✒ Escrito por humanoContemporâneo · 12 minConto #93

Corno por escolha: minha esposa e o primeiro sim (Parte 1)

por Noa Bruma

A louça ainda estava na pia quando eu disse. Não foi planejado. Eu tinha ensaiado aquela frase tantas vezes, no carro, no banho, deitado olhando o teto enquanto Helena dormia, que achei que ela sairia bonita quando chegasse a hora. Saiu torta, no meio de uma conversa sobre a conta de luz.

"Às vezes eu penso em você com outro homem."

Helena parou com o pano de prato na mão. Tinha 38 anos, quinze deles casada comigo, e eu conhecia todos os silêncios dela. Aquele era novo. Não era raiva, nem susto. Era um silêncio de quem está medindo o tamanho de uma coisa.

"Pensa como?", ela perguntou.

E foi aí que eu entendi que não tinha mais volta. Eu podia rir, dizer que era bobagem, que tinha visto num filme. Ela ia aceitar a mentira por educação e a gente ia dormir de costas um para o outro, como já dormia havia meses. Ou eu podia contar a verdade.

"Penso em você sendo desejada. De verdade. Por alguém que não sou eu. E eu vendo."

Ela dobrou o pano. Colocou em cima da pia, alinhado com a borda, do jeito que sempre fazia quando precisava de um segundo. Depois puxou a cadeira e sentou na minha frente.

"Há quanto tempo, Rodrigo?"

"Uns anos."

"Anos."

"Eu tinha vergonha."

"E agora não tem?"

"Agora eu tenho mais medo de a gente virar dois estranhos do que de você me achar um corno doente."

A palavra ficou na mesa entre nós dois. Corno. Eu nunca tinha dito em voz alta sobre mim mesmo. Era a palavra que os amigos usavam no bar como ofensa, a palavra que meu pai teria usado para encerrar uma conversa. E ali, dita por mim, na nossa cozinha, ela soava diferente. Soava como confissão.

Helena não riu. Isso foi o que mais me marcou depois. Ela olhou para as minhas mãos, que eu não sabia que estavam tremendo, e colocou as dela por cima.

"Me conta direito", ela disse. "Sem pressa. Eu quero entender."

⁂

Contei. Contei que começou com uma festa, anos antes, quando um colega dela de faculdade ficou a noite inteira rindo das piadas dela, tocando o braço dela, e eu, em vez de ciúme, senti uma coisa quente subindo pelo peito. Orgulho, talvez. Ou algo mais estranho que orgulho. Contei que naquela noite, em casa, a gente transou como não transava fazia tempo, e ela nunca soube por quê.

"Eu lembro dessa noite", ela disse, devagar. "Eu achei que era o vinho."

"Era o Marcelo."

Ela soltou o ar pelo nariz, quase uma risada. "O Marcelo era chato."

"Ele te queria."

"E isso te deixou…"

"Duro a noite inteira."

Ela ficou vermelha. Helena era uma mulher que ainda ficava vermelha depois de quinze anos de casamento, e eu amava isso nela. Advogada, firme no trabalho, capaz de desmontar um gerente de banco em três frases, e vermelha na cozinha porque o marido disse "duro".

"Você quer que eu transe com outro cara", ela disse. Não era pergunta.

"Eu quero que você queira. Se você não quiser, acabou, a gente nunca mais fala disso. Eu juro."

"E se eu quiser?"

Eu não estava preparado para essa pergunta. Tinha me preparado para o choro, para a raiva, para ela pegar a chave do carro e ir dormir na casa da irmã. Não para o "e se eu quiser".

"Você quer?", perguntei, e minha voz saiu menor do que eu gostaria.

Ela se levantou. Foi até a janela. Lá fora, o prédio da frente tinha poucas luzes acesas, era quase uma da manhã de uma terça-feira. Ela ficou de costas para mim, os braços cruzados, e falou para o vidro.

"Eu não sei. Eu nunca me permiti pensar nisso. Eu sou casada, Rodrigo. Casada. Eu passei quinze anos achando que desejar outro homem era o começo do fim."

"E se não for?"

"E se for?"

