A primeira vez da lésbica com um homem: o que o vibrador não ensina
Eu sei o peso exato do meu vibrador. Duzentos e poucos gramas de silicone cor de vinho, carregado na tomada ao lado da cama, com sete modos de vibração que eu decorei como quem decora o caminho de casa. Tenho 31 anos, sou lésbica desde que me entendo por gente, namorei mulheres lindas e complicadas, e conheço o meu corpo melhor do que conheço a minha conta bancária. Não sou virgem de nada. Só de uma coisa.
Foi isso que eu disse para a Bia, minha melhor amiga, numa mesa de bar na Rua dos Pinheiros, num sábado de calor parado, desses em que São Paulo cheira a asfalto quente e a cerveja derramada.
"Nunca senti um pau de verdade. Só isso. Curiosidade de pesquisadora."
A Bia riu tanto que engasgou com o chope. Mas não riu de mim. Riu porque sabia que eu falava sério, e que fazia meses que essa pergunta morava em mim como uma pedrinha dentro do sapato. Não era dúvida sobre quem eu sou. Era outra coisa. Era a vontade de saber como é o original de uma cópia que eu usava havia quinze anos.
O Caio apareceu meia hora depois. Amigo do trabalho da Bia, 36 anos, arquiteto, barba curta com uns fios brancos que ele não escondia. Sentou na ponta da mesa, pediu uma água com gás antes da cerveja e passou a noite escutando mais do que falando. Isso me chamou atenção. Homens costumam ocupar uma mesa inteira com a voz. Ele não.
Em algum momento a Bia foi ao banheiro e a gente ficou sozinho. Ele girava o copo devagar.
"A Bia falou que você é a pessoa mais direta que ela conhece", ele disse.
"A Bia fala demais."
"Fala. Mas eu gosto de gente direta. Economiza tempo."
Eu olhei para as mãos dele. Mãos grandes, unhas curtas, uma cicatriz pequena no polegar. Eu nunca tinha olhado para as mãos de um homem pensando no que elas fariam. Senti o rosto esquentar e fiquei irritada comigo mesma, porque eu não sou de corar.
"Então vou ser direta", eu disse, antes que a coragem fosse embora. "Eu sou lésbica. Continuo sendo. E tenho uma curiosidade que eu quero resolver com alguém que não vá transformar isso num troféu."
Ele parou o copo. Não sorriu de vitória, não fez piada. Ficou sério, e foi isso que me ganhou.
"Que curiosidade?"
"Saber como é um homem. Um de verdade. Uma vez."
Ele demorou para responder. O barulho do bar ficou longe, só ouvia o gelo derretendo no meu copo.
"Eu topo", ele disse. "Mas quem decide tudo é você. Até a hora de parar."
Cena
O apartamento dele ficava na Vila Madalena, terceiro andar, sem elevador. Subi os degraus ouvindo o meu coração mais alto que os meus passos. Pensei em desistir no segundo andar. Pensei que eu podia dar meia-volta, pedir um carro e contar para a Bia que tinha amarelado. Ninguém ia me cobrar. Era justamente por isso que eu continuei subindo: porque a escolha era minha.
A sala tinha cheiro de madeira e café. Muitos livros, uma planta enorme perto da janela, uma luz amarela baixa. Ele me ofereceu água, e eu aceitei só para ter o que fazer com as mãos.
Sentamos no sofá, cada um numa ponta. Ninguém encostou em ninguém. Foi o momento mais tenso da noite, e nem um dedo tinha se tocado.
"Vamos combinar as coisas", eu disse. "Camisinha para a penetração. Se eu disser para, você para na hora."
"Combinado."
"E tem uma coisa que eu quero." Respirei fundo. A frase saiu mais baixa do que eu queria. "No final, eu quero que você goze na minha cara. E na minha boca. Quero sentir o gosto. Quero ver."
Ele não piscou rápido demais, não fez cara de surpresa. Só me olhou com uma atenção quase respeitosa.
"Se você ainda quiser na hora, sim. Você me avisa."
"Eu aviso."
