecia desde a escola de cadetes que larguei aos dezenove. Ela riu pela primeira vez, uma risada curta, rouca, que eu senti no estômago antes de ouvir. Depois levantou, recolheu as latas da mesa, todas, até as minhas, e jogou na lixeira de reciclável. Eu jogaria no lixo comum. Ela viu que eu pensei isso.

"Bloco B, 702", disse, já de costas. "Se você tiver um argumento inteiro, sobe. Se não tiver, sobe também. Mas aí vem pra ouvir."

O elevador

Eu não subi naquela hora. Fui pra casa, tomei banho, abri o grupo da família. Meu cunhado tinha mandado um vídeo de um sujeito gritando num carro de som, com três emojis de bandeira. Minha irmã respondeu "verdade!!!". Eu fiquei olhando para aquilo e, pela primeira vez, ouvi a voz da Renata por cima: inteiro, sem meme.

Às onze e vinte eu estava no elevador do bloco B. Tinha trocado a camiseta da seleção por uma polo azul, e me odiei um pouco por isso, como se fosse uma rendição. O espelho do elevador mostrava um homem de barba aparada, barriga discreta, cara de quem ia tirar satisfação. Por dentro, eu sabia que não era isso.

Ela abriu a porta descalça, de short de algodão e a mesma camiseta. Cheiro de sabonete de erva-doce e de café. Na estante, livros de cálculo estrutural, um vinil do Chico, um capacete de obra amarelo.

"Veio com argumento?", perguntou.

"Vim."

"Mentira."

"Vim sem argumento."

"Melhor. Senta."

Ela me serviu café, não cerveja. Sentou na poltrona de frente pra mim, as pernas cruzadas, o pé balançando devagar a meio metro do meu joelho. Ficamos uma hora conversando, e aí aconteceu uma coisa estranha: eu parei de defender e comecei a contar. Contei da loja, do medo de fechar em 2020, do meu pai que dizia que homem não reclama. Ela ouviu sem me corrigir uma vez. Só no fim falou:

"Você não tem raiva de mim. Você tem medo de ficar sem ter de quem ter raiva."

Eu ia responder. Ela descruzou as pernas. Eu não respondi.

O silêncio que veio depois foi o mais longo da minha vida adulta. O ventilador de teto rodava. Um carro passou lá embaixo com funk alto. Eu ouvia minha própria respiração, ridícula, de quem subiu escada. Ela não se mexia. Ela esperava, do mesmo jeito que esperava no churrasco, e eu entendi que, se alguma coisa fosse acontecer, eu ia ter que pedir. Em voz alta. Inteiro.

"Renata."

"Hum."

"Eu quero te beijar."

"Eu sei. Faz meia hora que eu sei." Ela inclinou a cabeça. "Pede direito."

"Posso te beijar?"

"Pode. Mas aqui quem conduz sou eu. Topa?"

Eu, que discuto com fornecedor até o centavo, que nunca deixei mulher pagar conta, que dirijo com o banco do carona longe pra ninguém palpitar, disse "topo" tão rápido que ela riu de novo.

Chá

Ela veio até mim e sentou no meu colo de frente, os joelhos no sofá dos dois lados das minhas coxas. Segurou meu rosto com as duas mãos, firme, como quem segura nível de bolha, e me beijou devagar, sem pressa nenhuma, até eu parar de tentar acelerar. Toda vez que eu apertava a cintura dela com força demais, ela mordia meu lábio de leve. Uma lição sem palavra.

"Calma, capitão", murmurou na minha boca. "Ninguém vai fugir."

Tirei a camiseta dela quando ela deixou. Os peitos eram cheios, morenos, os bicos escuros já duros, e eu pensei, numa parte da cabeça que ainda fazia piada, que a estrela vermelha tinha estado o tempo todo em cima disso. Ela me puxou pela nuca até minha boca encostar no seio. Eu chupei e ela soltou o ar comprido, a mão no meu cabelo me dizendo mais devagar, ali, agora o outro.

Fomos para o quarto. Ela me empurrou na cama com uma mão aberta no meu peito, sem força nenhuma, e eu caí como se tivesse levado um soco. Tirou meu cinto. Tirou minha calça. Olhou meu pau duro com a mesma cara de quem confere uma obra.

"Olha só. Tem coisa aqui que concorda comigo."

"Ele é independente", eu disse.

"Ninguém é independente, Marcelo. Esse é o ponto."

Ela tirou o short e a calcinha de uma vez, e ficou em pé ao lado da cama, deixando eu olhar. A buceta depilada só nas laterais, um triângulo de pelo escuro bem aparado, as coxas grossas de quem sobe andaime. Eu não sabia o que fazer com as mãos. Ela sabia.

