Minha ex-madrasta e o enteado que voltou de Lisboa (Parte 1)
Eu tinha arrumado o quarto de hóspedes três vezes. Troquei a roupa de cama, tirei o pó da estante, coloquei uma toalha nova dobrada em cima da cômoda com um sabonete do lado, como em hotel. Depois achei que o sabonete era demais e tirei. Depois achei que era indelicado e coloquei de volta.
Tinha 42 anos e estava nervosa como uma adolescente por causa de um rapaz que eu tinha conhecido aos 19, quando ele já era um homem feito, e que eu não via havia quatro anos.
Lucas era filho do Augusto. Eu fui casada com o Augusto por cinco anos. Quando a gente casou, o Lucas tinha 19 e já estava na faculdade, morando numa república em Campinas. Eu nunca fui mãe dele, nem quis ser. Ele tinha mãe, a Sônia, que morava em Curitiba e ligava todo domingo. Eu era a mulher do pai dele. A madrasta, no papel. Na prática, uma espécie de tia simpática que fazia lasanha quando ele vinha no fim de semana e que discutia livros com ele na varanda enquanto o Augusto via futebol.
Aos 20, ele foi fazer mestrado em Lisboa e ficou por lá. Aos 21 dele, eu e o Augusto nos separamos. Foi um divórcio sem drama, de dois adultos que tinham percebido que queriam vidas diferentes. O Augusto foi morar em Recife com uma mulher que conheceu num congresso. Eu fiquei com o apartamento de Pinheiros e um gato que morreu no ano seguinte.
O Lucas continuou me mandando mensagem. Não muito. No meu aniversário, no Natal, às vezes uma foto de uma livraria em Lisboa com a legenda "você ia gostar dessa". E, três semanas antes, uma mensagem mais longa:
Renata, vou passar duas semanas em SP para uma entrevista de emprego. Meu pai tá em Recife e minha mãe em Curitiba. Sei que é estranho pedir, mas você me deixaria ficar aí? Prometo lavar a louça.
Eu disse que sim antes de pensar. Depois pensei. E continuei dizendo que sim.
⁂
Ele chegou numa quinta à noite, de Uber, com uma mala grande e uma mochila nas costas. Eu abri a porta e fiquei parada.
O rapaz magro de 20 anos que eu tinha deixado no aeroporto tinha virado outra coisa. Estava mais largo nos ombros, com uma barba curta e cuidada, o cabelo mais comprido, preso atrás. Usava um casaco de lã escuro que tinha cara de Europa. Tinha 24 anos e parecia ter trinta. O rosto ainda era o mesmo, os olhos do pai, castanhos, um pouco caídos nos cantos. Mas o jeito de me olhar era de outro homem.
"Renata", ele disse, e sorriu.
"Lucas. Meu Deus. Você cresceu."
"Eu já era grande quando você me conheceu."
"Você ficou maior."
Ele riu e me abraçou. Foi um abraço normal, de quem não se vê há muito tempo, mas durou um segundo a mais. Ele cheirava a avião e a um perfume amadeirado, e eu senti os braços dele em volta das minhas costas e me afastei rápido demais, ajeitando o cabelo.
"Entra. Você tá com fome? Eu fiz lasanha."
Ele parou na porta. Me olhou com uma cara que eu não soube ler.
"Você fez lasanha", ele repetiu.
"Era o que você comia quando vinha."
"Eu sei." A voz dele ficou mais baixa. "Eu lembro de tudo daquela época."
⁂
Jantamos na cozinha. Ele comeu duas vezes e elogiou a lasanha de um jeito que me deixou boba. Abri um vinho que eu guardava para uma ocasião que nunca chegava. Ele me contou de Lisboa: do mestrado em engenharia ambiental, do trabalho numa consultoria, de um apartamento em Alfama com o chão torto e uma vista para o Tejo. Da namorada portuguesa, a Inês, que tinha acabado em maio.
"Por quê?", perguntei.
"Ela queria que eu ficasse pra sempre. Eu não sabia se queria." Ele girou a taça. "E você? Tá com alguém?"
"Não."
"Desde o meu pai?"
"Uns casos. Nada sério." Bebi. "Quarenta e dois anos, Lucas. Os homens da minha idade querem mulher de trinta. Os de cinquenta querem mulher de trinta também."
"Os de vinte e quatro?"
Eu ri, achando que era piada. Ele não riu.
Fiquei sem graça e levantei para tirar os pratos.
