✒ Escrito por humanoSwing e ménage · 12 minConto #115

Namoradas lésbicas e um ménage combinado: a noite a três com o Caio (Parte 3)

por Noa Bruma

héterolésbica

A ideia não foi minha. Eu juro que não foi.

Fazia três semanas que a Bia e eu éramos namoradas. Três semanas de acordar com o cabelo cacheado dela na minha boca, de café passado a quatro mãos, de descobrir que a pessoa que mais sabia de mim no mundo ainda tinha coisas para me mostrar. A gente estava naquela fase em que tudo é primeira vez de novo, até escovar os dentes lado a lado.

Foi numa quinta, no sofá de Pinheiros, que ela desligou a série no meio do episódio e ficou olhando para a tela preta.

"Lembra do combinado?", ela perguntou.

"Sem segredo."

"Sem segredo. E se uma quiser, a outra está junto." Ela mordeu o lábio, porque não tinha canudo por perto. "Eu quero, Ma."

Eu demorei um segundo para entender. Depois entendi tudo de uma vez, e o meu estômago fez uma coisa que eu não sabia nomear. Não era ciúme ainda. Era o lugar onde o ciúme ia nascer.

"O Caio", eu disse.

"O Caio. Com você. Com a gente."

Ela falou rápido, como quem tira um band-aid. Que vinha pensando desde aquele domingo em que eu contei tudo. Que não queria ele. Queria a cena. Queria ver a minha cara de novo, aquela que ela só conhecia pelo relato, e queria que eu visse a dela. Que tinha ficado com dois homens na faculdade e que tinha sido ruim, apressado, sem ninguém olhar para ela de verdade. Que queria saber como era com alguém que escuta. E comigo segurando a mão dela.

"Você é lésbica, Bia."

"Sou. E você também é. E você foi lá e descobriu uma coisa sem deixar de ser. Eu quero descobrir do seu lado. Não quero um homem. Quero uma noite."

Eu fiquei calada tanto tempo que ela começou a se arrepender. Vi isso no jeito como os ombros dela subiram.

"Esquece", ela disse. "Foi idiota."

"Não foi." Peguei a mão dela. "Eu tô com ciúme. E tô com tesão. As duas coisas juntas. Me dá um tempo para saber qual ganha."

⁂

O ciúme não ganhou. Mas também não foi embora. Ele ficou sentado num canto da semana inteira, quieto, olhando.

A gente conversou muito. Mais do que eu já conversei sobre qualquer coisa de sexo na minha vida. Fizemos uma lista, de verdade, num guardanapo do bar da esquina. A Bia escreveu com a letra redonda dela:

Camisinha sempre. Qualquer uma pode parar a qualquer hora, sem explicação. Beijo na boca dele, sim. Mas a gente se beija primeiro e por último. Ninguém dorme lá. No dia seguinte, café só nós duas.

Embaixo, eu acrescentei: "Se eu olhar para você e você não estiver bem, acabou."

Ela sublinhou a minha frase duas vezes.

Quem mandou a mensagem para o Caio foi a Bia, porque eles trabalham juntos e porque eu não tive coragem. Ele demorou uma hora para responder. Depois contou que tinha lido, largado o celular na mesa do escritório e ido dar uma volta no quarteirão. A resposta foi curta.

"Eu aceito. Com uma condição: vocês duas mandam. Eu só obedeço o que vocês combinarem."

A Bia leu em voz alta e riu de nervoso. Eu não ri. Pensei que era exatamente por isso que tinha sido ele, daquela primeira vez. Ele sabia ocupar pouco espaço.

⁂

Sábado, Vila Madalena. A mesma escada sem elevador. No segundo andar, onde da outra vez eu quase desisti, quem parou foi a Bia.

"Ma."

"Oi."

"Me beija aqui. Antes."

Beijei. Contra a parede descascada, com a luz automática do corredor apagando no meio, a boca dela com gosto de vinho barato que a gente tinha tomado para criar coragem. Quando a luz voltou, ela estava sorrindo.

"Pronto. Agora sim."

O Caio abriu a porta de camiseta cinza e pé descalço. O apartamento cheirava a madeira e a uma vela de alecrim que ele, provavelmente, tinha comprado só para hoje. Ele cumprimentou a Bia com um beijo no rosto, como no trabalho, e depois me olhou de um jeito que eu lembrava. Atento. Sem pressa.