"Vem cá. De joelho no chão."

Fui. Ela sentou na beirada da cama, abriu as pernas e segurou minha cabeça.

"Você fala muito. Agora usa essa boca direito."

E eu usei. No começo, mal: ansioso, rápido, querendo mostrar serviço. Ela me corrigiu como no churrasco, baixinho. "Mais devagar. Língua mole. Aí. Não sai daí." O gosto dela era salgado e quente, o cheiro de erva-doce misturado com outro, mais fundo, que eu nunca mais vou conseguir esquecer na fila do pão. Ela foi ficando molhada na minha boca, os quadris começando a se mexer contra o meu rosto, as coxas apertando minhas orelhas até o mundo virar só a respiração dela. Eu, que tinha opinião sobre tudo, não tinha nenhuma. Só obedecia. E era bom. Era absurdamente bom não ter que ganhar.

Ela gozou segurando meu cabelo com força, um gemido longo, a barriga tremendo. Depois me puxou pra cima pela gola invisível de uma camisa que eu já não vestia.

"Agora sim você tem um argumento."

Abriu a gaveta, pegou a camisinha e colocou em mim ela mesma, devagar, olhando nos meus olhos. Me deitou de costas e subiu. Sentou no meu pau de uma vez só, e nós dois gememos juntos, o primeiro acordo da noite.

Ela cavalgou do jeito que discutia: ritmo dela, pausas dela. Subia até quase sair, me deixava suspenso ali, desesperado, e descia apertando, a buceta quente e firme me engolindo inteiro. Quando eu tentava segurar o quadril dela e ditar o ritmo, ela pegava meus pulsos e prendia no colchão, acima da minha cabeça, os peitos balançando perto da minha boca, sem deixar eu alcançar.

"Quem conduz?", perguntava.

"Você."

"Não ouvi."

"Você, porra. Você."

Ela riu, e o riso apertou ela inteira por dentro, e eu quase gozei ali. Ela sentiu e parou, completamente imóvel, até eu respirar.

"Ainda não. Você vai aprender a esperar."

Eu aprendi. Ela me fez esperar três vezes. Na terceira eu estava suado, implorando, dizendo coisas que nunca disse a mulher nenhuma, que ela era linda, que ela estava certa, que ela podia ter razão sobre o que quisesse desde que não parasse. Ela se inclinou, colou a boca no meu ouvido e começou a se mexer rápido, fundo, o barulho molhado dos corpos, a cabeceira batendo na parede do vizinho.

"Agora goza. Olhando pra mim."

Gozei olhando pra ela. Ela gozou logo depois, se esfregando em mim com a testa colada na minha, e eu juro que senti alguma coisa dentro do peito destrancar junto, uma porta que eu nem sabia que estava com cadeado.

Contagem

Ficamos deitados de lado, o ventilador secando o suor. Ela traçava círculos no meu peito com a unha.

"Isso não muda nada, você sabe", eu disse, porque o orgulho é o último a sair da festa.

"Claro que não", ela disse. "Você continua sendo você. Só que agora você sabe que dá pra perder uma discussão e sair melhor do que entrou."

Fiquei quieto. Ela tinha razão de novo, e dessa vez não me deu raiva.

Voltei para o bloco A às quatro da manhã, de chinelo, a polo do avesso. Nas semanas seguintes subi ao 702 mais vezes do que conto aqui. A gente brigava na sala e fazia as pazes no quarto, às vezes na ordem contrária. Ela me emprestou livros. Eu li dois, e não contei pra ninguém.

Saí do grupo da família no dia em que meu cunhado mandou o quarto vídeo de carro de som. Não briguei. Só saí. Minha irmã me ligou preocupada, achando que eu estava doente.

No dia da eleição, desci cedo. A camiseta da seleção ficou na gaveta, não por vergonha, mas porque eu queria saber como era votar sem uniforme. Na fila da escola municipal, a Renata estava três pessoas na minha frente, de estrela vermelha no peito. Ela me viu, levantou uma sobrancelha e não disse nada. Esperou, como sempre.

Na cabine, fiquei com o dedo parado em cima dos números mais tempo do que a mesária gostaria. Pensei na loja, no meu pai, nas onze leituras da estrela. Ninguém ia saber. Esse era o ponto: era só meu.

Apertei. Confirma.

Na saída ela estava encostada no muro, tomando um mate de copo.

"E aí?", perguntou.

"Voto é secreto", eu disse.

Ela sorriu daquele jeito que destranca porta.

"Então sobe hoje à noite e me conta em segredo."

Subi. Contei. E pela primeira vez na vida, perder uma eleição dentro de mim pareceu a melhor vitória que eu já tive.

Avalie:
Denunciar

0 comentários

Você também pode gostar

Ver perfil