Corno por escolha: vi minha esposa com outro no hotel (Parte 3)
O elevador do hotel tinha espelho nas três paredes, e eu não consegui parar de olhar para a gente. Helena de vestido preto, os cabelos soltos, uma bolsa pequena apertada contra a barriga. Eu de camisa azul, que ela tinha escolhido, a barba feita naquela tarde. Um casal comum indo para um jantar. Ninguém que entrasse ali ia imaginar que a gente estava subindo para o décimo quarto andar para eu ver minha esposa transar com outro homem.
"Tá arrependido?", ela perguntou, olhando para o meu reflexo e não para mim.
"Não. E você?"
"Eu tô com medo de não estar."
A porta do elevador abriu. O corredor era longo e acarpetado, e os nossos passos não faziam barulho nenhum. Quarto 1412. Ela parou na frente e não bateu.
"Rodrigo. Se eu gostar muito, você vai me olhar diferente amanhã?"
"Vou."
Ela virou o rosto, assustada.
"Vou te olhar como a mulher mais corajosa que eu conheço", eu disse.
Ela respirou fundo e bateu.
⁂
Caio abriu de calça jeans e camiseta, descalço. O quarto era grande, com uma janela de vidro que ia do chão ao teto, e lá embaixo a Paulista brilhava inteira, os faróis dos carros correndo como um rio. Havia uma garrafa de vinho aberta e três taças. E havia, no canto, de frente para a cama, uma poltrona de couro.
Ele tinha colocado a poltrona ali. Eu entendi na hora, e alguma coisa em mim se encolheu e se expandiu ao mesmo tempo.
"Achei que você ia querer ver de onde fosse confortável", ele disse, sem constrangimento. "Mas se preferir outro lugar…"
"Tá ótimo", eu disse.
Bebemos o vinho em pé, conversando sobre nada. O trânsito. O trabalho dele no dia seguinte. Helena falava mais rápido que o normal e ria de coisas que não tinham graça. Caio percebeu e, sem dizer nada, tirou a taça da mão dela e colocou na mesa.
"A gente pode só ficar conversando a noite inteira", ele disse para ela. "Sério."
"Eu sei", ela disse.
"Você quer?"
Ela olhou para mim. Eu estava parado perto da janela, com a taça na mão. Fiz que não com a cabeça, bem devagar, e sorri.
Ela olhou de volta para ele.
"Não", disse. "Eu não quero conversar."
⁂
Eu sentei na poltrona. O couro estava frio. Do outro lado do quarto, a três metros de mim, minha esposa estava sendo beijada.
Era diferente da calçada. Ali não tinha poste nem pressa nem gente passando. Ele beijava devagar, como ela tinha dito, uma mão na nuca, a outra descendo pelas costas até a curva da bunda. Ela ficou na ponta dos pés de novo. Ele achou o zíper do vestido e desceu, e o som do zíper no quarto silencioso foi a coisa mais alta que eu já ouvi.
O vestido caiu. Ela estava de lingerie preta, uma que eu não conhecia. Tinha comprado para ele, pensei, e o ciúme veio rápido e quente e foi embora logo, empurrado por uma onda de tesão tão forte que eu precisei apertar os braços da poltrona.
Ele se afastou para olhar para ela. Só olhou. E Helena, que apagava a luz para se trocar na minha frente nos primeiros anos de casamento, ficou parada, de lingerie, deixando outro homem olhar.
"Você é linda", ele disse.
Ela olhou para mim. "Ele acha que eu sou linda", disse, quase como pergunta.
"Você é", eu respondi, e minha voz saiu rouca.
Caio se ajoelhou na frente dela. Beijou a barriga dela, o umbigo, a borda da calcinha. Desceu a calcinha devagar, e ela se segurou nos ombros dele e tirou um pé, depois o outro. Ele abriu as coxas dela com as mãos, ali, em pé no meio do quarto, e pôs a boca nela.
Helena jogou a cabeça para trás e gemeu.
Eu tinha imaginado aquilo mil vezes. Nenhuma das mil vezes se parecia com aquilo. Na imaginação, eu nunca tinha ouvido. O som da língua dele. O som da respiração dela mudando, de curta para longa, de longa para um soluço. O barulho das unhas dela arranhando a camiseta dele. E o cheiro, que chegou até a poltrona depois de um tempo, o cheiro dela excitada, que eu conhecia, misturado com um perfume que não era o meu.
Abri a calça. Ninguém me mandou. Ninguém precisava.
Ela me viu fazer isso. Viu minha mão se mexendo. E com a boca do outro homem entre as pernas dela, olhando para o marido se tocando, ela gozou. Em pé. As pernas tremendo tanto que ele precisou segurar.
⁂
Ele a levou para a cama. Tirou a camiseta e a calça, e eu vi pela primeira vez o homem inteiro. Era maior que eu. Não muito, mas era, e mais grosso. Helena viu também. Os olhos dela foram dele para mim, rápidos, e havia uma pergunta neles, a mesma do quarto, onze dias antes: e se for?
Eu sorri para ela. Agora você sabe.