Não respondi. Não tinha resposta. Ela tinha razão, e eu sabia. Havia casais que tentavam isso e se desfaziam em seis meses. Eu tinha lido os relatos, à noite, no celular, com o brilho no mínimo para ela não acordar. Traição consentida, diziam os fóruns, como se o consentimento fosse um escudo. Às vezes era. Às vezes era só uma desculpa bonita.

Helena virou.

"Vamos dormir", ela disse. "Eu preciso pensar."

⁂

Ela pensou por onze dias. Eu contei. Onze dias em que ela foi gentil, normal, carinhosa até, e em que eu não tive coragem de tocar no assunto. Achei que tinha estragado tudo. Achei que ela tinha decidido, no silêncio dela, que o marido era um homem menor do que ela imaginava.

No décimo segundo dia, um sábado, ela me chamou para o quarto. Estava sentada na cama, de pernas cruzadas, com o notebook aberto e uma folha de papel do lado, escrita à mão. A letra dela, inclinada, de quem anota audiência.

"Senta", disse.

Sentei.

"Eu fiz uma lista", ela disse, e eu quase ri, porque era tão ela que doeu. "Regras. Se a gente fizer isso, vai ser assim. Se você não topar alguma, a gente conversa. Se eu mudar de ideia em qualquer momento, em qualquer momento, Rodrigo, até no meio, acabou e você não pergunta por quê."

"Combinado."

"Você ainda não leu."

"Combinado mesmo assim."

Ela me entregou a folha. Eram nove itens. Camisinha sempre. Ninguém do trabalho dela nem do meu, ninguém dos nossos amigos. Primeiro encontro só para conversar, em lugar público, e eu por perto. Nada escondido: ela me contaria tudo, e eu podia perguntar o que quisesse. Palavra de segurança: "Lisboa", a cidade da nossa lua de mel. Nenhum encontro sem os dois concordarem antes. E o último, sublinhado duas vezes:

9. Se em algum momento um de nós sentir que está perdendo o outro, a gente para. O casamento vem antes da fantasia.

Li duas vezes. Quando levantei os olhos, ela estava me olhando com uma expressão que eu não via fazia anos. Uma mistura de medo e de curiosidade, e por baixo, quase escondida, uma coisa que parecia fome.

"Você pensou nisso", eu disse.

"Eu não pensei em outra coisa." Ela mordeu o lábio. "E tem uma coisa que eu preciso te contar, pra ser justa."

"Fala."

"Eu fiquei com tesão. Pensando. Esses dias. Eu me toquei no banho pensando nisso e me senti uma pessoa horrível depois."

Meu coração deu um tranco. "Pensando em quê?"

"Em você assistindo." Ela fechou os olhos. "Em você na poltrona do canto, e eu na cama com um homem sem rosto, e eu olhando pra você enquanto ele me… enquanto ele me comia."

Ela disse a palavra. Helena, que dizia "fazer amor" até em discussão. Eu senti o sangue descer inteiro do rosto para o meio das pernas.

"Isso não é horrível", eu disse.

"Não?"

"É a coisa mais bonita que você já me disse."

Ela abriu os olhos e riu, nervosa, e eu a beijei. Foi um beijo diferente de todos os outros daquele ano. Tinha pressa e tinha cuidado ao mesmo tempo. A folha de papel caiu no chão. O notebook escorregou para o lado. Eu tirei a camiseta dela e ela segurou meu rosto com as duas mãos.

"Me fala", ela pediu. "Me fala o que você imagina."

Então eu falei. Deitado em cima dela, abrindo o sutiã com os dedos atrapalhados, eu contei: um homem mais novo, talvez, alguém que olhasse para ela como se ela fosse a única mulher do bar. Ela rindo de uma piada dele. Ele pondo a mão na cintura dela na hora de ir embora. E eu atrás, pagando a conta.

"Você pagando a conta", ela repetiu, e arqueou as costas quando minha boca chegou no seio dela.

"Eu pagando a conta. E depois indo pro hotel. E ele te despindo devagar, do jeito que eu tô te despindo agora."

"E você?"

"Eu olhando. Eu vendo você ser desejada por outro."

Ela gemeu. Gemeu alto, como não gemia fazia tempo, e as mãos dela desceram até o meu cinto. Abriu com uma urgência que me assustou e me excitou na mesma medida. Quando me segurou, eu estava tão duro que doía.

