Minha ex-madrasta abriu a porta para o enteado (Parte 2)
Contei até trinta. Depois até sessenta. A sombra dos pés dele continuava na fresta de luz, imóvel, e eu continuava sentada na cama com o lençol puxado até o peito, como se o lençol fosse resolver alguma coisa.
Ele não ia bater. Eu sabia disso como sabia meu próprio nome. Ele tinha dito, na sala: eu quero que você tenha certeza absoluta. Se ele batesse, a decisão seria dele. Se ele fosse embora, a decisão seria minha, mas seria um não. Ele estava ali parado para que eu tivesse que escolher abrir.
Eu poderia não abrir. Ele voltaria para o quarto de hóspedes. De manhã, a gente tomaria café fingindo que tinha sido o vinho. Ele iria embora em dez dias, voltaria em janeiro para o emprego novo, alugaria um apartamento em outro bairro, e a gente se veria de vez em quando num aniversário, sem nunca falar daquela noite. Eu teria 43, depois 44, depois 50. Ia lembrar da mão dele debaixo da minha saia nos dias de chuva.
Levantei.
O taco estava frio debaixo dos meus pés. A camisola era velha, de algodão, com um rasgo pequeno na barra. Pensei em trocar. Não troquei. Pus a mão na maçaneta e senti, do outro lado, ele prender a respiração.
Abri.
⁂
Ele estava de bermuda e camiseta, descalço, o cabelo solto pela primeira vez, caindo nos ombros. Tinha os olhos vermelhos de quem também não tinha dormido.
"Eu não ia bater", ele disse.
"Eu sei."
"Eu ia ficar mais cinco minutos e voltar."
"Eu sei."
"Renata, eu…"
"Lucas." Eu segurei a mão dele. "Eu não bebi mais nada. São duas da manhã. Eu tô sóbria e eu tenho certeza. Entra."
Ele não se mexeu por um segundo. Depois entrou, e eu fechei a porta atrás dele, e a gente ficou parado no escuro do meu quarto, a centímetros um do outro, com a luz do poste da rua entrando pela persiana em listras.
"Você tem certeza mesmo?", ele perguntou, baixinho. "Porque se você tiver qualquer dúvida…"
"Eu tenho mil dúvidas", eu disse. "Sobre o que vai acontecer depois. Sobre o seu pai. Sobre o que as pessoas vão dizer. Mas eu não tenho nenhuma dúvida de que eu quero você agora."
Ele soltou o ar como quem estava segurando havia horas. Pôs as duas mãos no meu rosto e me beijou.
⁂
Foi diferente da sala. Na sala tinha vinho e Elis e a surpresa. No quarto, tinha só a gente, sóbrios, sabendo exatamente o que estávamos fazendo. Ele me beijava devagar, quase com reverência, e eu sentia as mãos dele tremendo um pouco nas minhas bochechas. Isso me deu coragem. Ele também estava com medo.
Puxei a camiseta dele pela cabeça. Ele tinha o peito liso, os ombros largos de quem nadava, uma tatuagem pequena no lado da costela que eu não conhecia: uma andorinha.
"Lisboa", ele disse, quando viu eu olhando. "Fiz no primeiro inverno. Achei que ia voltar logo pro Brasil. Andorinha sempre volta."
"E voltou."
"Voltou."
Passei o dedo na andorinha. Ele arrepiou inteiro.
Ele tirou minha camisola pelos ombros. Ela escorregou até o chão e eu fiquei nua na frente dele, de calcinha só. Ele não disse nada. Só olhou, demorado, como na sala. Depois se ajoelhou na minha frente, ali no meio do quarto, e beijou minha barriga. A cicatriz da apendicite. As estrias do quadril, uma por uma, como quem lê um texto.
"Lucas", eu disse, com a voz embargada. "Você não precisa…"
"Eu quero conhecer tudo", ele disse contra a minha pele. "Cada pedaço que eu não podia olhar."
Desceu minha calcinha. Me deitou na cama com cuidado, abriu minhas pernas e pôs a boca em mim.
⁂
O Augusto nunca tinha gostado de fazer isso. Fazia quando eu pedia, rápido, como quem cumpre tarefa. Os homens depois dele faziam por educação. O Lucas fez como se aquilo fosse o motivo de ele ter atravessado um oceano.
Ele foi devagar. A língua larga e macia, subindo e descendo, sem pressa. Depois mais firme, rodeando o clitóris, chupando de leve. Ele prestava atenção. Quando eu gemia mais alto, ele repetia. Quando eu apertava o lençol, ele diminuía para me deixar à beira, e depois voltava. Eu me sentia lida, traduzida. Logo eu, que passava a vida traduzindo os outros.
"Lucas. Lucas, eu vou…"
"Vai", ele disse, sem tirar a boca. "Vai, Renata."
Gozei com as coxas em volta da cabeça dele, as mãos no cabelo comprido, as costas arqueadas fora da cama. Gozei mais forte do que na sala, mais forte do que eu me lembrava de ter gozado em anos, e ele continuou até eu empurrar a cabeça dele, sensível demais, rindo e chorando.
Ele subiu e deitou do meu lado. A boca brilhava. Eu beijei ele e senti meu gosto, e pensei: esse é o filho do homem com quem eu fui casada, e ele está com o meu gosto na boca, e em vez de culpa veio uma onda de tesão tão forte que eu virei e montei em cima dele.
