A tarde da Rua do Senado
O elevador do prédio era daqueles de grade sanfonada, e quando ele fechou atrás de mim com um estalo de ferro velho, pensei que ainda dava tempo de descer. Bastava apertar o térreo. A cabine subia devagar, rangendo, e pelas grades eu via os andares passarem: um corredor com cheiro de cera, uma porta com adesivo de time, um vaso de espada de são jorge morrendo de sede. Quarto andar. Eu tinha trinta e cinco anos, um apartamento em Botafogo que ficava silencioso demais desde que a Carol levou as coisas dela, e uma mensagem no celular que dizia só "pode subir, a porta tá encostada".
Fazia oito meses que ninguém me esperava em lugar nenhum. Era isso, mais do que o sexo, que me fazia estar ali. Eu sabia, e tinha vergonha de saber.
A porta estava encostada mesmo. Empurrei com dois dedos.
"Fecha pra mim, que a tranca é chata", disse uma voz lá de dentro, da cozinha.
O apartamento tinha pé direito alto, taco de madeira gasto e duas janelas enormes abertas para a rua. O barulho do Centro entrava inteiro: um ônibus freando, o apito de um guarda, alguém vendendo água gelada, o sino distante de alguma igreja que eu nunca saberia o nome. Havia uma estante cheia de livros sem ordem, um ventilador de teto girando preguiçoso e, na parede, um pôster antigo do Theatro Municipal com uma bailarina desbotada.
Natasha apareceu com dois copos de água. Vinte e nove anos, ela tinha escrito. Era mais alta do que eu imaginava, pele morena clara, sardas no colo que as fotos não mostravam, cabelo escuro preso num coque frouxo com um lápis atravessado. Usava um vestido de algodão verde, simples, e estava descalça. Tinha uma pinta pequena acima da sobrancelha esquerda que me pareceu, por algum motivo, a coisa mais honesta da sala.
"Você é o Rafael", ela disse, me entregando o copo. Não era pergunta.
"Sou. Desculpa o atraso. O metrô."
"O metrô sempre." Ela sorriu de lado. "Senta. Ninguém aqui tem pressa."
Sentei no sofá, que afundou mais do que devia. Ela sentou na poltrona da frente, cruzou as pernas e me olhou com uma atenção tranquila, como quem lê a primeira página de um livro antes de decidir se compra.
"Primeira vez?", perguntou.
"Com alguém como você? É."
"Alguém como eu." Ela repetiu devagar, achando graça. "Eu dei aula de inglês sete anos, sabia? Num curso ali na Uruguaiana. Ganhava mil e oitocentos e corrigia redação de executivo que escrevia 'I am agree'. Isso aqui é melhor. Eu escolho quem entra."
"E você me escolheu."
"Você escreveu direito. Sem foto de nada, sem pedir desconto, sem me chamar de amor na segunda mensagem." Ela tomou um gole de água. "E perguntou se eu tinha algum limite. Quase ninguém pergunta."
Eu não sabia o que fazer com as mãos. Segurei o copo com as duas.
"Então vamos combinar as coisas antes", ela disse, e a voz dela ficou mais prática, sem perder o calor. "Camisinha sempre. Se eu disser para, para. Se você não gostar de alguma coisa, fala também, que eu não leio pensamento. O resto a gente descobre."
"Combinado."
"E você? Tem alguma coisa que você quer e tá com vergonha de pedir?"
Ri, nervoso, e olhei para a janela. Lá embaixo, um homem empurrava um carrinho de pipoca. Tinha uma coisa, sim. A Carol nunca quis, e eu nunca insisti, e depois de um tempo aquilo virou uma porta fechada dentro de mim que eu fingia não ver.
"Tem", eu disse. "Mas não sei se..."
"Fala quando quiser. Ou não fala." Ela se levantou e veio até mim, e parou em pé entre os meus joelhos. Tirou o copo da minha mão e pôs no chão. "Agora você vai parar de pensar um pouco."
