✒ Escrito por humanoContemporâneo · 8 minConto #96

Corno por escolha: o que minha esposa casada decidiu depois (Parte 4)

por Noa Bruma

A mensagem apareceu na tela do celular dela numa terça, enquanto ela estava no banho. Eu não fui procurar. O celular estava na pia da cozinha, virado para cima, e vibrou do meu lado enquanto eu cortava cebola.

Ainda sinto teu cheiro na camisa. Não lavei.

Era do Caio. Fazia dezenove dias do hotel.

Fiquei olhando para a tela até ela apagar sozinha. Depois continuei cortando a cebola, e o olho ardeu, e eu deixei arder, porque era uma desculpa boa.

⁂

Os primeiros dias depois do hotel tinham sido os melhores do nosso casamento. Eu não exagero. A gente transava toda noite. Ela me contava de novo, cada detalhe, e eu pedia mais, e ela inventava ou lembrava, eu nunca sabia direito, e não importava. Ela me chamava de corninho no ouvido e eu ria. Ela cantava no banho. Ela chegou do trabalho numa sexta com flores para mim. Flores. Quinze anos de casamento e ninguém nunca tinha me dado flores.

Na segunda semana, ela começou a deixar o celular virado para baixo.

Não foi nada grande. Eu podia ter imaginado. Mas eu conhecia minha esposa, e Helena nunca tinha virado o celular para baixo na vida. Ela era advogada: tinha horror a segredo, porque passava o dia vendo o que segredo fazia com as pessoas.

E agora havia uma camisa que não tinha sido lavada.

Regra quatro: nada escondido. Ela me contaria tudo.

Ela não tinha me contado isso.

⁂

Esperei ela sair do banho. Ela veio de toalha na cabeça, cheirando a creme, e me abraçou por trás no fogão.

"Que cheiro bom."

"Cebola."

"Você." Ela beijou meu pescoço. Depois viu o celular. Vi ela ver. O corpo dela ficou parado por meio segundo.

"Ele mandou mensagem", eu disse, sem virar. "Tava aí. Eu não abri. Apareceu."

Ela soltou o abraço. Pegou o celular. Leu.

"Rodrigo…"

"Há quanto tempo vocês tão conversando?"

Ela sentou na cadeira, a mesma da cozinha, a mesma de onde tudo tinha começado. Ficou com o celular na mão.

"Desde a semana passada. Ele mandou foto do hotel. Eu respondi. Aí ele mandou outra coisa. Aí eu respondi de novo."

"Fotos de quê?"

"Da janela. Da cidade. E uma dele."

"Pelado?"

"Não. De camisa. Sem camisa." Ela fechou os olhos. "Sem nada, uma. Eu não pedi."

Desliguei o fogo. Sentei na frente dela.

"Por que você não me contou?"

E ela disse a coisa que eu sabia que ela ia dizer, e que mesmo assim doeu como se não soubesse.

"Porque era meu."

⁂

Ela explicou devagar, com aquele jeito de quem monta uma defesa e ao mesmo tempo se acusa.

"No hotel, tudo era nosso. Você tava lá. Você via. Era um presente que eu te dava e que você me dava. Mas depois… depois eu fiquei pensando nele no trabalho. Sozinha. Sem você. E eu gostei de ter uma coisa que era só minha. Uma coisa que a esposa certinha não tinha."

"Você tá apaixonada por ele?"

"Não." Rápido demais. Depois, mais devagar: "Não. Eu tô apaixonada por quem eu fui naquele quarto. E ele é a única pessoa além de você que viu essa mulher."

Fiquei quieto. Lá fora, um ônibus passou e fez a janela tremer.

"Eu quebrei a regra quatro", ela disse. "Eu sei. Se você quiser parar, a gente para. Regra nove. Eu bloqueio ele agora, na sua frente."

Ela já tinha o dedo em cima do perfil dele.

Eu poderia ter dito bloqueia. Era o mais seguro. A gente ia voltar a ser o casal da conta de luz, com uma lembrança quente de hotel para usar de vez em quando no escuro. Muita gente vivia assim. Talvez fosse melhor.

Mas eu lembrei do "obrigada" no meu ouvido. E lembrei da cara dela cantando no banho.

"Não bloqueia", eu disse.

Ela levantou os olhos.

"Não bloqueia. Mas me mostra."

⁂

Ela me mostrou tudo. Sentamos no sofá e ela rolou a conversa desde o começo, e eu li cada mensagem. Eram mais bobas do que eu imaginava, e mais quentes também. Ele dizia que pensava nela fotografando noivas. Ela dizia que tinha ficado dolorida dois dias e que tinha gostado. Ele perguntava de mim. Isso me surpreendeu. Em quase toda conversa, em algum momento, ele perguntava: e o Rodrigo, tá bem?