Sentamos no mesmo sofá. Ele numa ponta, nós duas na outra, grudadas. Ninguém sabia como começar. A Bia tirou o guardanapo da bolsa e entregou para ele.

Ele leu as regras com a seriedade de quem lê um contrato. Leu duas vezes. Depois dobrou o papel e guardou no bolso da camiseta.

"Entendido. Vocês se beijam primeiro."

Foi o que a gente fez. E foi estranho, no começo, beijar a minha namorada sabendo que tinha alguém olhando. Depois deixou de ser estranho e virou outra coisa. Eu sentia os olhos dele na gente como se fossem mãos, e senti a Bia sentir também, porque ela gemeu baixinho dentro da minha boca e apertou a minha coxa. Eu abri os olhos. Ele não tinha se mexido. Só respirava diferente.

"Vem", a Bia disse para ele. Mas olhou para mim enquanto dizia. Pedindo.

Eu fiz que sim.

⁂

Ele ajoelhou na frente do sofá. Eu tirei a blusa da Bia, ele tirou a calça dela, devagar, conferindo o rosto dela a cada centímetro. Quando a calcinha desceu, eu vi a buceta da minha namorada molhada como eu nunca tinha visto, brilhando à luz da vela, e o ciúme deu um pulo no canto da sala. Não era dele. Era de mim mesma, de não ter sido eu a deixá-la assim. Durou um segundo. Depois a Bia segurou a minha nuca e me puxou para um beijo, e o ciúme sentou de novo.

O Caio chupou a Bia do jeito que tinha me chupado. Lento, largo, ouvindo. Eu beijava os seios dela e sentia, pelos mamilos duros na minha língua, cada coisa que ele fazia lá embaixo. Ela tremia. Apertava a minha mão. Em algum momento ela abriu os olhos, me encontrou e disse uma coisa que eu vou levar para a vida:

"É você que eu tô sentindo, Ma. Ele só tá emprestando a boca."

Eu ri e quase chorei ao mesmo tempo.

Ela gozou assim, com a minha língua no peito dela e a boca dele na buceta, as coxas fechando na cabeça dele, o meu nome saindo da boca dela. O meu nome. Não o dele.

⁂

Depois foi a minha vez de tirar a camiseta dele. Eu já conhecia aquele corpo, os pelos do peito, a cicatriz pequena no polegar. A Bia não conhecia, e eu vi ela olhar com uma curiosidade que me deu orgulho, como se eu estivesse apresentando uma cidade onde já morei.

Abri a calça dele. O pau saltou, duro, quente, do jeito que eu tinha contado para ela no domingo. A Bia ficou olhando.

"Quente", ela disse, quando eu pus a mão dela em volta. "Você tinha razão."

"E pulsa. Sente."

Ela sentiu. Fechou os dedos, e ele gemeu e endureceu mais na mão dela, e ela me olhou com os olhos arregalados de criança no parque, e eu pensei: ela está tendo a primeira vez dela de novo, do jeito certo, e eu estou aqui. Aquilo valia mais do que qualquer ciúme.

Chupamos juntas. Eu nunca tinha imaginado isso: o rosto da minha namorada a cinco centímetros do meu, as duas línguas no mesmo pau, a gente se beijando no meio, com o gosto dele entre nós. Era sujo e era carinhoso e não fazia sentido nenhum ser as duas coisas, mas era. O Caio segurava o encosto do sofá com força para não segurar a nossa cabeça. Eu vi os nós dos dedos dele brancos e gostei dele ainda mais por isso.

"Eu quero", a Bia disse. "Agora. Mas você segura a minha mão."

Ela deitou no tapete. Eu deitei do lado, a cabeça dela no meu braço. O Caio pôs a camisinha olhando para mim, como quem pede licença, e eu fiz que sim de novo. Ele entrou devagar. Vi o rosto dela mudar. Vi a boca abrir sem som, os olhos fecharem e abrirem, a testa franzir e soltar. Senti a mão dela esmagar a minha.

"Tá bem?", perguntei.

"Tá. Tá muito. Não solta."

Não soltei. Ele metia lento, fundo, e a cada vez ela apertava a minha mão, e eu entendi que estava sentindo pelo aperto o ritmo do pau dentro dela. Era como ouvir uma música através da parede. Eu beijei a boca dela, beijei o pescoço, falei coisas no ouvido dela que não vou repetir aqui. Ela começou a mexer o quadril, a pedir mais forte, e ele deu mais forte, e eu desci a mão até o clitóris dela e esfreguei do jeito que só eu sei.