O cheiro dela chegou antes do toque: sabonete de erva doce e alguma coisa mais quente por baixo, pele de tarde de outubro. Ela pegou minha mão e colocou na coxa dela, por baixo do vestido. A pele era morna e lisa. Fiquei ali, parado, sentindo o pulso dela sob meus dedos, ou talvez fosse o meu.
"Respira", ela disse, rindo baixo. "Você tá prendendo o ar."
Soltei. E com o ar saiu alguma coisa que eu carregava fazia meses.
Ela me levou pela mão até o quarto. Era pequeno, com uma cama de casal de lençol branco, uma cortina de linho que filtrava a luz das três da tarde numa cor de mel, e um abajur de cúpula vermelha apagado. Pela fresta da janela ainda entrava a cidade: buzinas, um rádio tocando samba antigo em algum apartamento vizinho.
Ela tirou o vestido por cima da cabeça num movimento só. Não usava nada por baixo. Ficou ali, de pé, me deixando olhar, sem pose. Os seios pequenos, a barriga com uma cicatriz fina de apendicite, as sardas descendo pelos ombros. Puxou o lápis do coque e o cabelo caiu até o meio das costas.
"Sua vez", disse.
Tirei a camisa, a calça, me atrapalhei com o tênis, e ela riu de novo, e o riso dela desfez o resto da minha vergonha. Deitei. Ela deitou ao meu lado, de frente, e me beijou devagar, com a boca entreaberta, gosto de água e de hortelã.
Eu quis começar por ela. Desci pelo pescoço, pelo colo salgado, pelos seios, e ouvi a respiração dela mudar quando prendi um mamilo entre os lábios. Desci mais. Ela abriu as pernas sem pressa e enfiou os dedos no meu cabelo.
O primeiro contato da minha língua com ela foi quase tímido. Ela era quente e já estava molhada, com um gosto de sal e de mar que me fez fechar os olhos. Fui aprendendo pelo que ela fazia: um suspiro quando eu subia, a coxa que se fechava contra a minha orelha quando eu encontrava o ponto certo, os dedos apertando meu couro cabeludo. Lambi devagar, depois em círculos, depois sugando de leve, e ela começou a mexer o quadril contra a minha boca.
"Assim", ela disse, a voz mais grave. "Não muda. Assim."
Não mudei. O samba lá fora acabou e começou outro. O ventilador da sala girava, eu ouvia o motor. Ela gozou com um gemido comprido, o corpo arqueando, as coxas tremendo nos meus ombros, e eu continuei bem de leve até ela me empurrar a testa com a mão, rindo sem fôlego.
"Chega, chega, tá sensível."
Subi e ela me beijou com o próprio gosto na minha boca, sem nojo nenhum, faminta. Depois me empurrou de costas na cama.
"Agora fica quieto."
Ela desceu pelo meu peito com a boca, mordendo de leve, e quando chegou ao meu pau, já duro fazia tempo, ela olhou para mim antes de qualquer coisa. Aquele olhar me desmontou mais do que o toque. Passou a língua devagar da base até a ponta, uma vez, como quem prova. Depois me engoliu inteiro, quente e úmida, e eu agarrei o lençol.
Ela chupava com uma calma que parecia crueldade. Ia fundo, voltava, circulava a cabeça com a língua, usava a mão no mesmo ritmo. Às vezes parava e só me olhava, segurando, sentindo eu latejar na mão dela. Eu ouvia o som molhado da boca dela e o meu próprio gemido, que eu não reconhecia. Fazia tanto tempo que ninguém me tocava com vontade que tive medo de gozar ali mesmo, como um garoto.
"Natasha", avisei.
Ela entendeu e parou, sorrindo, os lábios brilhando.
"Ainda não", disse. "Você ainda nem me falou o que queria."
Pegou uma camisinha na gaveta do criado mudo, rasgou com os dentes e colocou em mim com uma habilidade que me fez rir. Então montou em mim. Desceu devagar, olhando nos meus olhos, e eu senti ela me envolvendo centímetro por centímetro, apertada e quente, até sentar inteira.