Fiquei pensando por que eu queria aquilo. Não era para agradar ninguém. Era porque o meu vibrador nunca terminou nada. Ele vibra até a bateria acabar e pronto, sem fim, sem resposta. Eu queria a prova de que do outro lado havia alguém sentindo. Queria ver o efeito que eu causava escrito no meu próprio rosto.
Fui eu quem atravessou o sofá.
Cena
O beijo dele era diferente. A barba arranhava de leve o meu queixo, e a boca era mais firme do que eu estava acostumada. Ele me beijou devagar, esperando que eu desse o ritmo. Quando eu apertei, ele apertou. Quando eu recuei, ele recuou. Era como dançar com alguém que espera a sua deixa.
Pus a mão no peito dele por baixo da camiseta. Pelos, calor, um coração batendo rápido. Isso me surpreendeu: ele também estava nervoso. Saber disso me deu uma coragem quase engraçada.
"Tira", eu pedi.
Ele tirou a camiseta. Depois eu desabotoei a calça dele com as minhas próprias mãos, porque eu queria ser a primeira a ver. Ele ficou de cueca, e eu vi o volume ali, marcando o tecido, e senti uma pontada de pânico e de fome ao mesmo tempo.
Puxei a cueca para baixo.
O pau dele saltou, duro, maior do que eu esperava e menos assustador do que eu temia. Fiquei olhando. Uma veia grossa ao longo do corpo, a cabeça vermelha e brilhante, a pele que se movia. O meu vibrador é liso, perfeito, simétrico. Aquilo não era perfeito. Era vivo.
"Posso?", perguntei, e me senti ridícula perguntando, mas ele fez que sim com a cabeça e a voz saiu rouca:
"É seu para descobrir."
Fechei a mão em volta. A primeira coisa foi o calor. Silicone nunca é quente assim, nem depois de muito uso. Era um calor de dentro, de sangue. A segunda coisa foi o pulsar. Eu sentia ele bater na minha palma, um batimento que acompanhava o coração dele. E quando eu apertei um pouco, ele gemeu, e o pau endureceu ainda mais na minha mão.
Foi isso. Foi esse o segundo em que eu entendi a diferença. O vibrador obedece. O pau responde.
Eu me ajoelhei no tapete entre as pernas dele. Cheguei perto e senti o cheiro: pele, sabonete, um fundo salgado e masculino que eu não sabia nomear. Passei a língua da base até a cabeça, devagar, pesquisando. O gosto era levemente salgado. A pele era macia por fora e dura por dentro, uma combinação que nenhum brinquedo imita.
Comecei a chupar. Primeiro só a cabeça, sentindo a textura com a língua, depois mais fundo, até onde dava. Ele enfiou os dedos no meu cabelo, mas não empurrou. Só segurou, como quem segura uma coisa preciosa. A cada movimento da minha boca, as coxas dele tremiam. Uma gota transparente apareceu na ponta e eu provei, curiosa, e ele soltou um palavrão baixinho que me fez rir com o pau dele ainda na boca.
Eu estava molhada como poucas vezes estive. E o que me excitava não era só ele. Era o poder. Era eu ali, no controle, decidindo cada segundo do prazer de outra pessoa.
Cena
Ele me levou para o quarto. Tirou a minha roupa peça por peça, me perguntando com os olhos antes de cada uma. Quando eu fiquei nua, ele desceu pela minha barriga e me chupou com uma paciência que eu não esperava. Ele aprendia rápido. Eu dizia "mais devagar", "aí", "não, mais em cima", e ele obedecia como se eu estivesse ensinando uma língua nova. Gozei na boca dele, a primeira vez, segurando o lençol com as duas mãos.
Depois ele pegou a camisinha na gaveta. Eu mesma coloquei, desenrolando devagar, sentindo o pau pulsar através do látex fino.
"Eu fico por cima", eu disse.
Montei nele. Encaixei a cabeça na minha entrada e desci bem devagar, centímetro por centímetro, respirando fundo. Eu conhecia a sensação de ser preenchida. Conhecia de cor. Mas aquilo era outra coisa. Ele estava quente lá dentro de mim mesmo com a camisinha, e quando eu apertei os músculos, ele reagiu, arqueou as costas, segurou a minha cintura com força.
"Caralho, Marina."
Era isso. O vibrador nunca disse o meu nome.
