✒ Escrito por humanoDesejo feminino · 12 minConto #114

A lésbica conta tudo para a melhor amiga e ganha uma namorada (Parte 2)

por Noa Bruma

lésbica

A Bia chegou às quatro da tarde com dois cafés gelados e uma cara de quem não tinha dormido. Bia tem 33 anos, cabelo cacheado preso de qualquer jeito num coque, e uma mania de morder o canudo quando está nervosa. Naquele domingo o canudo já estava achatado antes de ela passar pela porta.

"Pesquisa concluída", ela disse, imitando a minha mensagem. "Eu exijo o relatório completo. Com gráficos."

Eu ri e deixei ela entrar. O meu apartamento em Pinheiros é pequeno, uma sala que vira quarto com uma cortina de linho no meio. A Bia conhece cada canto dele. Já dormiu no meu sofá dezenas de vezes, já chorou ali por duas namoradas e um emprego, já me viu de ressaca, de febre, de coração partido. Ela é a pessoa que mais sabe de mim no mundo.

Por isso estranhei quando ela sentou e não tirou os olhos do chão.

"Você tá bem?", perguntei.

"Tô. Conta logo."

Sentei do lado dela, cada uma com o seu café, os joelhos quase se encostando. E contei.

⁂

Contei do bar, do jeito que o Caio tinha escutado mais do que falado. Contei da escada sem elevador e de como eu quase desisti no segundo andar. A Bia ouvia mordendo o canudo, fazendo que sim com a cabeça, rindo nos lugares certos. Quando eu falei do sofá, cada um numa ponta, sem ninguém encostar em ninguém, ela parou de rir.

"E aí?"

"E aí eu atravessei o sofá."

Ela soltou o ar devagar. Achei que fosse uma risada, mas não era.

"Como é?", ela perguntou, baixinho. "O pau. De verdade. Como é?"

Pensei antes de responder. A Bia é lésbica como eu, mas, diferente de mim, já tinha ficado com dois homens na faculdade, antes de se entender. Ela sabia como era. Não estava perguntando por informação. Estava perguntando por outra coisa, e eu ainda não sabia o quê.

"Quente", eu disse. "É a primeira coisa. O meu vibrador nunca é quente assim, nem depois de uma hora. E pulsa. Quando eu fechei a mão, eu sentia ele bater na minha palma, igual a um coração. E quando eu apertei, ele gemeu e ficou mais duro na minha mão. Ele respondia, Bia. Eu fazia uma coisa e ele respondia."

"O vibrador obedece", ela disse, repetindo a frase que eu tinha mandado de madrugada, numa segunda mensagem que eu nem lembrava de ter mandado.

"E o pau responde."

Ela ficou quieta. Pôs o café na mesinha. A mão dela tremia de leve.

"Você chupou?"

"Chupei."

"Conta."

Contei. Contei do cheiro, de pele e sabonete e um fundo salgado. Contei da língua subindo da base até a cabeça, da veia grossa, da gota transparente que eu provei por curiosidade e do palavrão que ele soltou. Fui contando e fui reparando na Bia. Ela tinha cruzado as pernas. Depois descruzou. O pescoço estava vermelho, e não era do calor.

"Bia."

"Continua."

"Você tá com ciúme?"

Ela me olhou pela primeira vez desde que tinha chegado. Os olhos estavam molhados e brilhantes ao mesmo tempo.

"Tô", ela disse. "Tô com um ciúme que eu nem sei de onde vem. E tô com tesão. E tô com raiva de estar com tesão. Satisfeita?"

⁂

O silêncio que veio depois foi o mais longo da minha vida. Mais longo que o do sofá do Caio. Lá fora alguém arrastava uma cadeira no apartamento de cima, uma moto passou na Teodoro Sampaio, e eu ouvia a respiração da Bia, curta, como a de quem subiu uma escada.

"Desde quando?", perguntei.

"Desde aquele réveillon em Ubatuba. Faz cinco anos. Você dormiu no meu ombro na areia e eu fiquei a noite inteira sem me mexer pra não te acordar." Ela riu, sem graça. "Você namorava a Lívia. Depois eu namorei a Carol. Depois nunca era a hora. E ontem você me manda uma mensagem dizendo que deu pra um cara, e eu passei a noite acordada pensando que qualquer pessoa podia te tocar, menos eu."

