✒ Escrito por humanoHétero · 11 minConto #92

Eu e a moça da academia: o match que eu não esperava (Parte 1)

por Noa Bruma

hétero

Às seis e cinco da manhã a academia da rua Cardeal Arcoverde tem um cheiro que eu aprendi a gostar: borracha de piso, desinfetante de eucalipto e café requentado da recepção. Tem também uma luz branca demais, que faz todo mundo parecer mais cansado do que é, e um som ambiente tocando remix de música dos anos 2000 que ninguém pediu.

E tem a Lia.

Eu não sabia o nome dela por muito tempo. Durante quase quatro meses ela foi "a moça do agachamento". Chegava às seis e dez, sempre com uma garrafa de água rosa cheia de adesivos, fone grande na cabeça, cabelo preso num coque alto que ia se desmanchando ao longo do treino. Usava legging preta e regata larga, e tinha um jeito de se concentrar que me desarmava. Não olhava espelho para se admirar. Olhava para conferir o joelho.

A gente dividia o rack de agachamento nas segundas, quartas e sextas. Eu fazia minha série, ela fazia a dela. Ela tirava as anilhas que eu deixava, eu ajustava a altura da barra depois que ela usava. Um balé silencioso de gente educada às seis da manhã.

"Bom dia."

"Bom dia."

Era tudo. Quatro meses de bom dia.

Eu tinha 33 anos e trabalhava com logística numa distribuidora em Santana. Tinha saído de um namoro morno de dois anos fazia seis meses, e tinha voltado para a academia porque meu médico disse que eu ia ter problema de coluna antes dos quarenta se continuasse sentado o dia inteiro. Não tinha voltado para conhecer ninguém. Mas tinha começado a chegar às seis em ponto em vez de seis e quinze, e não era por causa da coluna.

---

O que me pegou nela, eu acho, foi uma manhã de chuva em julho. Ela estava tentando um peso novo, mais pesado, e travou no fundo do agachamento. Ficou lá embaixo, as coxas tremendo, a barra parada nos ombros. Eu estava do lado, alongando, e por reflexo cheguei por trás e segurei a barra.

"Sobe", eu disse. "Eu tô aqui. Sobe."

Ela subiu. Devagar, com um gemido de esforço que saiu do fundo da garganta e que eu fingi que não tinha ouvido do jeito que ouvi. Quando a barra voltou para o suporte, ela tirou o fone e se virou, vermelha, ofegante, uma mecha de cabelo grudada na testa.

"Obrigada", disse. "Eu ia morrer ali embaixo."

"Ia nada. Faltava pouco."

"Faltava a vida." Ela riu. Era a primeira vez que eu via ela rir. Tinha um dente da frente levemente torto, e uma covinha só de um lado. "Lia."

"Bruno."

"Eu sei. A moça da recepção grita seu nome quando você esquece a carteirinha."

"Ela grita o de todo mundo."

"O seu ela grita mais."

Ela pôs o fone de volta e foi para o leg press. E eu fiquei ali, com as mãos ainda quentes da barra que ela tinha segurado, pensando que eu não lembrava a última vez que uma conversa de quarenta segundos tinha me deixado assim.

---

Depois disso, o bom dia mudou. Virou "bom dia, Bruno", "bom dia, Lia". Às vezes um "hoje tá cheio, hein", às vezes um "esse remix é crime". Uma sexta ela chegou de mau humor e disse "não fala comigo antes do café", e eu levei um copinho da recepção para ela no meio do treino, e ela olhou para mim por cima do copo com uma cara que eu passei o fim de semana tentando decifrar.

Mas não passava disso. Eu não chamava para sair. Ela não chamava. A academia tinha uma regra não escrita, que todo mundo conhece: você não paquera quem treina no mesmo horário que você, porque se der errado você vai ter que trocar de horário ou de academia. E nenhum dos dois queria perder as seis da manhã.