Comecei a mexer. Lento no começo, depois mais rápido, achando o ângulo que eu já sabia que funcionava em mim. Ele subia o quadril para me encontrar. O barulho dos nossos corpos, o cheiro de suor misturado ao cheiro da madeira, a cama rangendo, a respiração dele cada vez mais curta. Eu sentia o pau dele latejar dentro de mim e cada latejo era uma informação nova: ele estava perto, ele estava se segurando, ele estava se segurando por mim.
Gozei de novo, com as mãos no peito dele, e o orgasmo veio diferente, mais fundo, como se viesse de um lugar que eu nunca tinha alcançado sozinha. Não sei se era melhor. Era diferente. Fiquei tremendo em cima dele, rindo sem motivo.
"Ainda quer?", ele perguntou, ofegante. "O final que você pediu?"
Eu podia ter dito que não. Ele teria aceitado. Isso eu sabia com certeza.
"Quero."
Cena
Saí de cima dele, tirei a camisinha e joguei no chão. Me ajoelhei na cama e ele ficou de pé à minha frente. Peguei o pau dele de novo, agora sem nada entre a gente, e senti outra vez o calor, mais forte, molhado de mim.
Masturbei ele olhando para cima, para o rosto dele. Queria ver. Queria ver o momento em que um homem perde o controle por causa de mim. Chupei de novo, rápido, com a mão acompanhando a boca, sentindo ele ficar cada vez mais duro, as veias saltando na minha língua.
"Marina, eu vou gozar."
Tirei da boca, abri os lábios, coloquei a língua para fora e fiquei olhando para ele.
"Goza na minha cara."
Ele gemeu alto, um som que veio do peito. O primeiro jato bateu quente na minha bochecha e escorreu até o canto da boca. O segundo pegou a minha testa e o meu nariz. Eu senti o pau pulsar na minha mão a cada jorro, como um coração que bate para fora. Virei a boca para ele e o resto veio direto na língua, leitinho quente, espesso, salgado, com um amargo leve no fundo. Fiquei com aquilo na boca um instante, provando, guardando a informação como quem anota um dado importante. Depois engoli.
O cheiro era forte, de cloro e de sal. Escorria pelo meu queixo, pingava no meu peito. Eu estava com a cara toda melada de porra e me sentia, de um jeito que eu não esperava, completamente dona de mim.
O Caio se ajoelhou na minha frente, tremendo, e começou a rir também.
"Você está bem?"
"Estou ótima."
Ele foi até o banheiro e voltou com uma toalha úmida e morna. Limpou o meu rosto com um cuidado que quase me emocionou, passando pela testa, pelas pálpebras, pelos cantos da boca. Ninguém nunca tinha limpado o meu rosto assim.
Cena
Fiquei deitada na cama dele olhando para o teto, ouvindo um ônibus passar lá embaixo na Rua Harmonia. Ele não me abraçou sem perguntar. Deitou do lado, perto, sem encostar.
"E aí, pesquisadora?", ele disse. "Conclusão?"
Pensei bastante antes de responder. Pensei na Bia, que ia querer cada detalhe. Pensei na minha última namorada, nos cabelos dela espalhados no meu travesseiro, no jeito como eu me sentia com ela, uma coisa que nenhum homem jamais vai ocupar. Pensei no vibrador cor de vinho esperando em casa, fiel e silencioso.
"Conclusão é que eu continuo sendo quem eu sou", eu disse. "E que agora eu sei como é."
"É bom saber?"
"É bom saber."
Não falei que voltaria. Não falei que não voltaria. Ele também não perguntou, e eu fui grata por isso.
Peguei um carro às duas da manhã. No banco de trás, com a janela aberta e o vento morno da Teodoro Sampaio no rosto, passei a língua nos lábios e ainda senti, muito de leve, aquele gosto salgado. Sorri sozinha. O vibrador ensina muita coisa. Mas tem coisas que só se aprende com o calor de alguém que responde.
Em casa, mandei uma mensagem para a Bia: "Pesquisa concluída. Amanhã eu conto tudo."
Ela respondeu com três pontos de exclamação e um emoji de chama.
Dormi como quem volta de uma viagem: igual, e um pouco maior.
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