✒ Escrito por humanoContemporâneo · 10 minConto #87

Pernoite em Búzios

por Noa Bruma

Foi ela quem sugeriu, e foi isso que me tirou o sono por duas semanas.

"Faço pernoite às vezes", escreveu no WhatsApp, numa quinta à noite, depois de um programa comum no apartamento dela. "Vinte e quatro horas, viagem curta. O valor é outro, eu te mando. Você paga metade no Pix na reserva e metade quando chegar. A hospedagem é por sua conta. Se quiser, tem uma pousada em Búzios que eu gosto."

Meu nome é Luiz. Tenho quarenta e um anos, sou engenheiro, divorciado há dois, e havia oito meses eu pagava duas horas por semana para estar com a mulher que eu amava. Natasha era garota de programa e nunca escondeu isso. Eu era cliente e escondia tudo, inclusive de mim mesmo, inclusive o anel que estava havia um mês na gaveta da minha mesa de cabeceira.

Mandei o primeiro Pix em cinco minutos. Na semana seguinte, comprei a passagem do ônibus, reservei o quarto da pousada, um chalé de madeira na Praia da Ferradura, e coloquei a caixinha de veludo na mala, embrulhada numa meia, como um adolescente.

Ela chegou num carro de aplicativo às quatro da tarde de sábado, de vestido florido e chinelo, óculos escuros, uma mochila pequena. Parecia outra mulher. Parecia alguém de férias. Quando me viu na varanda do chalé, tirou os óculos e sorriu, e eu tive que me segurar no corrimão.

"Primeiro o chato", disse, ainda na escada, e me mostrou o QR Code com a outra metade.

Paguei. Ela conferiu, agradeceu e, pela primeira vez, não programou timer nenhum.

"Vinte e quatro horas", disse. "Até amanhã às quatro. Eu sei contar sem relógio." Entrou no chalé, largou a mochila na cama e olhou em volta. "Você sabe minhas regras. Camisinha em tudo. Nada de foto. 'Amarelo', você diminui. 'Vermelho', a gente para. E hoje tem mais uma: hoje você não me chama de Natasha na frente de ninguém da pousada. Pra eles a gente é um casal."

"Um casal", repeti, e a palavra ficou no ar.

O chalé tinha uma cama grande de dossel, uma parede de tijolinho caiado e um banheiro com chuveiro de pedra aberto para um jardim fechado. Pela janela, a ferradura de areia branca e o mar verde, calmo como uma piscina. A gente desceu para a praia no fim da tarde, tomou caipirinha num quiosque, e ela segurou minha mão na areia como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu sabia que aquilo estava incluído no preço. E mesmo assim o meu peito não sabia.

Num momento, ela entrou no mar até a cintura e me chamou com a mão. Fui. A água estava morna, e ela se pendurou no meu pescoço e enrolou as pernas em mim, rindo, molhando meu cabelo. Um casal de velhinhos passou na areia e acenou para nós. Natasha acenou de volta. "Viu?", ela disse no meu ouvido. "A gente convence." Eu quis dizer que não estava fingindo nada, que para mim não era teatro. Fiquei quieto e beijei o ombro salgado dela. Ela deitou a cabeça no meu peito, ali no meio da água, e por um minuto inteiro não disse nada, só respirou junto comigo, o mar balançando a gente devagar.

Na volta, ela parou numa barraquinha e comprou uma pulseira de miçanga azul por dez reais. Amarrou no meu pulso sem explicar.

Quando voltamos, o sol estava se pondo atrás do morro e o quarto inteiro ficou cor de laranja. Ela fechou a porta, encostou nela e me olhou.

"Você tá esquisito o dia todo", disse. "Calado. O que foi?"

"Nada. Tô feliz."

"Mentiroso." Ela veio até mim e tirou o vestido pela cabeça, sem nada por baixo. "Então me mostra que tá feliz."

Eu a beijei. Ela me despiu ali, de pé no meio do quarto, beijando meu peito, meu pescoço. Pegou uma camisinha na mochila, pôs em mim devagar, e me levou pela mão até uma cadeira de madeira sem braço encostada na parede de tijolinho.

"Senta", disse. "Quero assim. Você sentado, eu no seu colo, de costas. E a parede na minha frente."

Ela sentou no meu pau de costas, as mãos espalmadas na parede caiada, as pernas abertas por fora das minhas. Desceu devagar, gemendo, até sentar inteira. Eu via a bunda dela subindo e descendo, via meu pau entrando e saindo da buceta dela, brilhando. Ela usava a parede como apoio para descer com mais força. Eu passei os braços por baixo dos dela e segurei os peitos, apertando os bicos.

"Isso. Aperta. Mete forte em mim."

Eu enfiava de baixo para cima e ela empurrava a parede para sentar mais fundo. O barulho dos nossos corpos batendo enchia o chalé, misturado com o mar lá fora. Eu beijava as costas dela, os ombros, a nuca, e dizia o nome dela, o nome falso, baixinho, como uma reza.

"Fala outra coisa", ela pediu, ofegante. "Fala o que você sente."

"Eu te amo", falei, com a boca nas costas dela. "Eu te amo, Natasha."

Ela parou um segundo. Depois encostou a testa na parede, gemeu longo, e gozou, a buceta apertando meu pau em espasmos que quase me fizeram gozar junto. Eu segurei. Ela ficou ali, a testa nos tijolos, rindo e respirando.

"Você não pode falar isso pra mim", disse.

"Por quê?"

"Porque eu acredito."

