✒ Escrito por humanoContemporâneo · 11 minConto #94

Corno por escolha: minha esposa casada e o café com outro (Parte 2)

por Noa Bruma

Ela trocou de roupa três vezes. Eu fiquei sentado na beirada da cama vendo, e cada vez que ela tirava um vestido e jogava em cima de mim, eu sentia o estômago virar.

"Esse é muito de advogada", ela disse do primeiro.

"Esse é muito de quem quer dar", ela disse do segundo, e riu, e depois ficou séria, porque tinha ouvido o que disse.

O terceiro era um vestido verde-escuro, simples, que ia até o joelho. Ela tinha usado no aniversário da minha irmã. Um vestido de esposa, pensei. Um vestido de casada. E foi justamente por isso que ela escolheu.

"Ele precisa saber o que tá olhando", ela disse para o espelho. "Uma mulher casada. Não uma menina de aplicativo."

Caio tinha sugerido uma cafeteria em Pinheiros, numa tarde de quinta. Lugar público, como estava na regra três. Eu cheguei vinte minutos antes e sentei numa mesa do fundo, de onde dava para ver a porta e a mesa perto da janela que ela ia ocupar. Pedi um espresso que não bebi. Meu joelho batia contra a perna da mesa num ritmo que eu não conseguia controlar.

Ele chegou primeiro. Reconheci pela foto: alto, barba aparada, camisa de linho com a manga dobrada, uma bolsa de câmera atravessada no peito. Trinta e cinco anos, dizia o perfil. Parecia ter menos. Sentou, olhou o celular, olhou a porta. Estava nervoso também, e isso me deu um alívio estranho.

Helena entrou às quatro em ponto.

Eu vi ele ver ela. Foi isso que me pegou primeiro, antes de qualquer outra coisa. O jeito que ele levantou meio sem querer, o jeito que os olhos dele desceram e subiram, rápido, educado, mas sem conseguir esconder. Ele olhou para a minha mulher como eu tinha descrito, deitado em cima dela, onze dias antes. Como se ela fosse a única pessoa no lugar.

Ela não olhou para mim. Tinha prometido que não ia olhar, para não ficar estranho. Mas antes de sentar, ajeitou o cabelo atrás da orelha esquerda, e esse era o nosso sinal. Estou bem.

⁂

Eu não ouvia o que eles diziam. Só via. E ver sem ouvir era uma tortura e um presente ao mesmo tempo, porque eu podia inventar tudo.

Ele falava com as mãos. Ela ria com a cabeça um pouco para trás, um riso que eu conhecia de festas, não de casa. Em algum momento ele mostrou alguma coisa no celular, fotos, imaginei, e ela se inclinou para ver, e o ombro dela encostou no dele. Ficou encostado. Ela não tirou.

Meu pau endureceu dentro da calça, debaixo da mesa, numa cafeteria cheia de gente com notebook. Eu cruzei as pernas e me senti ridículo e vivo.

Depois de quarenta minutos, ele disse alguma coisa e ela ficou séria. Olhou para a xícara. Depois, devagar, virou a cabeça e olhou direto para mim, pela primeira vez.

Ele seguiu o olhar dela. Me encontrou.

Eu poderia ter desviado. Não desviei. Levantei a xícara fria num pequeno brinde, e ele, depois de um segundo de surpresa, sorriu e acenou com a cabeça. Um cumprimento entre dois homens que sabiam exatamente o que estava acontecendo.

Helena se levantou, veio até a minha mesa e sentou do meu lado.

"Ele perguntou se você tava aqui", ela disse baixo. "Eu disse que sim. Ele quer te conhecer."

"Agora?"

"Agora." Ela pôs a mão na minha coxa, por baixo da mesa, e subiu um pouco. Sentiu. Os olhos dela se arregalaram e depois ficaram escuros. "Rodrigo."

"Eu sei."

"Você tá assim desde quando?"

"Desde que ele levantou quando você entrou."