"Olha só você", ela disse, e havia um tom novo na voz dela, quase de deboche, quase de carinho. "O meu corninho."

Se ela tivesse dito aquilo um mês antes, eu teria morrido de vergonha. Ali, eu quase gozei na mão dela.

Tirei a calcinha dela e ela estava molhada como nos primeiros anos. Mais, talvez. Entrei nela devagar e ela cravou as unhas nas minhas costas.

"Ele vai ser maior que você?", ela perguntou, os olhos fechados, a boca colada no meu ouvido.

"Não sei."

"E se for?"

"Aí você me conta."

Ela riu e gemeu ao mesmo tempo, e começou a mexer o quadril contra o meu, num ritmo que era dela, não meu. Eu deixei. Eu deixei ela me usar, e pela primeira vez entendi que talvez fosse isso o que eu quisesse o tempo todo: não perder minha mulher, mas vê-la tomar as rédeas do próprio desejo.

"Imagina ele aqui", eu disse. "Imagina que sou ele."

"Não", ela respondeu, firme, e abriu os olhos. "Não. Você é você. Ele vai ser ele. Eu quero os dois."

Eu gozei nessa hora. Não aguentei. Ela riu de novo, um riso cheio, e não me deixou sair. Segurou minha mão e levou até o meio das pernas dela, e eu continuei com os dedos até ela tremer inteira, a cabeça jogada no travesseiro, dizendo meu nome e depois uma coisa que eu não entendi.

⁂

Depois, ficamos deitados no escuro. O ventilador de teto girava devagar. A folha das regras estava no chão, amassada debaixo do meu joelho.

"Rodrigo."

"Hum."

"Eu tenho medo de gostar demais."

Eu virei para ela. "Eu também."

"Não. Você tem medo de eu gostar demais. Eu tenho medo de eu gostar demais." Ela passou o dedo no meu peito. "São medos diferentes."

Fiquei quieto. Ela tinha razão de novo. Ela quase sempre tinha.

"Se eu gostar", ela continuou, "eu não sei quem eu viro. Eu sou a mulher certinha. A esposa que levanta às seis. A que lembra o aniversário da sua mãe. Se eu gostar de ser comida por outro homem na sua frente, quem eu sou?"

"A mesma. E mais alguma coisa."

"E se essa alguma coisa não couber no nosso apartamento?"

"Aí a gente muda de apartamento."

Ela riu baixinho. Depois ficou séria.

"Tá", ela disse.

"Tá o quê?"

Ela esticou o braço e pegou o celular na mesinha. A luz da tela iluminou o rosto dela de baixo para cima, e eu vi que ela já tinha um aplicativo aberto. Um daqueles de relacionamento, com o perfil pela metade. Uma foto dela de costas, numa praia, sem mostrar o rosto. Na descrição, uma frase só:

Casada. O marido sabe. Primeiro, um café.

"Você fez isso quando?", perguntei, e minha boca estava seca.

"Ontem. Não ativei." O polegar dela ficou parado em cima do botão. "Se eu apertar, a gente começa. Se eu não apertar, eu apago e a gente esquece."

Ela virou o celular para mim.

"A decisão é minha", ela disse. "Mas eu quero que você veja eu decidir."

Olhei para ela. Para o polegar. Para a frase. O marido sabe. Eu sabia. Eu sabia que aquilo podia nos destruir ou nos salvar, e que nenhum de nós dois tinha como saber qual seria.

Helena apertou.

A tela piscou. Perfil ativo. Ela largou o celular em cima do meu peito, virou de lado e fechou os olhos como se nada tivesse acontecido.

Às três e quarenta da manhã, o celular vibrou contra a minha pele. Uma notificação. Uma mensagem de um homem chamado Caio, 35 anos, fotógrafo.

Oi, Helena. Gostei do "primeiro, um café". Seu marido toma café também?

Eu fiquei olhando para aquela tela no escuro, com minha mulher dormindo do lado, e não acordei ela. Fiquei ali, sozinho, sentindo o coração bater no lugar onde o celular estava, sabendo que de manhã eu ia ter que entregar aquela mensagem para ela.

E sabendo, pela primeira vez, que eu queria muito que ela respondesse.

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