Eu não sabia o que dizer. Sabia o que sentia, e isso me assustou mais. Porque na cama do Caio, olhando para o teto, eu tinha pensado em cabelos espalhados no meu travesseiro, e eu tinha dito para mim mesma que era a minha última namorada. Não era. Eram cachos. Eram os cachos dela.

"Eu continuo sendo quem eu sou", eu disse. "Ontem eu só confirmei."

"Eu sei. Eu sempre soube. Não é esse o ciúme." Ela engoliu seco. "O ciúme é que ele viu a sua cara quando você goza. E eu nunca vi."

Pus a mão no joelho dela. Só isso. Ela fechou os olhos como se eu tivesse encostado num fio desencapado.

"Se você quiser, a gente para aqui", eu disse. "E fica tudo como sempre foi. Eu juro."

Ela abriu os olhos.

"Não quero que fique como sempre foi. Mas quero que você continue contando."

"Contando?"

"Enquanto eu te toco. Eu quero ouvir tudo. E quero ser eu agora."

Foi uma decisão das duas, olhando uma para a outra, sem pressa. Eu disse que sim. Ela disse que sim. E quem atravessou o sofá, dessa vez, foi ela.

⁂

O beijo da Bia não tinha barba nem esperava a minha deixa. Ela sabia beijar mulher, sabia me beijar como se tivesse ensaiado por cinco anos, e talvez tivesse. A boca dela era macia e tinha gosto de café com baunilha. Ela segurou o meu rosto com as duas mãos, exatamente onde o Caio tinha gozado, e passou o polegar na minha bochecha.

"Aqui?", ela perguntou contra a minha boca.

"Aqui. O primeiro jato bateu aqui. Quente. Escorreu até o canto da boca."

Ela beijou o lugar. Depois beijou a minha testa, o meu nariz, os cantos dos meus lábios, refazendo o caminho da porra dele com a boca dela, como quem apaga um mapa e desenha outro por cima. Eu senti a buceta latejar de um jeito que nenhuma lembrança da noite anterior tinha provocado.

"E depois?", ela sussurrou, descendo pelo meu pescoço.

"Depois ele gozou na minha boca. Eu pus a língua pra fora e o leitinho veio direto. Grosso. Salgado. Um amargo no fundo."

"Você engoliu?"

"Engoli."

Ela gemeu. Puxou a minha blusa pela cabeça e me deitou no sofá. A cortina de linho balançava com o vento do ventilador, e a luz da tarde entrava amarela, cortada em faixas sobre a pele dela quando ela tirou a própria camiseta. Eu conhecia o corpo da Bia de praia, de provador, de banho depois de festa. Nunca tinha conhecido assim, com os mamilos duros apontando para mim e a respiração descompassada.

"Continua", ela pediu, e abriu o botão do meu short.

"Ele me chupou antes", eu disse, e a minha voz já saía falhada. "Aprendeu rápido. Eu dizia mais devagar, mais em cima, e ele obedecia."

"Ele não sabia onde era", ela disse, tirando o meu short e a minha calcinha de uma vez. "Precisou de mapa."

"Precisou."

"Eu não preciso."

E não precisava. A Bia desceu entre as minhas pernas e me chupou como se conhecesse a minha buceta desde sempre. Sem pergunta, sem instrução. A língua achou o clitóris na primeira passada e ficou ali, em círculos lentos, firmes, depois rápidos, depois parando no exato segundo em que eu ia gozar, só para recomeçar. Eu agarrei os cachos dela. Ela riu contra mim, e a vibração da risada foi melhor do que qualquer um dos sete modos do meu vibrador.

"Conta como foi quando ele meteu", ela disse, levantando o rosto molhado de mim.

Eu mal conseguia falar.

"Eu fiquei por cima. Desci devagar. Ele era quente lá dentro, mesmo com a camisinha. Quando eu apertei, ele arqueou as costas e falou o meu nome."

A Bia enfiou dois dedos em mim, devagar, curvados para cima, achando o ponto de primeira.

"Assim?"

"Não", eu disse, honesta. "Melhor."

