✒ Escrito por humanoTabu · 9 minConto #99

Minha ex-madrasta, o enteado e o jantar com o pai dele (Parte 3)

por Noa Bruma

madrasta

Os três dias até sábado foram os mais estranhos da minha vida.

De dia, eu traduzia um manual técnico de turbinas eólicas e não entendia uma frase. Lucas saía para resolver papelada da empresa nova e voltava no fim da tarde. À noite, a gente fazia amor como se o mundo fosse acabar no sábado. Na quinta, no chão da sala, com o disco da Elis de novo. Na sexta de manhã, no chuveiro, antes de ele sair. Na sexta à noite, na mesa da cozinha, com a louça do jantar ainda suja do lado, e eu rindo porque um prato caiu e quebrou e ele não parou.

Era como se, sabendo que o pai dele ia sentar naquela mesa, a gente precisasse marcar cada lugar da casa antes.

"Isso é doentio", eu disse na sexta, deitada no peito dele, com cheiro de detergente na pele.

"O quê?"

"A gente transar em todo canto porque o seu pai vem."

Ele ficou quieto. Depois riu baixinho.

"Não é por causa dele. É por causa de nós. Depois de amanhã, alguma coisa muda. A gente não sabe o quê. Eu só quero lembrar de como foi antes."

⁂

No sábado de manhã, ele me perguntou se eu queria que ele contasse.

"Contasse o quê?"

"Pro meu pai. No jantar. Que a gente tá junto."

Eu estava passando café e derrubei pó no chão.

"Lucas, a gente tá junto há cinco dias."

"Seis."

"Seis dias. Você nem sabe o que é isso."

"Eu sei." Ele me olhou da mesa. "Eu sei exatamente o que é. Você que não sabe."

Eu fiquei com raiva. Uma raiva pequena e quente que eu reconheci como medo.

"Eu sei o que é, Lucas. É a coisa mais irresponsável que eu já fiz. Você tem 24 anos. Eu tenho 42. Eu fui casada com seu pai. Quando a gente se separou, ele chorou nessa cozinha. Naquela cadeira. E hoje ele vai sentar nela de novo e você quer contar pra ele que tá comendo a ex-mulher dele?"

Lucas ficou pálido. Eu me arrependi na hora. Mas não voltei atrás.

"Não é assim que eu diria", ele falou, baixo.

"É assim que ele vai ouvir."

Ele levantou. Foi até a janela. Ficou de costas para mim.

"Então você quer esconder."

"Eu quero tempo. Uma noite. Deixa ele vir, comer, ir embora. Depois a gente pensa."

Ele não respondeu. Pegou a jaqueta e saiu. Disse que ia correr no parque.

Eu fiquei na cozinha com o café frio e o pó no chão, chorando de um jeito que eu não chorava desde o divórcio.

⁂

Ele voltou às três. Suado, quieto. Entrou no banho sem falar comigo. Quando saiu, eu estava no quarto, sentada na cama, e ele parou na porta de toalha.

"Desculpa", ele disse.

"Eu que peço."

"Você tava certa. Sobre a forma. Não sobre o resto."

Ele sentou do meu lado. A água pingava do cabelo dele no lençol.

"Eu não vou contar hoje", ele disse. "Você tem razão, é muito cedo. Mas eu não vou fingir que sou só o filho que tá de passagem. Eu não consigo. Se ele perguntar, eu não minto."

"Ele não vai perguntar. Seu pai nunca percebe nada."

Lucas riu, triste. "Você conhece ele melhor que eu."

"Conheci." Eu peguei a mão dele. "Não conheço mais. Agora eu conheço você."

Ele me beijou. A toalha caiu. A gente fez amor de novo, no meio da tarde, com a luz forte da janela, devagar, sem pressa, quase em silêncio. Foi diferente das outras vezes. Tinha uma tristeza no meio, uma despedida antecipada de alguma coisa. Ele me olhava o tempo inteiro, como se estivesse decorando. E quando eu gozei, com ele dentro de mim, segurando meu rosto, ele disse "eu te amo" pela primeira vez.

Eu não respondi. Não consegui. Ele não cobrou.

⁂

O Augusto chegou às oito em ponto, como sempre. Tinha 61 anos agora. Estava mais magro, bronzeado de Recife, com o cabelo todo branco e uma camisa de linho que a mulher nova devia ter escolhido. Trouxe um vinho caro e um buquê de flores do campo.

"Renata!" Ele me abraçou na porta. Foi um abraço de ex-marido, afetuoso e distante. "Você tá ótima. Rejuvenesceu."

Atrás de mim, no corredor, Lucas tossiu.

"Pai."

"Filho!" Augusto passou por mim e abraçou o Lucas forte, batendo nas costas. "Engenheiro empregado! Sua mãe me contou. Que orgulho, meu Deus."

Fiquei olhando os dois abraçados no meu corredor. Tinham a mesma altura agora. Os mesmos olhos castanhos caídos. O pai tinha as mãos nas costas do filho, exatamente onde, três horas antes, eu tinha deixado marcas de unha.

Fui para a cozinha. Precisava respirar.