⁂
Os primeiros dias foram tranquilos. Eu trabalhava em casa, sou tradutora, e ele saía cedo para as entrevistas e para ver os amigos da faculdade. À noite, a gente jantava junto e conversava. Ele lavava a louça, como prometeu. Eu secava. Ficávamos lado a lado na pia, nossos braços se encostando de vez em quando, e eu fingia que não reparava.
Reparava. Reparava em tudo. No jeito que ele dobrava a manga da camisa antes de lavar. No antebraço com veias aparentes. No cheiro do sabonete dele no banheiro de manhã, que ficava no ar quando eu entrava depois. Numa manhã de sábado, ele saiu do banho só de toalha na cintura, procurando o carregador do celular, e eu estava na sala, e ele parou, e eu parei, e por três segundos ninguém disse nada.
"Desculpa", ele disse. "Achei que você tava no quarto."
"Tudo bem."
Ele voltou para o banheiro. Eu fiquei sentada no sofá com o livro aberto na mesma página por meia hora, sentindo uma coisa que eu não sentia havia muito tempo, e com vergonha de sentir.
Ele é o filho do Augusto, eu dizia para mim mesma. Você foi madrasta dele.
E outra voz, mais baixa, respondia: Você casou com o pai dele quando ele já era adulto. Você não criou ele. Não tem uma gota do seu sangue nele. Você é divorciada. Ele tem 24 anos.
As duas vozes brigavam e eu não sabia qual era a minha.
⁂
Na quarta à noite, ele chegou da entrevista mais importante, numa empresa de energia, com uma garrafa de espumante.
"Passei", disse da porta. "Eles querem que eu comece em janeiro."
"Lucas! Que maravilha!"
Abracei ele. Dessa vez não me afastei rápido. Ele me levantou do chão e me girou, rindo, e eu ri também, e quando ele me pôs no chão a gente ficou com os rostos muito perto.
Abrimos o espumante. Depois um vinho. Depois outro. Sentamos no chão da sala, encostados no sofá, ouvindo um disco antigo de Elis que era meu e que ele lembrava.
"Você colocava esse disco quando eu vinha", ele disse.
"Você odiava."
"Eu fingia que odiava. Eu tinha 19 anos, não podia gostar de Elis Regina na frente da mulher do meu pai."
"E agora pode?"
"Agora eu posso tudo." Ele virou a cabeça e me olhou. "Ou quase."
O disco tocava "Atrás da Porta". Eu sabia a letra de cor. Fiquei olhando para ele, para os olhos castanhos meio caídos, para a boca, e não consegui desviar.
"Lucas", eu disse. "O que você tá fazendo?"
"Nada. Ainda."
"Ainda?"
Ele respirou fundo. Colocou a taça no chão.
"Renata, eu vou te falar uma coisa e você pode me mandar dormir no hotel amanhã. Tá bom?"
Meu coração começou a bater na garganta.
"Fala."
"Quando você casou com meu pai, eu tinha 19 anos e achei você a mulher mais interessante que eu já tinha conhecido. Não do jeito errado. Eu juro. Era admiração. Você lia livro em inglês na varanda. Você brigava com ele sobre política e ganhava. Você me tratava como adulto quando ninguém tratava." Ele passou a mão no cabelo. "Aí eu fui pra Lisboa e fiquei quatro anos sem te ver. E eu namorei, e terminei, e namorei de novo. E toda vez que alguma mulher me interessava de verdade, eu percebia que ela tinha alguma coisa sua. O jeito de rir. O jeito de discutir. E eu achava que era coisa da minha cabeça, até eu chegar aqui e você abrir a porta."
Eu não conseguia falar.
"Eu sei que é estranho", ele continuou. "Você foi casada com meu pai. Você foi minha madrasta, mesmo que só no papel. Eu sei tudo isso. Mas eu não sou mais o garoto que vinha comer lasanha no fim de semana. E você não é mais mulher do meu pai." Ele me olhou. "E eu tô com muita vontade de te beijar desde quinta-feira."
⁂
O silêncio durou a música inteira. Elis cantou sobre se arrastar atrás da porta, e eu fiquei olhando para aquele homem de 24 anos sentado no meu chão, e pensei em todos os motivos para dizer não.
O Augusto. O que as pessoas iam dizer. A diferença de idade. A palavra madrasta, que eu odiava e que ia ficar grudada em mim. O medo de ele acordar arrependido e voltar para Lisboa e nunca mais mandar foto de livraria.
E pensei em todos os motivos para dizer sim, e eles eram só um: eu queria.
"Lucas", eu disse. "Se a gente fizer isso, não tem volta. Você entende?"
"Entendo."
"Você vai ser sempre o filho do meu ex-marido."