Ela gozou de novo, agarrada em mim, o corpo inteiro arqueando no tapete. Gritou. A vizinha de baixo deve ter ouvido. Eu não me importei.

⁂

Quando ela abriu os olhos, estava chorando um pouquinho e rindo.

"Agora você", ela disse. "Eu quero ver a cara que você me contou."

Foi aí que eu descobri que o ciúme também podia ser meu combustível. Porque eu queria que ela visse. Queria mostrar que aquela cara também era dela, que eu podia sentir um pau enorme dentro de mim e continuar olhando só para ela.

Fiquei de quatro em cima da Bia, o meu rosto em cima do dela, os nossos seios se encostando. O Caio trocou a camisinha e entrou em mim por trás. A Bia segurou o meu rosto com as duas mãos e não deixou eu desviar.

"Olha pra mim, Ma."

Olhei. Cada estocada me empurrava para a boca dela, e a gente se beijava no ritmo dele, e a buceta dela roçava na minha coxa, molhada de novo. Eu sentia ele me abrindo, me enchendo, e sentia os olhos dela me lendo por dentro, e não sabia mais onde terminava um prazer e começava o outro. A Bia enfiou a mão entre nós duas e achou o meu clitóris. Eu gozei com ela me olhando, com o nome dela na boca, tremendo tanto que meus braços cederam e eu caí em cima dela.

"Essa cara", ela disse, rindo no meu cabelo. "Era essa. Agora eu vi."

⁂

O Caio estava ajoelhado, ofegante, ainda duro. Ele olhou para nós duas como quem espera instrução. Era bonito, aquilo. Um homem esperando.

A Bia e eu nos olhamos. Não precisou falar. A gente tinha conversado sobre isso no bar, rindo, meio envergonhadas. Ajoelhamos juntas na frente dele, de mãos dadas, os ombros encostados.

"Na cara das duas", a Bia disse. "E na boca."

Ele tirou a camisinha e se masturbou olhando para nós. Eu abri a boca. A Bia abriu também. Ele gemeu alto e a porra veio quente, primeiro no rosto da Bia, na bochecha, no lábio, depois no meu, escorrendo pelo queixo, um jato direto na minha língua, outro na dela. O gosto salgado que eu já conhecia. A Bia fechou os olhos e deixou escorrer, e quando abriu, me puxou e me beijou, a boca cheia, o leitinho passando de uma língua para a outra, os nossos rostos melados grudando.

Foi o beijo mais obsceno e mais terno da minha vida.

O Caio sentou no chão, encostado no sofá, e riu baixinho, sem fôlego.

"Vocês duas", ele disse, e não completou a frase. Não precisava.

⁂

Ninguém dormiu lá. Estava no guardanapo.

Tomamos banho juntas, só nós duas, no box apertado dele, lavando o rosto uma da outra com uma delicadeza ridícula. Quando saímos, o Caio tinha deixado duas toalhas limpas e um copo d'água para cada uma na mesa. Ele abraçou a Bia, depois me abraçou, e disse no meu ouvido:

"Ela te ama muito. Dá para ver de fora."

Descemos a escada de mãos dadas. No segundo andar, a Bia parou de novo.

"Me beija aqui. Depois."

Beijei. A primeira e a última, como estava escrito.

No Uber, ela deitou a cabeça no meu ombro e ficou olhando a Vila Madalena passar pela janela.

"Ainda sou lésbica?", ela perguntou, meio séria, meio brincando.

"Você gozou gritando o meu nome com um pau dentro."

"Isso é um sim?"

"É uma conclusão de pesquisa."

Ela riu aquele riso que engasga. Eu pensei no ciúme, que tinha passado a noite inteira sentado no canto da sala, olhando, sem nunca se levantar. Ele continua lá, eu acho. Mas agora ele sabe o lugar dele. A gente escolheu aquela noite, as duas, juntas, e voltou para casa do mesmo jeito que saiu: namoradas, lésbicas, uma da outra.

No domingo, o café foi só nós duas. Também estava no guardanapo. A Bia guardou ele na gaveta, do lado do vibrador cor de vinho.

"Para a próxima pesquisa", ela disse.

Eu não perguntei qual. Tem coisas que é melhor descobrir juntas.

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