Ela apertou. Só uma vez, rápido, e soltou. "Vem", disse.

⁂

Caio era educado de um jeito que desarmava. Apertou minha mão, firme, e disse: "Obrigado por confiar." Assim, sem rodeio. Eu não sabia o que responder, então disse "imagina", e todos nós rimos da idiotice.

Conversamos os três por mais meia hora. Ele era fotógrafo de casamento, o que achei de uma ironia quase cruel. Divorciado havia dois anos. Já tinha conhecido outros casais assim, disse, mas não muitos.

"A maioria desiste antes do café", ele falou. "O marido acha que quer, mas na hora não aguenta."

"E você acha que eu aguento?", perguntei.

Ele me olhou de um jeito que eu não esperava. Sem desafio. Com uma espécie de respeito.

"Você tá aqui", disse. "Você brindou comigo. Eu acho que você não só aguenta. Acho que você precisa disso."

Helena olhou de um para o outro. Eu vi o rosto dela mudar, como se estivesse vendo uma coisa pela primeira vez. Não o Caio. Eu. O marido dela, o corno dela, sentado do lado do homem que ela tinha achado atraente, sem raiva, sem humilhação, só com aquele calor no peito que eu tinha tentado explicar na cozinha.

"Regra três", ela disse, de repente, para ninguém em especial. "Primeiro encontro só conversa."

"Claro", disse Caio.

"Mas a regra não fala nada sobre despedida."

Ninguém respondeu. Eu paguei a conta. Era o que eu tinha imaginado, e quando a moça do caixa me devolveu o cartão eu quase ri de nervoso.

Lá fora, na calçada, já estava escurecendo. O carro dele estava numa rua lateral. Andamos até lá juntos, e na esquina Helena parou.

"Rodrigo", ela disse. "Lisboa não. Tá?"

Era o jeito dela de dizer: eu quero. Não me para.

"Tá", eu disse.

Ela se virou para Caio. Ficou na ponta dos pés, porque ele era alto, e beijou ele.

Eu estava a um metro e meio. Vi a mão dele subir pela coluna dela até a nuca. Vi ela abrir a boca. Vi a língua dele entrando na boca da minha mulher, e ela segurando a camisa de linho com a mão fechada, a aliança brilhando sob a luz do poste. Ouvi o som. Um som pequeno, molhado, que ela fazia quando gostava. Eu conhecia aquele som. Era meu. E agora era dele também.

Durou talvez vinte segundos. Me pareceu uma vida.

Quando ela se afastou, estava sem fôlego. Ele também. Ele olhou para mim por cima do ombro dela, e não havia triunfo no olhar. Havia uma pergunta.

Eu fiz que sim com a cabeça.

"Obrigado", ele disse de novo, só para mim. Depois para ela: "Quando vocês quiserem."

E foi embora.

⁂

No carro, ela não falou nada até a Rebouças. Eu dirigia com as duas mãos no volante, porque se soltasse uma eu ia tocar nela e a gente ia bater.

"Fala alguma coisa", ela pediu, finalmente.

"Como foi?"

Ela encostou a cabeça no vidro. "Diferente. Ele beija diferente de você. Mais devagar. Ele segurou minha nuca como se eu fosse fugir." Uma pausa. "Eu fiquei molhada no segundo segundo."

Eu apertei o volante.

"Você tá com raiva?", ela perguntou.

"Não."

"Ciúme?"

Pensei. Precisava ser honesto, era a regra quatro.

"Um pouco. Lá no fundo. Mas o resto é tão maior que eu não consigo nem ver o ciúme direito."

"O resto é o quê?"

"Tesão. E orgulho. Ele te olhou como se você fosse a mulher mais linda do mundo, e você é, e você é minha esposa, e você voltou pro meu carro."

Ela ficou quieta. Depois soltou o cinto de segurança no sinal vermelho, se esticou e abriu o meu zíper.

"Helena, o sinal…"

"Dirige."