Além disso, eu não sabia se ela tinha alguém. Ela não usava aliança, mas isso não queria dizer nada. Uma vez vi ela sair com um cara de terno que estava esperando no carro, e passei o dia inteiro com um gosto estranho na boca que eu não tinha o direito de sentir.

Então eu fazia o que todo homem de 33 anos solteiro em São Paulo faz numa terça à noite: abria o aplicativo e passava fotos para a esquerda, deitado no sofá, comendo pipoca de micro-ondas, sentindo um tédio que não cabia na sala.

Foi numa dessas terças que ela apareceu.

---

Não reconheci de primeira. A primeira foto era numa cachoeira, de biquíni verde, de costas, olhando para trás por cima do ombro. O cabelo solto, molhado, comprido como eu nunca tinha visto. Lia, 30, dizia embaixo. Arquiteta de interiores. 3 km de distância.

Eu fiquei parado. Passei para a segunda foto. Ela num bar, de vestido vermelho e batom, rindo com a cabeça para trás. A covinha. O dente torto.

A terceira foto foi a que me pegou. Era uma selfie no espelho do vestiário da academia. Da nossa academia. Com a garrafa rosa cheia de adesivos na mão.

Na descrição: Acordo às 5h30 pra treinar e mesmo assim chego atrasada. Procuro alguém que não fale comigo antes do café. Mas que traga o café.

Eu li aquilo quatro vezes. Que traga o café.

Fiquei com o dedo parado em cima da tela. Se eu desse like e ela não desse, eu ia passar o resto da vida treinando ao lado de uma mulher que tinha me rejeitado num aplicativo. Se ela desse like e eu não, ela ia ver meu perfil, ia saber que eu tinha visto, e nunca ia saber se eu tinha gostado. Pior: se ela já tivesse me visto e passado para a esquerda, eu estaria me humilhando sozinho.

Larguei o celular no sofá. Fui até a cozinha, bebi um copo de água. Voltei. A foto dela de vestido vermelho continuava ali.

Dei like.

A tela explodiu em confete.

Deu match!

---

Eu juro que meu coração parou. O match significava que ela já tinha me dado like antes. Que em algum momento, numa noite qualquer, ela tinha visto minhas fotos e passado para a direita. Talvez semanas antes. Talvez sabendo que era eu, o cara do rack, o cara do café.

Fiquei olhando a tela sem saber o que escrever. Escrevi "oi". Apaguei. Escrevi "que coincidência". Apaguei, porque não era coincidência nenhuma: era um algoritmo e dois idiotas morando a três quilômetros. Escrevi "bom dia", achando engraçado, e apaguei porque eram onze da noite.

Ela escreveu primeiro.

Demorou, hein.

Eu ri sozinho no sofá. Respondi:

Você me deu like faz tempo?

Três semanas. Achei que você tinha visto e ignorado.

Eu não tinha visto. Juro.

Então você não procura muito, né.

Eu tava procurando a pessoa errada no lugar certo. Ou o contrário.

Ela mandou um emoji de risada. Depois:

Sabe o que é estranho? Eu passo três vezes por semana olhando sua bunda no agachamento e nunca tive coragem de dizer nada além de bom dia.

Eu engasguei com a pipoca.

Você olha?

Todo mundo olha, Bruno. Você deixa a camiseta subir quando sobe a barra. É praticamente um serviço público.

Senti o rosto esquentar no escuro da sala. E logo depois uma coisa mais funda, mais baixa, que esquentou outra parte de mim.

Já que estamos sendo honestos, escrevi, eu fiquei pensando naquele gemido do dia da chuva por uma semana.

Ela demorou para responder. Três pontinhos. Pararam. Voltaram.

Que gemido?

Você sabe que gemido.

Aquilo era esforço.

Eu sei. Mas meu corpo não sabia.

Silêncio de novo. Depois:

Bruno. Isso tá ficando perigoso pra quem divide um rack às seis da manhã.

Eu sei.

Se der errado, um de nós vai ter que mudar de horário.

Eu sei.