Ele pegou a camisinha na mesa de cabeceira, abriu, colocou. Regra um. Helena acompanhou cada gesto com os olhos arregalados.
"Você tá bem?", ele perguntou para ela.
"Tô."
Ele olhou para mim. "E você?"
Era estranho ser perguntado. Era estranho e bonito.
"Tô", eu disse. "Vai."
Ele deitou em cima dela. Ela abriu as pernas, e ele se posicionou, e ficou parado por um segundo, a ponta encostada nela, sem entrar. Esperando.
Helena virou o rosto para mim. Os olhos dela estavam molhados, não de choro. De outra coisa.
"Rodrigo", ela disse. "Olha."
Eu olhei.
Ele entrou devagar. Eu vi tudo. Vi a boca dela abrir sem som. Vi as mãos dela agarrando o lençol. Vi o corpo dela se abrindo para ele, recebendo, centímetro por centímetro, e vi o momento exato em que ele chegou no fundo, porque ela soltou um gemido que eu nunca tinha arrancado dela. Um gemido baixo, comprido, quase de dor, quase de alívio.
"Meu Deus", ela disse. "Meu Deus, Rodrigo."
"Tô aqui."
"Ele é…"
"Eu sei."
"Ele é muito…"
"Fala."
"Ele me enche inteira." Ela segurou o rosto de Caio com as duas mãos, mas continuou olhando para mim. "Ele me enche de um jeito que…"
Ela não terminou a frase. Ele começou a se mexer, e ela não conseguiu mais falar.
⁂
Eu não sei quanto tempo durou. Meia hora, talvez mais. O tempo naquele quarto não funcionava direito. Eu me lembro de pedaços.
Lembro dele virando ela de quatro e ela olhando para a janela, para a cidade, e dizendo "todo mundo pode ver", e ele dizendo "deixa", e ela rindo e gemendo.
Lembro dela pedindo mais forte. Minha esposa pedindo mais forte para outro homem, com a voz que ela usava para pedir para eu buscar o pão.
Lembro de um momento em que ele parou, ofegante, e ela virou para mim, despenteada, suada, linda como eu nunca tinha visto, e disse: "Vem cá."
Eu fui. Sentei na beirada da cama. Ela pegou minha mão e levou até onde os dois estavam ligados. Eu senti. Senti ele entrando e saindo dela, molhado, quente, a borda da camisinha, a pele dela esticada em volta dele.
"Sente", ela disse. "Sente o que ele faz comigo."
E me beijou. Com ele dentro dela. A boca dela tinha gosto de vinho e de suor, e ela gemia na minha boca cada vez que ele empurrava.
"Eu te amo", ela disse no meu ouvido. "Eu te amo tanto. Obrigada."
Foi aí que eu entendi. Não era sobre ele. Nunca tinha sido. Era sobre aquele "obrigada". Era sobre ela poder ser tudo aquilo e voltar para mim.
Ela gozou de novo com a minha mão nela e ele dentro dela. Ele gozou logo depois, com um gemido abafado no pescoço dela. E eu, sem me tocar, sem nada, só olhando a cara da minha mulher, gozei dentro da calça como um adolescente.
⁂
Depois, o quarto ficou muito quieto. Caio foi para o banheiro e deixou a porta encostada, e a gente ouviu o chuveiro. Helena ficou deitada de costas, nua, olhando o teto. Eu deitei do lado dela, ainda de roupa.
"Você gozou", ela disse, olhando a mancha na minha calça. E riu. Riu como uma menina, cobrindo a boca. "Sem encostar."
"Sem encostar."
Ela parou de rir. Ficou me olhando.
"Rodrigo, eu preciso te dizer uma coisa e eu não sei se é ruim."
"Regra quatro."
"Eu nunca gozei assim. Duas vezes. Com ninguém. Nem com você."
Esperei a dor. Ela veio, pequena, uma pontada. Mas veio junto outra coisa, maior, e eu não soube dar nome.
"Eu sei", eu disse. "Eu vi."
"Isso te machuca?"
"Um pouco."
"E mesmo assim…"
"E mesmo assim eu quero ver de novo."
Ela fechou os olhos. Uma lágrima desceu pelo canto até a orelha.
O chuveiro desligou. Caio saiu do banheiro de toalha, o cabelo molhado. Parou na porta, olhando para nós dois deitados na cama dele, e por um segundo pareceu que ele era o intruso.
"Eu posso dormir no sofá", ele disse. "Ou vocês podem ir. Como quiserem."
Helena abriu os olhos. Olhou para ele, depois para mim.
"Fica", ela disse para ele. Depois, para mim, mais baixo: "Fica também. Os dois. Eu quero acordar com os dois."
Regra nove, pensei. Se um de nós sentir que está perdendo o outro, a gente para.
Eu não sentia que estava perdendo. Mas pela primeira vez, ali, com a cidade acesa lá embaixo e minha esposa nua entre mim e outro homem, eu não tinha certeza absoluta do que estava ganhando.
Tirei a camisa e deitei.
Gostou? Apoie quem escreveu.
0 comentários
Cadastre-se grátis para comentar
Já tenho conta