Ela se levantou, me puxou pela mão até a cama e ficou de quatro na beirada, olhando para trás.

"Lembra da palavra?"

"Amarelo e vermelho."

"Então me come de quatro. E bate."

Meti nela de quatro, fundo, e desci a mão aberta na bunda dela. Ela gemeu e pediu de novo. Bati de novo, do outro lado, e conferi, a mão parada na pele quente: "Tá bom assim?" "Tá perfeito", ela disse. "Não para." Eu meti e bati até ela gozar de novo, o rosto afundado no lençol, e então ela esticou a mão para a mochila.

"Troca a camisinha", disse, me entregando uma nova e o frasco de lubrificante. "Quero um pouquinho de anal. Só um pouquinho. Devagar."

Troquei. Espalhei lubrificante nela e em mim, muito, e entrei com um dedo primeiro, depois dois, até ela começar a rebolar. Encostei a cabeça do pau no cu dela e esperei ela empurrar para trás. Ela empurrou. Entrei devagar, parando quando ela respirava fundo, seguindo quando ela pedia. "Mete no meu cu, amor", ela sussurrou, e foi curto e intenso, lento, ela esfregando o clitóris, até gozar de novo comigo inteiro dentro dela. Eu saí com cuidado e ela desabou de lado na cama, rindo, suada.

"Banho", disse. "Agora. Antes que eu durma."

O chuveiro de pedra ficava ao ar livre, cercado de bambu, e já era noite. A água saiu quente, e o vapor subia para as estrelas. Joguei a camisinha no lixo do banheiro. Ela me lavou com sabonete de capim-limão, com cuidado, quase com ternura, e depois me beijou embaixo da água. Foi o beijo mais longo que ela já tinha me dado.

"Eu te amo", falei de novo, com a boca colada na dela. Dessa vez ela não disse nada, mas apertou meus ombros com força.

Pegou outra camisinha que tinha deixado na prateleira de pedra, pôs em mim, virou de costas e apoiou as mãos na parede molhada.

"Me come aqui, tomando banho", disse.

Meti nela embaixo do chuveiro, em pé, a água batendo nas costas dela e escorrendo pela bunda. Ela empinava e eu segurava os peitos molhados. O barulho da água misturado com os gemidos dela e com o mar. Ela virou de frente, pôs uma perna no banco de pedra, e eu meti de frente, olhando para ela, a testa encostada na dela. Gozei dentro da camisinha assim, abraçado nela, sem conseguir segurar mais, e ela gozou junto, as unhas nas minhas costas, a água levando tudo embora.

Jantamos no chalé, peixe e vinho branco que a pousada trouxe, ela enrolada num roupão, eu de bermuda. Ela me contou de uma tia em Minas, de uma cachorra que teve na infância, coisas que nunca tinha contado em oito meses. Eu ouvia como quem recebe presente.

Depois deitamos na rede da varanda, ela por cima de mim, olhando o mar escuro e as luzes dos barcos. Eu sabia que era a hora. Sabia que, se não fosse ali, não seria nunca.

"Natasha", falei. "Eu te amo. Não é coisa de cliente. Eu sei que pago, sei que você tem regras, sei que tem outros homens, sei que sou um engenheiro de quarenta e um anos falando isso numa rede em Búzios. Mas eu conto os dias até te ver. Hoje você não fingiu, você mesma disse. Eu nunca fingi. Nem uma vez."

Levantei com cuidado, entrei no chalé, tirei a meia da mala e voltei com a caixinha de veludo aberta. Ajoelhei no chão da varanda, na frente da rede, do jeito mais ridículo e mais sincero que eu sabia.

"Casa comigo."

Natasha levou as duas mãos à boca. Os olhos encheram d'água de um jeito que eu nunca tinha visto, nem no sexo, nem em oito meses de quintas-feiras. Ela olhou para o anel, depois para mim, depois para o mar, como quem procura uma saída e não quer achar.

"Luiz", disse, a voz quebrada. "Você não sabe nem meu nome de verdade."

"Então me fala. Eu quero saber tudo."

Ela ficou um tempo enorme em silêncio, segurando minha mão com força, chorando sem barulho.

"Eu não posso te dar um sim assim", disse por fim. "Não hoje, não num pernoite que você pagou. Tem uma vida inteira minha que você não conhece. E eu tenho medo de que, quando conhecer, você não queira mais."

"Eu vou querer."

Ela fechou minha mão em volta da caixinha, sem aceitar e sem devolver.

"Guarda isso", disse. Pegou o celular, abriu um contato novo e digitou um número e um nome que não era Natasha. Virou a tela para mim. "Esse é o meu. O de verdade. Me liga quando a gente voltar. Num dia que não seja quinta."

Dormimos abraçados, sem sexo, a janela aberta para o barulho da Ferradura. De manhã ela acordou antes de mim e eu a encontrei na varanda, olhando o mar, com o roupão e os olhos vermelhos.

Às quatro da tarde o carro dela chegou. As vinte e quatro horas tinham acabado. Ela me beijou demorado na escada do chalé, e não foi beijo de programa.

"Vai embora antes que eu diga alguma coisa de que me arrependa", sussurrou. "Pra um lado ou pro outro."

Fui eu que fiquei, olhando o carro sumir na estrada de terra, com a caixinha num bolso e o nome verdadeiro dela no celular, sem saber se tinha perdido ou ganhado tudo.

Só sabia que, pela primeira vez, o tempo tinha acabado e ela não tinha dito não.

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