Ficou parada um instante. Depois começou a rebolar.
A luz da cortina pintava a pele dela de dourado. Ela apoiou as mãos no meu peito e subia e descia num ritmo que ela mesma inventava, às vezes lento e fundo, às vezes rápido, os seios balançando, o cabelo caindo no meu rosto com cheiro de erva doce. Eu segurava os quadris dela e sentia os músculos trabalhando. A cama batia de leve na parede. Pensei, por um segundo, nos vizinhos, no rádio do samba, e depois não pensei em mais nada.
Foi ali, com ela em cima de mim, suada, linda, olhando para baixo com aquele meio sorriso, que a porta fechada dentro de mim abriu sozinha.
"Eu queria...", comecei, e a voz falhou.
Ela diminuiu o ritmo até parar, ainda encaixada em mim.
"Fala."
"Eu queria comer você por trás. O seu cu." Saiu mais cru do que eu planejava, e senti o rosto esquentar. "Se você quiser. Se não, tudo bem, de verdade."
Ela me olhou por um tempo que pareceu longo. Não havia susto nenhum no rosto dela, só uma espécie de cálculo, e depois um brilho.
"Eu gosto", disse. "Gosto muito, quando é com calma. Então vai ser do meu jeito: eu digo quando, eu digo o ritmo. Se eu disser para, você para na hora. Combinado?"
"Combinado."
"Fala de novo, olhando pra mim."
"Combinado, Natasha. Você manda."
Ela sorriu, satisfeita, e desceu de cima de mim. Abriu a gaveta outra vez e tirou um tubo de KY. Trocou minha camisinha por uma nova, sem pressa, e então se ajoelhou na beirada da cama, de quatro, os joelhos no colchão bem na borda, virada para a janela. Olhou para mim por cima do ombro.
"Vem cá. Fica de pé atrás de mim."
Fiquei. O taco era frio sob meus pés. Ela espremeu o gel nos dedos e, com a outra mão apoiada na cama, passou o lubrificante devagar entre as nádegas, se preparando, um dedo, depois mais fundo, sem tirar os olhos de mim. Era a coisa mais íntima que eu já tinha visto alguém fazer. Ela me entregou o tubo.
"Em você também. Bastante."
Obedeci. O gel estava frio, e o contraste com o meu calor me arrepiou.
Coloquei as mãos na bunda dela, redonda, quente, com uma marquinha de biquíni mais clara. Abri devagar. Encostei a cabeça do pau na entrada dela e senti como ela era apertada, um anel firme e escorregadio contra mim.
"Devagar", ela disse. "Empurra só um pouco e espera."
Empurrei. Senti a resistência, e depois ela respirar fundo e relaxar, e a cabeça entrou, envolvida por um aperto que me fez prender o ar. Ela soltou um gemido baixo, longo, mais de concentração que de dor.
"Espera. Não mexe."
Não mexi. Fiquei ali, com as mãos na cintura dela, sentindo ela pulsar em volta de mim. Lá fora, alguém gritou o nome de um tal de Jorginho, e uma moto acelerou. O suor escorria pelas minhas costas. Eu olhava a curva da coluna dela, as sardas nos ombros, o cabelo espalhado no lençol, e pensava que nunca tinha confiado tanto em alguém nem sido tanto confiado.
"Agora mais", ela disse.
Fui entrando aos poucos, milímetro por milímetro, e ela empurrava o quadril para trás ao meu encontro, no ritmo dela, até eu estar todo dentro. Ela gemeu alto, sem vergonha nenhuma. A sensação era indescritível de tão apertada, quente, um abraço que me prendia inteiro.
"Isso", ela sussurrou. "Fica assim um pouco. Deixa eu me acostumar com você."