Eu dirigi. Ela me tirou para fora da calça e me segurou com a mão quente, e se inclinou, e me pôs na boca, ali, na Rebouças, com os carros parados do lado. Eu agarrei o volante até os dedos ficarem brancos. Ela tirou a boca só para dizer:

"Essa boca beijou ele faz dez minutos. Você sabe disso, né?"

"Sei."

"Sente o gosto dele?"

Eu não sentia nada além dela. Mas disse que sim. Ela gemeu com a boca cheia e eu quase passei um sinal.

⁂

Em casa, ela me empurrou para a poltrona do canto do quarto. A poltrona da fantasia dela. Tirou o vestido verde de costas para mim, devagar, e ficou de calcinha e sutiã, e depois sem nada.

"Fica aí", disse. "Não levanta."

Deitou na cama, abriu as pernas e começou a se tocar olhando para mim.

"Ele me pegou pela nuca assim", ela disse, e passou a mão livre no próprio pescoço. "E eu pensei: se o Rodrigo não estivesse aqui, eu entrava no carro dele."

Meu coração parou.

"Mas aí eu lembrei que você tava", ela continuou, os dedos se mexendo mais rápido, "e foi isso que me deixou louca. Que você tava. Que você tava vendo. Que você ia me levar pra casa depois."

Eu abri a calça. Não pedi permissão. Ela sorriu.

"Isso. Se toca. Olhando pra mim. Pensa nele me beijando."

"Eu tô pensando."

"Pensa na mão dele descendo. Ele queria, Rodrigo. Eu senti. Quando eu encostei nele, ele tava duro."

"Tava?"

"Tava. Encostou na minha barriga." Ela gemeu. "Duro e grande."

Eu fechei os olhos e abri de novo, porque não queria perder nada. Ela estava arqueada na cama, os dedos dentro dela, a outra mão no seio, a aliança brilhando. Minha esposa. Minha mulher casada, de pernas abertas, falando de outro homem.

"Vem", ela disse. "Agora vem."

Fui. Ela me puxou para dentro dela com uma força que eu não conhecia, e a gente transou como bicho, sem delicadeza, sem jeito, ela falando o tempo todo. Ele beija devagar. Ele cheira a sabonete de hotel. Ele disse que eu era linda. Ele disse que você era um homem de sorte.

"Eu sou", eu disse, enterrado nela.

"Você é", ela concordou, e gozou, e eu gozei logo depois, e ela ficou rindo e chorando ao mesmo tempo, abraçada em mim, suada, com o rímel borrado.

⁂

Mais tarde, com a luz apagada, ela pegou o celular. Eu vi a tela acender.

"Ele mandou mensagem", ela disse.

"O quê?"

Ela leu em voz alta, a voz baixa:

Obrigado pelos dois. Sábado que vem estou com um quarto reservado num hotel na Paulista, para um trabalho. Se vocês quiserem, a porta fica aberta. Os dois. Sem pressão.

Ficamos em silêncio.

"Regra seis", ela disse. "Nenhum encontro sem os dois concordarem antes."

"Eu sei."

"Então eu tô perguntando." Ela virou a tela para o teto, para eu não ver o rosto dela. "Você quer ver?"

Eu sabia o que ela estava perguntando. Não era se eu queria ver ela num quarto de hotel. Era se eu queria ver ela ser comida por outro homem. Na minha frente. De verdade. Sem fantasia, sem história contada no escuro.

Fiquei muito tempo sem responder. Ela esperou.

"Eu quero", eu disse. "Mas eu quero que você me prometa uma coisa."

"O quê?"

"Que se você olhar pra mim no meio e vir que eu não tô bem, você para. Mesmo que eu não diga Lisboa."

Ela pôs o celular no peito, no escuro.

"E se eu olhar pra você e vir que você tá bem demais?", perguntou. "O que eu faço?"

Não tive resposta. Ela digitou alguma coisa, rápido, e eu não perguntei o quê. Só ouvi o som da mensagem saindo.

E depois o som de outra chegando, quase na hora.

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