Ela mexeu os dedos e voltou a boca para o meu clitóris, e eu parei de contar. Não dava mais. O orgasmo veio subindo pelas coxas e estourou no meio da minha barriga, comprido, quente, e eu gritei o nome dela alto o bastante para o vizinho de cima parar de arrastar a cadeira. Ela não tirou a boca. Ficou ali, me bebendo, até eu tremer inteira e empurrar a cabeça dela, rindo e chorando ao mesmo tempo.

⁂

"Agora eu", eu disse, quando consegui respirar.

"Agora você."

Troquei de lugar com ela. Tirei a calcinha dela devagar, e ela estava encharcada, a buceta inchada e brilhante, o cheiro dela enchendo a sala, doce e forte, um cheiro que eu reconheci como quem reconhece uma música antiga. Ontem eu tinha sentido o cheiro de um homem e tinha anotado como dado novo. Aquilo não era dado novo. Era casa.

Abri as pernas dela com as mãos e lambi devagar, de baixo para cima, sentindo o gosto. Ela agarrou a almofada.

"Fala", ela pediu. "Fala da diferença."

Levantei o rosto.

"O pau dele era bom, Bia. Era vivo. Eu gostei de sentir ele pulsar e gozar na minha cara. Eu gostei de saber como é." Passei a língua de novo, lenta, e ela arqueou o quadril. "Mas ele respondia ao meu corpo. Você responde a mim."

Ela soltou um gemido que parecia um soluço. Eu voltei a chupar, e dessa vez sem pressa nenhuma, querendo durar. Pus os dedos nela enquanto a língua trabalhava, e senti ela apertar em volta deles, quente, viva, pulsando. Ali estava o pulsar que eu tinha ido procurar num homem. Estava ali o tempo inteiro, a dois quarteirões de casa, levando café gelado aos domingos.

A Bia gozou segurando o meu cabelo com as duas mãos, exatamente como o Caio tinha feito, só que ela puxou. Puxou com força, e eu gostei. Ela gozou na minha boca, e eu bebi o gozo dela com o mesmo cuidado com que tinha provado o dele na noite anterior, guardando a informação. A informação era que eu queria repetir aquilo pelo resto da vida.

⁂

Ficamos deitadas no sofá, apertadas, uma perna dela por cima das minhas. O ventilador girava. O café gelado tinha virado água marrom na mesinha.

"Eu tô com ciúme ainda", ela disse, depois de um tempo.

"Eu sei."

"Mas é um ciúme diferente. Antes era de tudo. Agora é só de ele ter visto primeiro."

"Ele viu a minha cara com porra", eu disse. "Você viu a minha cara apaixonada. É outra coisa."

Ela levantou a cabeça do meu ombro e me olhou séria.

"Apaixonada?"

Eu não tinha planejado dizer. Saiu, como a frase no bar, antes que a coragem fosse embora.

"Desde Ubatuba, provavelmente. Eu só demorei mais pra perceber. Precisei ir até a Vila Madalena pra descobrir que eu queria voltar pra Pinheiros."

A Bia riu, aquele riso que engasga, e me beijou de novo.

"Então combina comigo uma coisa", ela disse. "Sem segredo. Se um dia você tiver outra curiosidade, você me conta antes. E, se eu quiser, eu estou junto."

"Combinado."

"E você é minha namorada."

"Isso é pergunta?"

"Não. É uma conclusão de pesquisa."

Eu ri tanto que a cortina de linho balançou. Ela pegou o meu celular na mesinha e me mostrou a tela: a minha mensagem da madrugada, "Pesquisa concluída. Amanhã eu conto tudo", e embaixo os três pontos de exclamação e o emoji de chama.

"Mentira", ela disse. "A pesquisa só concluiu agora."

Ela tinha razão. Eu continuava sendo quem eu sempre fui, uma lésbica que agora sabia como é um pau de verdade, a gozada na cara, o gosto do leitinho na boca. Tinha sido bom saber. Mas o que eu aprendi naquele domingo, com a minha melhor amiga virando namorada no sofá de casa, não estava em nenhuma das duas noites sozinha. Estava na diferença entre elas.

O vibrador cor de vinho continuou na gaveta, carregado, fiel e silencioso. Naquela noite ele não foi necessário.

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