Ficamos. Ela começou a mexer sozinha, um vai e vem curto, testando. Depois mais longo. Eu acompanhava, devagar, tirando quase tudo e voltando, e cada vez que eu voltava ela soltava um som diferente, um suspiro, um "hum", meu nome.
Então ela virou o rosto, o olho brilhando por baixo do cabelo, e disse:
"Agora pode. Segura minha cintura e mete forte."
Segurei. Os dedos afundaram na carne macia acima dos quadris dela, e eu meti.
Forte. Fundo. O som do meu corpo batendo contra o dela encheu o quarto, um estalo seco e ritmado. Ela gemia a cada estocada, alto, cada vez mais alto, a mão agarrando o lençol, a testa encostada no colchão. Eu puxava a cintura dela contra mim e ia até o fim, sentindo ela me apertar.
"Assim", ela gemia. "Mais fundo. Não para."
Não parei. O cheiro de sexo, de gel e de suor tomava o quarto inteiro. Minha respiração saía rasgada. Eu via meu pau entrando e saindo dela, brilhando, e aquela imagem me queimava por dentro. Ela levou a mão entre as próprias pernas e começou a se tocar, rápido, e o corpo dela inteiro passou a tremer.
Pensei na Carol, de repente, e não senti nada. Nem raiva, nem saudade. Só aquele quarto, aquele corpo, aquela mulher que me mandava e me deixava ir.
"Eu vou gozar", ela avisou, quase sem voz. "Não para, por favor, não para agora."
Meti mais forte, mais fundo, segurando firme. Ela gozou gritando, um grito abafado no lençol, e o cu dela me apertou em espasmos tão fortes que eu não aguentei. Gozei junto, enterrado nela até o fundo, o corpo inteiro se curvando sobre as costas dela, um gemido saindo de um lugar que eu nem sabia que existia.
Fiquei ali, sem me mexer, a testa nas costas suadas dela, sentindo o coração dela bater contra o meu peito. Lá fora, o sino da igreja tocou quatro vezes.
Saí devagar, com cuidado, e ela gemeu baixinho e desabou de lado na cama.
Durante um tempo, nenhum dos dois falou. Ela pegou a minha mão e puxou para eu deitar ao lado dela. O ventilador da sala ainda girava. O samba do vizinho tinha virado jornal da tarde.
"Tudo bem?", perguntei, por fim.
"Mais que bem." Ela se espreguiçou como um gato. "Você ouve. É raro."
"Você falou que manda. Eu acreditei."
Ela riu e ficou me olhando, de lado, com a bochecha no travesseiro. A pinta acima da sobrancelha, a sarda no colo.
"Por que você demorou tanto pra pedir?", ela perguntou.
Pensei em mentir. Não menti.
"Porque eu achava que pedir as coisas que eu quero fazia de mim um cara ruim. Passei seis anos com uma pessoa e nunca pedi nada. Aí ela foi embora mesmo assim."
Natasha não disse nada bonito. Só passou o polegar na minha sobrancelha, devagar, como se apagasse uma ruga.
Tomei banho num banheiro de azulejo verde, com o chuveiro que só esquentava girando muito para a esquerda. Quando voltei, ela estava de vestido de novo, o cabelo preso com o mesmo lápis, sentada na janela olhando a rua. O sol tinha baixado e os prédios do outro lado ficavam alaranjados.
Paguei o que estava combinado. Ela guardou sem contar.
"Na porta você puxa forte que a tranca é chata", disse.
"Eu lembro."
Já com a mão na maçaneta, me virei.
"Natasha. Posso escrever de novo?"
Ela ficou um tempo me olhando contra a luz da janela, o rosto meio no escuro.
"Pode", disse. "Mas da próxima vez você me conta o que mais você nunca pediu."
Desci pela escada. Não quis o elevador. Na rua, o Centro fervia de gente saindo do trabalho, e eu andei até a Lapa sem pressa, com a sensação estranha de que alguém, em algum quarto andar, sabia uma coisa sobre mim que eu ainda estava aprendendo.
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