Eu não vou mudar de horário. Eu chego atrasada até no das seis.

Então eu mudo.

Não, você não muda. Eu gosto de te ver lá.

Fiquei olhando aquela frase. Eu gosto de te ver lá. Ela tinha escrito sem emoji, sem piada. Fiquei pensando na boca dela dizendo isso, com o cabelo grudado na testa, e virei de lado no sofá porque estava ficando desconfortável.

---

A conversa foi até uma e meia da manhã. Descobri que ela morava sozinha na Teodoro Sampaio, num prédio velho com piso de taco. Que tinha terminado um noivado no ano anterior com o cara de terno do carro, que no fim era um advogado que corrigia o português dela em público. Que ela odiava coentro, amava sertanejo antigo e tinha vergonha disso, e que tinha um gato chamado Pirulito. Contei sobre a distribuidora, sobre meu pai que tinha sido caminhoneiro, sobre a coluna. Ela riu do médico.

Em algum momento, já passava de uma, ela escreveu:

Posso ser direta?

Por favor.

Eu tô deitada na cama de camiseta e calcinha e tô com tesão falando com você. E não sei se isso é uma coisa boa pra amanhã às seis.

Eu sentei no sofá de uma vez. O coração na garganta.

Eu tô duro desde a frase da bunda, escrevi, antes de conseguir pensar.

Bom saber que não sou só eu.

O que a gente faz com isso?

Agora? Nada. Eu vou dormir. Você vai dormir. E amanhã às seis a gente vai se cumprimentar como gente normal.

Você acha que consegue?

Não. Mas vou tentar.

Ela ficou offline. Eu fiquei olhando a tela até ela apagar. Depois fui para a cama e não dormi. Fiquei pensando nela de camiseta e calcinha a três quilômetros dali, o gato em cima do edredom, o celular na mão. Me toquei pensando nisso, devagar, imaginando o gemido do dia da chuva sem a barra, sem esforço, só com o prazer, e gozei com o nome dela preso na garganta, me sentindo um adolescente e não me importando.

---

Às cinco e meia o alarme tocou. Eu tinha dormido duas horas. Pensei em não ir. Pensei que seria mais fácil não ver a cara dela depois de ter dito o que eu disse.

Fui.

Cheguei às seis em ponto. Ela não estava. Seis e cinco, nada. Seis e dez, nada. Comecei a achar que ela tinha mudado de horário, afinal. Que eu tinha estragado tudo com uma frase às duas da manhã.

Às seis e catorze a porta da academia abriu. Ela entrou de legging, regata larga, garrafa rosa. Sem fone. O cabelo solto, pela primeira vez em quatro meses.

Atravessou a academia inteira até o rack, sem olhar para os lados. Parou na minha frente. Ficou me olhando, muito séria, com as bochechas vermelhas.

"Bom dia", ela disse.

"Bom dia."

Ela estendeu a mão. Na mão dela, tinha um copinho de café da recepção. Quente.

"Hoje fui eu que trouxe", disse.

Peguei o copo. Nossos dedos encostaram em volta do papel, e ficaram ali mais tempo do que precisavam, no meio da academia lotada às seis e quinze da manhã, com o remix dos anos 2000 tocando alto.

Ela se aproximou um pouco. Baixou a voz.

"Sábado", disse. "Oito da noite. Tem um bar na minha rua que toca sertanejo antigo. Se você rir, eu te mato."

"Eu não vou rir."

"Vai sim." Ela sorriu, a covinha aparecendo. "E depois, se você se comportar, eu te apresento o Pirulito."

Ela pegou a barra, colocou o fone e começou a série, como se nada tivesse acontecido. Eu fiquei parado do lado com o café na mão, vendo ela descer no agachamento, e cada vez que ela subia eu ouvia, por baixo da música, o mesmo gemido do dia da chuva.

E faltavam quatro dias para sábado.

Avalie:
Denunciar

0 comentários

Você também pode gostar

Ver perfil