⁂
Tirei a bermuda dele. Ele estava duro, grosso, a ponta molhada. Segurei na mão e ele fechou os olhos e gemeu.
"Você tem camisinha?", perguntei.
"Na mochila. No outro quarto."
"Vai buscar."
Ele foi. Correndo, nu, pelo corredor, e eu ri sozinha na cama. Voltou com a caixa inteira e eu ri mais.
"Otimista", eu disse.
"Previdente." Ele se deitou de novo. "Eu comprei no aeroporto. Pensei que, se não usasse, pelo menos não ia passar vergonha."
"Você comprou pensando em mim?"
Ele ficou sério. "Eu comprei pensando que eu não ia ter coragem. Mas queria estar pronto se tivesse."
Coloquei a camisinha nele com cuidado. Depois me posicionei em cima, com os joelhos dos dois lados do quadril dele, e fiquei parada um segundo, olhando para baixo. Para o rosto dele na luz listrada do poste. Para os olhos castanhos que eram do pai dele e que agora me olhavam de um jeito que o pai nunca olhou.
"Olha pra mim", eu disse.
"Eu tô olhando."
Desci devagar.
Ele me preencheu de um jeito que me tirou o ar. Fazia muito tempo. E era ele. Fiquei parada quando ele estava inteiro dentro de mim, as mãos espalmadas no peito dele, sentindo ele pulsar, sentindo o coração dele batendo debaixo da minha palma, rápido como o meu.
"Renata", ele disse, e foi só isso. Meu nome. Como uma pergunta e uma resposta.
Comecei a me mexer.
⁂
Eu não sabia que ainda sabia fazer aquilo. Não daquele jeito. O corpo lembrou antes de mim. Subi e desci devagar, rebolando, e ele segurou meu quadril e me deixou comandar. Depois sentou na cama, comigo ainda em cima, e me abraçou, e a gente ficou assim, colados, peito com peito, eu me mexendo no colo dele como na sala, mas agora com ele dentro.
Ele beijava meu pescoço. Mordia de leve. Dizia coisas no meu ouvido, em português de Portugal às vezes, sem perceber. És tão boa. Que saudades disto. Que saudades de ti. Saudade de uma coisa que nunca tinha acontecido.
"Fala mais", eu pedi.
"Eu sonhava com você", ele disse. "Em Lisboa. Eu acordava com vergonha. Achava que era errado."
"E agora?"
"Agora eu tô dentro de você e não tem nada de errado." Ele me olhou. "Nada, Renata."
Eu acreditei. Naquele momento, com ele me olhando assim, eu acreditei.
Ele me virou na cama, devagar, sem sair de mim. Ficou por cima. Segurou minhas mãos acima da minha cabeça, os dedos entrelaçados, e começou a se mexer mais forte. A cama velha rangeu. A cabeceira bateu na parede. Eu não me importei. Enrolei as pernas na cintura dele e pedi mais, e ele deu mais, fundo, firme, o suor pingando do queixo dele no meu peito.
Gozei de novo, olhando para ele. Ele viu meu rosto mudar e não aguentou: gozou logo depois, enterrado em mim, com um gemido longo e rouco, a testa encostada na minha, dizendo meu nome como quem se afoga.
⁂
Ficamos deitados muito tempo. A luz do poste continuava entrando pela persiana. Um cachorro latiu longe. O relógio da cozinha marcava as horas com um tique que eu nunca tinha notado.
Ele estava de bruços, com o rosto virado para mim. Eu passava o dedo na andorinha.
"Eu preciso te perguntar uma coisa", eu disse.
"Pergunta."
"Isso é só por agora? Duas semanas e você volta pra Lisboa e a gente finge que não aconteceu?"
Ele demorou para responder.
"Eu volto pra Lisboa em dez dias. Pra entregar o apartamento e me despedir do trabalho. Em janeiro eu tô aqui de vez." Ele me olhou. "O que eu quero é que não seja só por agora. Mas eu não sei o que você quer."
"Eu também não sei."
"Então a gente descobre."
Eu ri, cansada. "Você fala como se fosse simples."
"Não é simples. É verdade. São coisas diferentes."
Ficamos quietos. Ele pegou minha mão e beijou os dedos, um por um.
"E o seu pai?", eu disse, baixinho. Era a pergunta que estava no quarto desde que ele entrou.
Ele fechou os olhos.
"Eu não sei. Ele tá feliz em Recife. Casado de novo. Ele não tem mais nada a ver com a sua vida." Ele abriu os olhos. "Mas é meu pai. E ele vai achar que eu fiz isso pra atingir ele. E não fiz."
"Eu sei que não."
"Você sabe. Ele não vai saber."
Eu ia responder quando o celular dele vibrou na mesinha de cabeceira. Ele tinha deixado lá quando voltou com as camisinhas. A tela acendeu no escuro, iluminando o teto.
Ele olhou. Ficou pálido.
"Que foi?"
Ele virou a tela para mim. Era uma mensagem. Quatro e dez da manhã.
Filho, mudança de planos. Tenho reunião em SP sexta e vou ficar até domingo. A Renata ainda mora em Pinheiros? Você tá ficando aí, né? Ela não vai se importar se eu passar pra jantar com vocês no sábado. Saudade de vocês dois. Pai.
Ficamos olhando a mensagem até a tela apagar sozinha. Depois ficamos no escuro, nus, lado a lado na minha cama, sem dizer nada.
Faltavam três dias para sábado.
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