⁂

O jantar foi uma peça de teatro. Augusto falou de Recife, da Márcia, a mulher nova, de um projeto de pesquisa sobre mangue. Lucas falou da empresa de energia, de Lisboa, da Inês, que já não existia mais. Eu servi a lasanha, porque não sabia fazer outra coisa quando estava nervosa.

"Lasanha!", Augusto disse. "Que nem nos velhos tempos. O Lucas adorava."

"Ainda adora", eu disse, sem pensar.

Lucas me olhou por cima da taça. Eu senti o rosto queimar.

Augusto não percebeu. Nunca percebia. Comeu duas vezes, elogiou, abriu o vinho caro, contou uma história comprida sobre um caranguejo que entrou no laboratório. Riu sozinho. Eu e Lucas rimos junto, um segundo atrasados.

Por baixo da mesa, o pé do Lucas encostou no meu. Só encostou. Ficou. Eu não tirei.

Era uma loucura. Eu sabia. Meu ex-marido a um metro de mim, falando de mangue, e o filho dele com o pé descalço subindo devagar pela minha canela. Eu deveria ter recolhido a perna. Em vez disso, abri um pouco os joelhos debaixo da mesa e senti o pé dele subir até a minha panturrilha, quente, e parar.

"Renata, e você?", Augusto perguntou. "Tá saindo com alguém?"

O pé do Lucas parou.

Eu bebi um gole longo de vinho.

"Tô", eu disse.

Lucas ficou imóvel. Augusto sorriu.

"Que bom! Quem é? Eu conheço?"

"É recente", eu disse. "Ainda não sei o que vai virar."

"Mas ele é bom pra você?"

Eu olhei para o meu prato. Depois, sem conseguir evitar, olhei para o Lucas. Um segundo só.

"É", eu disse. "Ele é muito bom pra mim."

"Então pronto. Fico feliz." Augusto levantou a taça. "À Renata e ao misterioso."

Lucas levantou a taça também, devagar, com os olhos fixos nos meus.

"Ao misterioso", ele disse.

⁂

Depois da sobremesa, Augusto foi ao banheiro. Eu levei os pratos para a cozinha. Lucas veio atrás com as taças.

Assim que a porta da cozinha se fechou atrás dele, ele largou as taças na pia e me encostou na geladeira.

"Lucas, ele tá no banheiro…"

"Muito bom pra você", ele disse no meu ouvido, a voz rouca. "Você disse que eu sou muito bom pra você. Na frente dele."

"Eu não disse que era você."

"Você olhou pra mim."

Ele me beijou. Rápido, fundo, desesperado. A mão dele subiu pela minha coxa, por baixo do vestido, e eu deixei, eu deixei, com o coração batendo tão alto que eu tinha certeza que o Augusto ia ouvir do banheiro. Ele me tocou por cima da calcinha e eu estava molhada desde o pé debaixo da mesa.

"Você tá assim por causa de mim ou por causa do perigo?", ele perguntou.

"Dos dois", eu disse, honesta, sem ar.

Ele afastou a calcinha e enfiou dois dedos em mim, ali, encostada na geladeira, e eu mordi o ombro dele para não gemer. Foram talvez trinta segundos. Trinta segundos de loucura pura, os dedos dele se mexendo, minha boca no ombro dele, os ímãs da geladeira caindo no chão um por um.

Ouvimos a descarga.

Ele tirou a mão. Eu ajeitei o vestido. Ele abriu a torneira e começou a lavar as taças como se estivesse fazendo isso o tempo todo.

A porta da cozinha abriu.

"Precisam de ajuda?", Augusto perguntou.

"Não, pai. Tá tranquilo."

Augusto ficou parado na porta. Olhou para o Lucas na pia. Olhou para mim, encostada na geladeira, com o rosto vermelho e o cabelo desarrumado. Olhou para o chão, onde três ímãs de geladeira estavam espalhados no piso.

Depois olhou para o ombro do filho. Para a camiseta clara, onde havia uma marca pequena, molhada, de batom vermelho, exatamente no formato de uma boca.

O meu batom.

Ninguém falou nada. A torneira continuou aberta.

Augusto ficou ali, na porta, por um tempo que pareceu não acabar. O rosto dele não mudou. Ele sempre foi assim: não mudava o rosto quando entendia as coisas. Era isso que me irritava no casamento. Ele entendia tudo e não dizia nada.

"Bom", ele disse finalmente, a voz perfeitamente normal. "Eu vou indo. Amanhã acordo cedo."

Ele pegou a jaqueta no encosto da cadeira. Foi até a porta da sala. Lucas fechou a torneira. Eu não saí da geladeira.

Na porta, Augusto parou e se virou.

"Lucas", ele disse. "Amanhã você toma café comigo no hotel. Às nove. Só nós dois."

Não era um convite.

A porta fechou. Ouvimos o elevador descendo.

Lucas virou para mim, com a camiseta manchada de batom no ombro e as mãos molhadas pingando no chão.

"Ele sabe", disse.

Eu não respondi. Abaixei e comecei a recolher os ímãs do chão, um por um, porque precisava fazer alguma coisa com as mãos.

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