"Ele gosta de você", Helena disse.

"Ele gosta de te comer."

"Também." Ela sorriu, a primeira vez naquela noite. "Mas ele disse que nunca viu um marido olhar pra mulher como você me olhou naquele quarto. Disse que dá até inveja."

Eu ri, sem querer.

Chegamos na foto. Ele, nu, no espelho do banheiro do hotel. Duro. Helena desviou o olhar e depois voltou, me observando.

"Você ficou com tesão quando recebeu?", perguntei.

"Fiquei."

"E fez o quê?"

Ela ficou vermelha. Quinze anos e ela ainda ficava vermelha.

"Me toquei no banheiro do escritório."

Meu pau endureceu de uma vez. Ela viu. Claro que viu.

"Olha você", disse, baixinho. "Eu achando que você ia chorar e você aí."

"Eu também ia chorar", admiti.

"Os dois podem acontecer junto. Eu aprendi isso naquele quarto."

⁂

Reescrevemos as regras naquela noite. Na mesma folha, que ela tinha guardado numa gaveta, amassada. Ela riscou a regra quatro e escreveu do lado, com a letra inclinada:

4. Ela pode ter uma conversa só dela. Mas uma vez por semana ela conta, e ele pode ler o que quiser.

E embaixo, uma regra nova, que eu ditei:

10. Ela me conta quando ficar com tesão por ele. Na hora. Uma mensagem só: "agora".

"Pra quê?", ela perguntou, a caneta parada.

"Pra eu saber que naquele minuto você tá molhada pensando em outro homem. E que mesmo assim você vai voltar pra casa."

Ela escreveu. Depois largou a caneta e subiu no meu colo.

"Me fala uma coisa", disse, os braços no meu pescoço. "Você ainda é meu corno?"

"Por escolha", eu disse.

"Por escolha", ela repetiu, como quem assina um contrato. E me beijou.

Transamos no sofá, devagar, sem pressa, de um jeito que lembrava os primeiros anos e ao mesmo tempo não lembrava nada. Ela ficou por cima. No meio, pegou o celular, abriu a conversa com o Caio, e escreveu uma palavra, me mostrando a tela antes de enviar.

Agora.

"Ele vai achar que é pra ele", eu disse.

"É pra vocês dois." Ela enviou e jogou o celular nas almofadas. "É sempre pra vocês dois."

Ela se mexeu em cima de mim, e eu segurei o quadril dela, e o celular vibrou do nosso lado, e vibrou de novo, e nenhum dos dois olhou. Ela gozou com a testa encostada na minha, e eu gozei dentro dela, e ficamos ali, colados, respirando o mesmo ar.

⁂

Na sexta, ela chegou do trabalho e me entregou o celular sem dizer nada. Era a nossa "uma vez por semana". Li a conversa enquanto ela tirava os sapatos.

A última mensagem do Caio era longa.

Tenho um casamento para fotografar em Paraty daqui a três semanas. A pousada me deu um chalé grande, dois quartos. Fico três noites. Seria uma honra receber vocês dois. Os dois. E dessa vez, se o Rodrigo quiser, ele não precisa ficar só na poltrona.

Levantei os olhos. Helena estava encostada na porta do quarto, descalça, me olhando.

"Ele não precisa ficar só na poltrona", repeti. "O que ele quer dizer com isso?"

"Eu perguntei." Ela cruzou os braços. "Ele disse que quer que você participe. Comigo. Junto com ele. Se você quiser."

"Os três?"

"Os três."

Fiquei olhando para a mensagem. Paraty. Três noites. Um chalé com dois quartos, e minha esposa no meio.

"E você?", perguntei. "O que você quer?"

Ela atravessou a sala e sentou do meu lado.

"Eu quero ver você ver. E eu quero, uma vez, ter os dois homens que me olharam daquele jeito ao mesmo tempo." Ela pegou minha mão. "Mas a regra seis continua. Os dois concordam ou não tem."

Pensei no hotel. Pensei na poltrona de couro, fria, e no momento em que ela me chamou para a cama. Vem cá. Pensei em como tinha sido sentir os dois ligados, com a minha mão. Pensei em quanto eu queria não estar só olhando, e em quanto eu tinha medo de, estando dentro, deixar de ver.

"Deixa eu pensar", eu disse.

"Onze dias?", ela sorriu.

"Menos."

Ela beijou minha testa e foi para o banho. Eu fiquei sozinho na sala com o celular dela na mão, a mensagem aberta, o cursor piscando na caixa de resposta.

Escrevi uma palavra. Apaguei. Escrevi de novo.

Depois, sem esperar os onze dias, sem chamar minha esposa, sem ter certeza nenhuma do que estava fazendo, eu apertei enviar.

No chuveiro, ela começou a cantar.

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