"E você vai ser sempre a minha ex-madrasta." Ele sorriu, triste e bonito. "Eu tenho 24 anos, Renata. Eu sei o que eu quero. A pergunta é se você quer."
Eu me inclinei e beijei ele.
⁂
Foi um beijo lento. Assustado, no começo, como se nós dois estivéssemos esperando alguém entrar na sala e acender a luz. Ninguém entrou. Ele pôs a mão no meu rosto, com cuidado, e abriu a boca, e eu senti o gosto do vinho e de uma coisa que era só dele. A barba arranhou meu queixo. Fazia tanto tempo que ninguém me beijava assim, com tanta atenção, que eu tive vontade de chorar.
Ele me puxou para o colo dele. Eu fui. Sentei de frente, com as pernas em volta do quadril dele, a saia subindo nas coxas. Senti ele duro debaixo de mim, através do jeans, e soltei o ar de um jeito que não era respiração.
"Você tá…", eu disse.
"Desde quinta-feira", ele repetiu, e riu na minha boca.
Ele beijou meu pescoço. Desceu até a gola da blusa e parou, me olhando.
"Posso?"
Eu mesma tirei a blusa. Fiquei de sutiã no colo dele, com a luz do abajur da sala, e por um segundo tive vergonha. Tinha 42 anos. O corpo não era mais o de 30. Tinha estrias no quadril, uma cicatriz de apendicite, os seios mais baixos do que um dia foram.
Ele olhou para mim como se eu fosse a coisa mais bonita que ele já tinha visto.
"Renata", ele disse, e a voz falhou. "Você não tem ideia."
Abriu o sutiã. Beijou meus seios devagar, um de cada vez, a boca quente, a língua rodeando o bico até eu agarrar o cabelo dele e gemer. A mão dele subiu pela minha coxa, por baixo da saia, e parou na borda da calcinha.
"Me fala se você quer que eu pare", ele disse.
"Não para."
Ele me tocou por cima da calcinha. Eu estava encharcada, e ele sentiu, e soltou um som rouco contra o meu seio. Afastou o tecido e me tocou de verdade, os dedos deslizando, explorando, achando o lugar certo com uma facilidade que me fez pensar, por um segundo, em quantas mulheres em Lisboa tinham ensinado aquilo a ele, e depois parar de pensar em qualquer coisa.
Eu me mexi contra a mão dele. Com o disco da Elis tocando, no chão da minha sala, no colo do meu ex-enteado, eu me mexi sem vergonha nenhuma, e ele me olhava, e eu olhava para ele, e quando ele pôs dois dedos dentro de mim e o polegar no clitóris, eu gozei agarrada nos ombros dele, a testa na testa dele, dizendo o nome dele baixinho como quem reza.
⁂
Ficamos parados muito tempo. Eu ainda no colo dele, sem blusa, tremendo um pouco. Ele com a mão nas minhas costas, fazendo círculos.
"Você tá bem?", ele perguntou.
"Não sei." Eu ri, nervosa. "Eu acabei de gozar no colo do filho do Augusto."
"Do ex-enteado", ele corrigiu, sorrindo. "Vinte e quatro anos. Engenheiro ambiental. Empregado a partir de janeiro."
"Para."
"Não paro."
Eu sentia ele ainda duro debaixo de mim. Pus a mão ali, por cima do jeans. Ele fechou os olhos.
"Renata. Hoje não."
"Por quê?"
"Porque você bebeu. Eu bebi. E eu quero que, quando acontecer, você tenha certeza absoluta. Que você acorde no dia seguinte e não ache que foi o vinho." Ele abriu os olhos. "Eu espero. Eu esperei quatro anos sem saber que tava esperando. Posso esperar até amanhã."
Fiquei olhando para ele, com a mão parada no jeans, e senti alguma coisa se partir no meu peito. Não de tristeza. De outra coisa que eu não ousei nomear.
Saí do colo dele. Peguei a blusa. Ele levantou e me deu um beijo na testa, como quem dá boa-noite, e foi para o quarto de hóspedes.
Eu fiquei na sala com o disco rodando no fim, aquele chiado de agulha no vazio.
Às duas da manhã, deitada na minha cama sem conseguir dormir, ouvi a porta do quarto de hóspedes abrir. Ouvi os passos dele no corredor, devagar, descalços no taco. Ouvi ele parar na frente da minha porta.
E ficar ali, parado, sem bater.
Eu me sentei na cama, no escuro, com o coração disparado, e olhei para a fresta de luz debaixo da porta, onde a sombra dos pés dele não se mexia.
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